
o que há de ser é chuva
é água lambendo a terra
é lama vedando caminhos
é limo na pedra molhada
na vidraça embaçada
Camila é uma sombra
não sonha com olhos de ver
cansada de tudo já não tem frio
a última lágrima faz muito secou
ainda na boca o travo do vinho
Camila não pensa o passado
azulcíssimo o olhar perdido vazio
não sabe das mãos
inventando outros caminhos
tecendo um invisível fio
de uma meada não coisa
tornada aqui em peixe
em pássaros que não voam
flores eternamente viçosas
mares impossíveis céus
inolvidáveis auroras
mãos ágeis automáticas
mãos crispadas máquinas
mãos autônomas exatas
tecendo sóis olhos azuis
tecendo escarlate relva
imaculada vidraça tecendo
onde Camila criança sorri
quando a chuva cessar
quando os grãos germinarem
quando brotarem gerânios
nas floreiras da sua janela
trarei pão e promessas
trarei lume e alento
trarei os sonhos que roubei
as mãos máquinas cansadas
serão mãos para carinhos
enquanto durem os suprimentos
enquanto o inverno não venha
enquanto nossos exaustos corpos
não se amoldarem à terra
e aos astros nossos olhos.
Fred Matos é autor de Melhor que a encomenda (FUNCEB, 2006). Foto de ***LEE***, retirada do Flickr.
2 comentários:
Muito excitante, ritmo envolvente e temática levantando um intenso desejo.
Obrigado, Pereira.
Tenho especial carinho por este poema.
Abração
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