
Gláucia Lemos
Há os que passam
e passam como os trens
que não deixam senão o eco fugidio
do seu grito sem memória.
Além, no entroncamento das estradas
nada são.
São menos que ninguém.
Há os que, passada após passada
com que marcam
a saga passageira,
deixam sinais,
deixam mãos, deixam palavras.
E levam de quem fica o menor toque
e o recado do encontro.
Levou de mim, assim,
em cada movimento
do corpo, das mãos, dos olhos,
a minha pele, o meu tato,
e tudo o que os meus olhos puderam ver,
levou de mim, consigo.
E ficou
nos meus ouvidos, em todo o som
que puderem guardar,
de todo som em que o mundo se esparrama,
ficou a sua voz .
E assim vamos, metades repartidas.
Gláucia Lemos, ficcionista premiada, está organizando um livro de poemas. Foto "Metades", de Nika Fadul.