quinta-feira, 28 de agosto de 2008

O NASCIMENTO DO LIRISMO





(sobre os fragmentos líricos de Safo de Lesbos)

Gerana Damulakis




Um ícone (eikón ou imago) significa, como um termo de retórica, a inclusão de uma condição ou requisito numa determinada figura. O ícone vai tomando força ao longo do tempo nos exemplos repetidos, na reiteração daquela essência que o qualifica. Assim ocorreu com a figura de Safo.
Em 1845, o poeta francês queria publicar As lésbicas; passados 10 anos, Baudelaire publica seu livro conservando as três peças malditas (“Lesbos” e “Les femmes damnées” I e II ), que justificavam o título anterior e, agora, apenas fazem parte de uma das subdivisões de Les fleurs du mal, na edição de 1857. A lésbica baudelairiana é um exemplo na formação do ícone sáfico que vinha sendo montado desde Ovídio.

Nos registros iconográficos e literários gregos, Safo é uma mulher bela e alta. Ovídio a transforma, dando uma visão oposta do ideal antigo: uma mulher baixa e de tez escura. O mesmo aconteceu com sua história: Safo lançando-se de cima de um rochedo, num gesto suicida está de acordo com o gosto romântico, mas na narração de Ovídio, a intenção de Safo era cumprir o ritual de purificação do amor excessivo que sentia pelo barqueiro Fáon, ressurgindo daquelas águas curada pelos deuses, pois, na Antiguidade, o amor era uma doença com sintomas evidentes no corpo enfermo.

Foi o século XIX que cuidou de imprimir a imagem de Safo como uma mulher decadente numa corrida alucinada em direção ao abismo. Baudelaire e Verlaine ajudaram na formação deste ícone, atraídos, eles também, por tal fantasia.

Atualmente, os helenistas estão mostrando que as apreciações tanto da obra quanto dos sentimentos de Safo foram falseadas, amiúde com base nos preconceitos ligados à moral da poeta. Esta teoria está alicerçada no testemunho do poeta Alceu, contemporâneo e concidadão de Safo, e do filósofo Platão: para eles, Safo era uma bela mulher pura de sentimentos, chefe de um culto devotado a Afrodite.

Este culto foi uma academia (a Casa das Musas) de música e canto para moças, suas alunas, chamadas de suas hetairas (companheiras) que recebiam lições de caráter moral, social e literário, e que colocava Safo numa posição de honra e respeito na sociedade de Mittilene, principal cidade da Ilha de Lesbos. Por tais fatos, na construção do mito sáfico, atribuíram-lhe amores homossexuais e, por fim, o termo lésbica, que vem diretamente da relação com a pátria de Safo.

A verdade, no entanto, está na consideração que a obra da poeta adquiriu desde Platão e depois, com Plutarco, que a comparavam com as Musas, filhas de Zeus e Memória, sendo Safo mais do que uma inspirada por estas musas, mas ela própria uma deusa: a “Décima Musa”.

Única mulher entre os poetas da Grécia Arcaica, sua obra foi mal vista pela Igreja Católica, guardiã da Antiguidade durante a Idade Média, que tratou de queimar quase tudo no ano de 1073, por ordem do papa Gregório VII. Porém, no século XIX, viu-se que o Egito também era uma fonte destas obras; parte das poesias de Safo foi encontrada em papiros egípcios embrulhando múmias de crocodilos. Contudo, era pouco: de uma obra que ultrapassou os 10 mil versos, temos apenas alguns fragmentos. Servem, ainda assim, para marcar o nascimento do lirismo e a separação entre este e a épica tradicional.

Safo substituiu os heróis e os feitos gloriosos por sentimentos pessoais, cantando o “eu” e suas emoções. Na lírica, o comum é o amor. Nada comum é a apresentação do amor fora da conhecida disposição dos opostos, o bem e o mal, ou melhor, o bom e o mau. Safo cria a fusão no termo glykypikron (doceamargo), para o amor que simultaneamente traz prazer e dor. Ela diz: “... de novo, Eros/ que nos quebranta os corpos e me arrebata,/ invencível serpente”.

Este epônimo glykypikron, dado a Eros pela primeira vez, definiu, por fim e na íntegra, o que designa a expressão de Eros: desejo violento e brutal que invade completamente a alma e, triste paradoxo, rouba a identidade ou consciência; por tal, doce desejo, desejo amargo.
E Safo canta os deuses e suas forças, canta epitalâminos, paixões, saudades, enfim, sentimentos governados por Afrodite e Eros, tendo como primeiro ato a sedução. Os gregos têm a sedução como uma arte; faz-se necessário exercê-la, urge encantar, fascinar o outro: é a Persuasão, filha de Afrodite:

Quem, de novo,
Deve trazer a Persuasiva para teu amor?

Uma pergunta da poeta, parafraseada há mais de dois milênios nos cantos de amor, na invocação de Afrodite e nas lágrimas de Hécade, a força do dor, que ajudou a criar o mito da vida e da morte de Safo. Seu salto do alto das falésias de Lêucade lembra Psyché, ao deixar os mortais, também de uma falésia, para juntar-se ao divino Eros. O único poema inteiro que nos chegou ou qualquer fragmento poético de Safo, seja um verso, seja apenas uma palavra, está sempre expressando a força e o poder de Eros sobre todos nós.


Foto, Eros e Psyché, de Canova, por Sore Lovepain, retirada do Flickr.

4 comentários:

Nilson disse...

Legal a aula. Incrível como ela resistiu e chegou até nós, né não?

Carlos Vilarinho disse...

Por pouco os papas da I. Média matam o lirismo...

Anônimo disse...

Ótimo ensaio, Gerana. Uma aula.
Beijos.
Fred Matos.

gláucia lemos disse...

E que força, menina, e que força...
Resistir-lhe quem há de?