segunda-feira, 23 de agosto de 2010
domingo, 22 de agosto de 2010
DA SENSIBILIDADE
Gerana Damulakis
Álvaro de Campos e os domingos estão associados. Nada de extraordinário. O poeta remete muitos dos seus versos aos domingos ("Nenhum domingo.../ Nunca domingo..."). São seus gritos, no entanto, que tenho vontade de colocar aqui. Como eles estão em um longo texto, segue um trecho muito pequeno de "Ultimatum":
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------------------- ----------------------ATENÇÃO!
--------------------------------- Proclamo, em primeiro lugar,
----------------------------A Lei de Malthus da Sensibilidade
Os estímulos da sensibilidade aumentam em progressão geométrica; a própria sensibilidade apenas em progressão aritmétrica.
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Álvaro de Campos
Ilustração: Golconde, de René Magritte (1898-1967).
quinta-feira, 19 de agosto de 2010
MENESTREL DAS PARCAS E DAS FÚRIAS
Gerana DamulakisOs poemas colocados na categoria hedonística ou poemas eróticos, ou ainda, autobiográficos, carregam dramaticamente a culpa por uma homossexualidade que ele não aceitou, mas não resistiu e assumiu. Contudo, é à maneira de Eliot que Kaváfis recorreu às alusões históricas ou literárias, até com a intercalação de citações. Enfim, Konstantinos Kaváfis, um simbolista, absorveu o influxo de sua época.
Original, portanto, principalmente na sua exposição conceitual do prazer, quase uma provocação, desvinculando o desejo do amor. Escolhi, no entanto, o poema “Muros”, metáfora perfeita de certas ocasiões na vida, quando não há escapatória.
Sem cuidado nenhum, sem respeito nem pesar,
ergueram à minha volta altos muros de pedra.
E agora aqui estou, em desespero, sem pensar
noutra coisa: o infortúnio a mente me depreda.
E eu que tinha tanta coisa por fazer lá fora!
Quando os ergueram, mal notei os muros, esses.
Não ouvi voz de pedreiro, um ruído que fora.
Isolaram-me do mundo sem que eu percebesse.
Tradução de José Paulo Paes
segunda-feira, 16 de agosto de 2010
O JARDIM DE VEREDAS QUE SE BIFURCAM

Daí o fascínio pela arte literária, daí o espanto ao encontrar exatamente alguma aflição até então considerada particular.
quarta-feira, 11 de agosto de 2010
UM ESCRITOR LASCIVO

Gerana Damulakis
Não costumo ler biografias, memórias, relatos de viagens. Abro exceção para o escritor Paul Theroux e, por isso, digo outra vez: tudo é estilo.
Depois de O Grande Bazar Ferroviário (Objetiva, 2004), Theroux transformou mais uma viagem em livro: O Safári da Estrela Negra (Objetiva, 2009). E já encomendei o próximo: Até o fim do mundo (Objetiva, 2010). Mas, há uma curiosidade neste safári que reproduzo, quase na totalidade, no trecho retirado de Theroux.
O jovem e lascivo Flaubert - tinha apenas 27 anos - foi a Esna em busca de uma renomada cortesã, Kuchuk Hanem, "Pequena Princesa", e de sua famosa "Dança da Abelha". Esna, naquele tempo, era a cidade mais depravada do Egito, lotada de prostitutas que, por lei, tinham sido recolhidas no Cairo e deportadas para lá. Flaubert encontrou Kuchuk Hanem, que dançou nua para ele, em meio a músicos vendados.
A Dança da Abelha foi descrita como "basicamente um número cômico, em que a dançarina, atacada por uma abelha, tem que tirar toda a roupa". Mas o termo "abelha" é uma clara alusão, pois significa "clitóris" em arábe. Flaubert dormiu com a dançarina e registrou minuciosamente, em suas anotações de viagem, as particularidades de cada cópula, a temperatura de cada parte do corpo da mulher, seu próprio desempenho ("Eu me sentia como um tigre") e até os percevejos da cama, que ele adorou ("Gosto de um toque de pungência em tudo"). Ele anatomizou sua experiência egípcia em todos os sentidos da palavra, tornando-se um guia informal e um exemplo para mim.
(...)Ao deixar o quarto de Kuchuk, depois do encontro sexual, ele escreve: "Como seria lisonjeiro para o amor-próprio se, no momento de ir embora, eu tivesse certeza de que deixei uma lembrança, que ela pensará mais em mim do que nos outros que estiveram ali, que eu irei permanecer no coração dela!"
Mas isso é apenas um lamento, ele sabia que logo seria esquecido, pois admite mais tarde que, mesmo "tecendo uma estética em torno dela", a cortesã - vá lá, prostituta - não poderia estar pensando nele. E conclui: "Viajar nos faz ficar modestos - percebemos o lugar minúsculo que ocupamos no mundo."
Paul Theroux in O Safári da Estrela Negra - Uma viagem através da África
Gustave Flaubert (Illustration: Corbis)
domingo, 8 de agosto de 2010
ÂNGELA E MÔNICA: DIA 24
A compreensão da ambiguidade dos valores humanos pode gerar uma interpretação que de alguma forma consiga ser plasmada: tal forma é a arte. Ou a arte é a forma, melhor dizendo. A arte plasma os elementos essenciais da vida e, de mãos dadas com a beleza, o resultado é aberto às possibilidades de leitura.
Duas poetas entendem muito bem do assunto: Ângela Vilma e Mônica Menezes.
SENTENÇA
Ângela Vilma
O amor não nos salvará.
Não há salvação no amor.
Tu onde estás, eu onde estou,
Almas que se beijam no ar.
Apenas isso, e a doce vontade
MULHER
O lançamento dos livros Poemas para Antonio e Estranhamentos foi transferido para o dia 24 de agosto. Vale a pena uma visita ao blog http://angelaemonica.wordpress.com/.
quinta-feira, 5 de agosto de 2010
SE POETA FOSSE...
Gerana Damulakis
Poesia pede poesia, que pede por mais poesia.
Sombra de luz, meu obscuro
Retorno. Viagem do nada
Ao não sei onde.
Absurdo Aqueronte
Onde um peixe navega
E este peixe é meu sonho.
De O vaso ritual in Poesia reunida (Assembleia Legislativa do Estado da Bahia, 2008)
Foto: da esquerda para a direita, a poeta Myriam Fraga, o poeta Luís Antonio Cajazeira Ramos abraça a poeta Kátia Borges e a jornalista Suzana Varjão; seguem, do lado direito, eu e o escritor Aramis Ribeiro Costa.

