terça-feira, 18 de maio de 2010

KÁTIA BORGES: UM INGRESSO PARA UMA VIAGEM POÉTICA

GD

O lançamento do 3º livro de poemas de Kátia Borges, Ticket Zen (Escrituras, 2010), foi uma festa e tanto. Acontecimentos: conversas literárias interessantes (atualmente, o poeta Luís Antonio Cajazeira Ramos e eu só fazemos elogiar os contos de Marcus Vinícius Rodrigues, de tão encantados que estamos - o elogiado, ouvindo tudo); saudades de outros tempos foram levantadas, dos tempos das colunas do jornal A Tarde, no Caderno 2, graças ao encontro com a editora Suzana Varjão, muito querida por todos; a poeta Myriam Fraga revelou que é uma contadora de casos e a conclusão é a de que ela deve escrever suas memórias; a presença do pessoal da blogosfera, o poeta Nilson Galvão e Marcus Gusmão, e a presença de mais escritores: Aramis Ribeiro Costa, Gláucia Lemos, Lima Trindade, Lago Júnior, Aleilton Fonseca e Rosana Patrício, Adelice Souza e muitos outros que foram chegando.
Da primeira leitura (este Ticket Zen está mais próximo do volume De volta à caixa de abelhas), retiro um poema que retrata bastante bem os comentários de Cajazeira Ramos nas "orelhas", quando diz: "O livro sugere um diário, no qual a poeta registra em versos as experiências de fato e de sonho, fragmentos de lembranças e planos, momentos de angústia ou calma, o que a inquieta ou conforta, suas saudades e desejos, as frustrações, o amor".

COMO CHUVA FORTE
-----------------Kátia Borges
----------------------------------Quisera desabar sobre ti.
------------------------------------------Olga Savary

Nada guardei de meu, nesta viagem,
companheira, nada
que possa recordar de bom
e de feliz tudo o que vivemos.
O que me vem de nós é turbilhão
de horas mansas, de afundarmos juntos, de
--------------------------------[corrermos
sem segurança em meio aos trovões.

O temporal do amor, a chuva forte,
deixou minha alma encharcada.
Ao pensar no que passou, pesam-me as pernas.

Hoje, dispenso todos os remédios
e lanço ao inferno os chás e os unguentos.
Rezo ao delírio, busco a febre insana, me entrego.

Foto: Kátia Borges. KB é jornalista, mestranda em Literatura e Cultura pela Ufba, integrante do quadro editorial do jornal A Tarde.

domingo, 16 de maio de 2010

PROPRIEDADE



Gerana Damulakis

O poeta Manuel Anastácio dialoga com o texto de Fernando Pessoa da minha postagem anterior. A poesia permite e, inclusive, ganha com os diálogos entre os poetas em torno das grandes questões. Sabedor e mestre dos versos, Manuel confere ao seu texto poético um lirismo a mais na surpresa do verso final, sempre encantando.

PROPRIEDADE

---------------Manuel Anastácio


Não possuo o teu corpo.

Mesmo quando o possuo,

Só quando por ele sou possuído

É que dou como indeferido o resultado da reflexão.

Não possuo o teu corpo

Nem a minha alma tem garras com que o agarre.

Não possuo o que como, que em mim se esvai,

Não possuo a minha alma, que em meu corpo se distrai.

Não possuo. Nem o que sei, em verdade, é meu

Se em verdade algo me não é dado que já não seja meu


Porque não sei se é, apenas teu, e a mim, vagamente,

Emprestado.

Nada em mim vejo aclarado e transparente.

Vagamente, nada em mim está, assim, em mim presente,

Nem sólido monumento, nem pensamento, nem palavra
nem fonema,

Nem dúvida nem certeza. Nem prosa nem poema.

Sonho? Provavelmente, não. Até porque a Ilusão

É arte que se vende cara.

Eu não sou eu.
E só não nego a tua presença,
Que não possuo,
Porque me entreguei em verdade e disse:
Sou teu.


Ilustração: Estudo cênico de Alamada Negreiros.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

EU NÃO POSSUO O MEU CORPO


Gerana Damulakis

É difícil apontar o meu poeta português preferido - talvez seja Mário de Sá-Carneiro - porque simplesmente venero a poesia do país irmão. Em tempo: jamais entendi a razão de Portugal ser nosso país irmão; assim, estava eu com uns 10 anos de idade quando perguntei - não, não perguntei, afirmei logo - para meu pai se o certo não seria país pai.

Mas o assunto é outro (eu sempre acabo em meu pai, desculpem, é que ele vive nos meus pensamentos). O assunto é Fernando Pessoa.

O escritor Luiz Ruffato teve a sorte de fazer uma seleção de textos (poemas, fragmentos de cartas) seguindo seu gosto - que trabalho delicioso! O resultado foi o livro Fernando Pessoa - Quando fui outro (Objetiva/ Alfaguara Brasil, 2006). Dele, retiro o texto bem pessoano que faz pensar e pensar e pensar.

EU NÃO POSSUO O MEU CORPO
Fernando Pessoa

Eu não possuo o meu corpo - como posso eu possuir com ele? Eu não possuo a minha alma - como posso possuir com ela? Não compreendo o meu espírito - como através dele compreender?

Não possuímos nem o corpo nem uma verdade - nem sequer uma ilusão. Somos fantasmas de mentiras, sombras de ilusões, e a nossa vida é oca por fora e por dentro.

Conhece alguém as fronteiras à sua alma, para que possa dizer - eu sou eu?

Mas sei que o que eu sinto, sinto-o eu.

Quando outrem possui esse corpo, possui nele o mesmo que eu? Não. Possui outra sensação.

Possuímos nós alguma coisa? Se nós não sabemos o que somos, como sabemos nós o que possuímos?

Se do que comes, dissesses, "eu possuo isto", eu compreendia-te. Porque sem dúvida o que comes, tu o incluis em ti, tu o transformas em matéria tua, tu o sentes entrar em ti e pertencer-te. Mas do que comes não falas tu de "posse". A que chamas tu possuir?


Ilustração: de Almada Negreiros: Retrato do Poeta Fernando Pessoa, 1954.

domingo, 9 de maio de 2010

A ÁRVORE DA VIDA



Gerana Damulakis

Milan Kundera, em A arte do romance (Companhia de Bolso, 2009), coloca toda sua lucidez crítica sobre a literatura. A leitura sobre a literatura é tão fascinante quanto a arte literária mesma. Há uma parte dos ensaios, quando Kundera resolve fazer uma espécie de dicionário pessoal, um dicionário de seus romances, com sua palavras-chave, suas palavras-problema, suas palavras- amor...

Sobre a inexperiência, ele (e é por isso que preciso dos escritores) escreve exatamente o que, por vezes, me ocorre:

Nasce-se uma vez por todas, jamais se poderá recomeçar uma outra vida com as experiências da vida precedente. Sai-se da infância sem saber o que é a juventude, casa-se sem saber o que é ser casado, e mesmo, quando entramos na velhice, não sabemos para onde vamos: os velhos são crianças inocentes de sua velhice. Nesse sentido, a terra do homem é o planeta da inexperiência.

Milan Kundera

Ilustração: A árvore da vida, de Gustav Klimt.

terça-feira, 4 de maio de 2010

"HOJE, TENHO MUITO O QUE FAZER"



Gerana Damulakis

Muitos, muitos são os versos que habitam nossos pensamentos. Bastou que M., do blog Estranhamentos (http://estranhamentos.zip.net/), fizesse uma postagem sobre a poeta ucraniana Anna Akhmátova (1889-1966) para que exatamente os dois versos iniciais da 2ª estrofe do poema "Veredicto" mostrassem a permanência de tal poesia em mim. Conheço duas traduções. Uma delas é da conceituadíssima Aurora F. Bernardini e de Hadasa Cytrynowicz, mas optei pela de Lauro Machado Coelho porque os dois versos que me tomam estão naquela tradução.


VII
O VEREDICTO
------------Anna Akhmátova

E a pétrea palavra caiu
sobre o meu peito ainda vivo.
Pouco importa: estava pronta.
Dou um jeito de agüentar.

Hoje, tenho muito o que fazer;
devo matar a memória até o fim.

Minha alma vai ter de virar pedra.
Terei de reaprender a viver.

Senão… o ardente ruído do verão
é como uma festa debaixo da janela.
Há muito tempo eu esperava
por este dia brilhante, esta casa vazia.


in Réquiem: um ciclo de poemas (1935-1940). Seleção, tradução e notas: Lauro Machado Coelho. (L&PM, 1991).
Ilustração: Natan Altman, Retrato de Anna Akhmátova, a poetisa (1914).

domingo, 2 de maio de 2010

VERSO & PROSA

Gerana Damulakis

Os próximos livros do Selo Cartas Bahianas, da P55, serão lançados: a poesia de Karina e a prosa de Marcus Vinícius.
Karina Rabinovitz, do blog Sussurros (http://www.karinarabinovitz.blogspot.com/), que espalha seus versos pela cidade, publica o título Livro do quase invisível. Do seu blog retirei versos:

o peixe tinha molho de manga e alcaparras,
só pra lembrar:
a vida são essas farras!
entre doce_salgado,
leve_pesado
amanhã_passado

e no meio do furacão de tudo,
entre manga e alcaparras,
sua risada. suas asas.
só pra lembrar:
a vida são essas pausas...

Marcus Vinícius Rodrigues publica Eros Resoluto (contos). Sua prosa é aberta aos acontecimentos e aos momentos de quebra ao longo da vida. Tais momentos, ou tais acontecimentos, são recortados e plenamente preenchidos pela imaginação do ficcionista, sem desprezar o que ali ele possa colocar da experiência própria da realidade o que, contas feitas, torna seu texto sempre verossímil e com duas miradas, uma mais íntima, outra mais afastada.
Marcus também tem um blog, o Café Molotov:
http://cafemolotov.blogspot.com/

Dia 4 de maio, na Tom do Saber, Pirâmide do Rio Vermelho. Será muito bom: não percam!