domingo, 9 de maio de 2010

A ÁRVORE DA VIDA



Gerana Damulakis

Milan Kundera, em A arte do romance (Companhia de Bolso, 2009), coloca toda sua lucidez crítica sobre a literatura. A leitura sobre a literatura é tão fascinante quanto a arte literária mesma. Há uma parte dos ensaios, quando Kundera resolve fazer uma espécie de dicionário pessoal, um dicionário de seus romances, com sua palavras-chave, suas palavras-problema, suas palavras- amor...

Sobre a inexperiência, ele (e é por isso que preciso dos escritores) escreve exatamente o que, por vezes, me ocorre:

Nasce-se uma vez por todas, jamais se poderá recomeçar uma outra vida com as experiências da vida precedente. Sai-se da infância sem saber o que é a juventude, casa-se sem saber o que é ser casado, e mesmo, quando entramos na velhice, não sabemos para onde vamos: os velhos são crianças inocentes de sua velhice. Nesse sentido, a terra do homem é o planeta da inexperiência.

Milan Kundera

Ilustração: A árvore da vida, de Gustav Klimt.

28 comentários:

Bípede Falante disse...

Excelente reflexão. Não tinha parado para pensar que a experiência tem um alcance, por vezes, tão limitado ou inútil para a próxima empreitada.

Marcantonio disse...

Olha, não poderia ser dito de uma maneira melhor. E, no entanto, abundam receitas, mapas e breviários para nos ensinar como viver a vida de forma ideal! Sem dúvida, quem fala de experiência de vida, geralmente não tem noção da particularide que ela pode representar.

Um abraço

dade amorim disse...

Meu Deus, que perfeição de análise.
Lembrei de um poema que escrevi outro dia e tem uma estrofe assim:

dividiu a casa
com quem não conhecia
e aprendeu a amar
o bem e o mal do estranho
até perder as asas

Mas você tem razão. E mais, só pode ser um bom literato, escritor ou crítico, quem tem a humildade de confirmar, conferir suas intuições e insights.

Beijo.

Edu O. disse...

Estava precisando disso agora. Obrigado. Vi este trabalho de Klimt ao vivo. É maravilhoso!

Pena disse...

Linda e Doce Amiga:
Milan Kundera fez parte das minhas leituras de algum tempo.
É preciso e precioso no que deseja transmitir.
Foi uma bela escolha na crítica sensata a toda a evolução do Ser Humano.
Milan Kundera sempre se impôs por um pensamento marcante e de imensa significação.
Um Post perfeito da sua autoria.
Excelente!
Bem-Haja, pela sua simpatia e amabilidade.
Beijinhos amigos agradecidos pela sua deliciosa visita que adorei.
Sempre e constantemente com o maior respeito e admiração pelo seu génio e pela preciosidade que é e significa para todos nós.

pena

MUITO OBRIGADO pela sensível e delicada visita no meu "cantinho".
Bem-Haja, preciosa amiga.

José Carlos Brandão disse...

Você viu o dito do Lobo Antunes, de que só começa um romance quando tem certeza de que não conseguirá terminá-lo? A inexperiência é o que dá graça à vida.
Um beijo, Gerana.

João Renato disse...

Gerana,
Gosto muito das avaliações que pessoas inteligentes, já numa idade avançada, fazem da vida.
Quando Pedro Nava fez oitenta anos, assisti uma entrevista dele lamentando os impedimentos da velhice. Lembro até que dirigiu um sugestivo galanteio à reporter, dizendo ela que era bastante "potável".
Lá, negou a importância da experiência acumulada pela idade, falando que esta vivência era "um carro andando para frente, mas com os faróis iluminando para trás".
Mas, acrescento eu, talvez o risco da inexperiência seja a beleza da vida.
Abraço,
JR.

Lisarda disse...

Gerana, um hermoso sujeito-a idéia de um dicionário pessoal- e um belo texto.Tém um olhar sobre a inexperiencia que me faz lembrar de Gombrowicz.
Não li ainda A arte do romance, mas sua postagem é um bom estímulo para já procurar-o.

Assis Freitas disse...

é a fragilidade da nossa existência, o aprendizado que nunca se conclui. abraço

Maria Muadiê disse...

lindo. um tanto assustador na prática, mas dito desse jeito é...renovador.
bjo

Jairo Cerqueira disse...

Perfeito!
Adorei ver, na 'Insustentável leveza do ser', os pormenores que suscitam os acontecimentos na vida.
Valeu pela postagem incentivadora.

Editora Muiraquitã disse...

Olá.
Passando por aqui para avisar que temos sorteio no blog da Editora. Passa lá: http://editoramuiraquita.blogspot.com/2010/04/sorteio-do-livro-roteiro-sentimental-do.html

Abraços.

Tânia regina Contreiras disse...

Uma estréia sempre viver, é o que parece. Nada de ontem nos assegura para o minuto seguinte. Viver é começar toda hora.

beijos,
Tania

Juan Moravagine Carneiro disse...

Kundera é um autor que ainda nõa adentrei nele como deveria, sempre estou rodeando o mesmo...Klimt é muito bom realment...!

Agredecido pela visita ao Rembrandt

Ana Tapadas disse...

Kundera é um dos meus autores favoritos. O excerto que destacas resume bem uma verdade insofismável.
Estamos de acordo.
Beijinho e boa noite (portuguesa)

glaucia lemos disse...

Concordo com Kundera. Vive-se sem ter tomado um curso anterior para errar menos.Daí...cada dia é um novo desafio, chega a ser cansativo. Muito bom texto. e Klimt ah! Eterno! Impressionante no seu lirismo.

Daniel Hiver disse...

Muitas vezes venho aqui retribuir tuas visitas e teus comentários. E sempre dou de cara com postagens que evidenciam teu gosto pela literatura. Não qualquer literatura. Mas a de excelente qualidade. Sempre acima da média.
Agora honestamente experimentei a "insustentável leveza do ser" por que fiquei aqui intrigado pensando em como alguém que cita Milan Kundera, sente também meus versos íntimos nas horas vagas.
Já os dedos de ferro da realidade dura nem sempre significam mudanças de fase. Eu ainda ando entre os sonhos impossíveis e as realidades mais prováveis.
Obrigado pelos comentários a respeito "de meus dicionários pessoais de palavras que eu junto para explicar minhas sensações."

aeronauta disse...

Vivemos, enfim, sem nada saber, nada. Atônitos, cegos, e, algumas vezes, felizes.

Chorik disse...

Creio que você saiba o que penso sobre "jamais se poderá recomeçar uma outra vida com as experiências da vida precedente."
Bj

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Puxa, mas esse cara arrasa mesmo. Tenho que ler este, acho que é o único que ainda não li.

Me fez lembrar do ótimo Roland Barthes, e seus fragmentos.

Mas não sei, acho que acredito em outra vidas. Consola, como diz vc.

aeronauta disse...

Sensíveis e generosas palavras as suas, Gerana, lá no meu blogue. Fico tão feliz com suas leituras... Grata, muito grata.

Rayuela disse...

Esta cita de Kundera, acerca de la inexperiencia, me recordó, inmediatamente, un fragmento de "El pájaro que da cuerda al mundo", de Murakami.
En esa pequeña parte de capítulo, dos protagonistas reflexionan sobre el transcurrir de la vida y el destino.Uno de ellos, afirma que nada hay adelante, ni siquiera el destino. Que el destino se ve al volver la cabeza hacia atrás, una vez caminada la vida, una vez transitada la experiencia.

un beso,Gerana*

Por que você faz poema? disse...

Kundera sempre me encanta.

Non je ne regrette rien: Ediney Santana disse...

Querida não sei o nome da Rua, mas assim qeu puder vou aos correios e pergunto para vc
abraços

Fernando Campanella disse...

É por isso que precisamos dos escritores, Gerana, a palavra a serviço da lucidez, da beleza, da sensibilidade. Um outro olhar, que se refletido em nós, nos revela.
Ótima pintura do Klint, ótimo excerto do Kundera, ótima postagem. Um abraço.

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Gerana, tenho várias perguntas, mas talvez, no fundo, ela seja uma só.

Uma vez vc disse num coment seu no ceuAberto, que fez uma grande mudança na sua vida. Com seu jeito reservado, deu a entender que não foi fácil, mas que tinha valido TUDO!

Deixei passar...

De novo, esta semana vc tocou no assunto, me recordando que já havia dito isso. Então, agora, eu quero mesmo saber dessa mudanaça.

Como foi, se tem a ver com a Bahia, ou com seu sobrenome, ou sei lá...

Pode ser um post, pode ser aqui, ou te dou meu email, vc decide... no seu tempo.

E assim, lá foi aprimeira pergunta.

Mai disse...

Perfeito!

Eternos aprendizes.A cada etapa uma nova inocência.

Beijos e bom final de semana

Nilson disse...

Genial! Engraçado, li esse livro há muito, não guardei quase nada, ou nada. Memória vagabunda!!!