terça-feira, 4 de maio de 2010

"HOJE, TENHO MUITO O QUE FAZER"



Gerana Damulakis

Muitos, muitos são os versos que habitam nossos pensamentos. Bastou que M., do blog Estranhamentos (http://estranhamentos.zip.net/), fizesse uma postagem sobre a poeta ucraniana Anna Akhmátova (1889-1966) para que exatamente os dois versos iniciais da 2ª estrofe do poema "Veredicto" mostrassem a permanência de tal poesia em mim. Conheço duas traduções. Uma delas é da conceituadíssima Aurora F. Bernardini e de Hadasa Cytrynowicz, mas optei pela de Lauro Machado Coelho porque os dois versos que me tomam estão naquela tradução.


VII
O VEREDICTO
------------Anna Akhmátova

E a pétrea palavra caiu
sobre o meu peito ainda vivo.
Pouco importa: estava pronta.
Dou um jeito de agüentar.

Hoje, tenho muito o que fazer;
devo matar a memória até o fim.

Minha alma vai ter de virar pedra.
Terei de reaprender a viver.

Senão… o ardente ruído do verão
é como uma festa debaixo da janela.
Há muito tempo eu esperava
por este dia brilhante, esta casa vazia.


in Réquiem: um ciclo de poemas (1935-1940). Seleção, tradução e notas: Lauro Machado Coelho. (L&PM, 1991).
Ilustração: Natan Altman, Retrato de Anna Akhmátova, a poetisa (1914).

31 comentários:

Ianê Mello disse...

Gerana,

maravilhosa postagem.

A poeta Anna Akhmátova é, na verdae Russa e passou pelos horrores da 2ªGuerra Mundial,sendo perseguida pelas autoridades stalinistas.

Sua poesia é densa e intimista, retratando seus sofrimentos durante esse período.

Vale a pena ler sua Antologia Poética, a quem interessar, editada pela L&PM Pocket, cuja tradução é de Lauro Machado Coelho.


Grande beijo.

Gerana Damulakis disse...

Oi, Ianê: eu também pensava que ela era russa, pois que está inserida no cânone da literatura russa, mas ela nasceu em 23 de junho de 1889 "na Ucrânia, no mar Negro, em Bolchói Fontán, um elegante subúrbio de Odessa". Edição belíngue do Réquiem, com a tradução de Aurora Bernardini (Art Editora, 1991).
Valeu. Bjo.

Fernando Campanella disse...

Oi, Gerana, encontrei este poema de Akhmátova e achei muito bonito, tradução do Lauro Machado Coelho. Compartilho com vocês aqui em seu blog. Grande abraço.

DE "OS MISTÉRIOS DO OFÍCIO"


"De que servem exércitos de canções
e o encanto das elegias sentimentais?
Para mim, na poesia, tudo tem de ser desmesurado,
e não do jeito como todo mundo faz.


Se vocês soubessem de que lixeira
saem, desavergonhados, os versos,
como dente-de-leão que brota ao pé da cerca,
como a bardana ou o cogumelo.


Um grito que vem do coração, o cheiro fresco de alcatrão,
o bolor oculto na parede...
E, de repente, a poesia soa, calorosa, terna,
Para a minha e tua alegria."

BAR DO BARDO disse...

A tradução já diz tudo. Imagina o original!...

M. disse...

Gerana, bom saber mais sobre Akhmátova, eu também achava que ela era russa. Sei que, utimamente, seus versos têm falado fundo ao meu coração. Obrigada. Beijos

Anônimo disse...

"Nasci no mesmo ano - 1889 - que Charlie Chaplin, que a 'Sonata a
Kreutzer' de Tolstói, que a torre Eiffel e cem anos após a queda da Bastilha." - palavras da própria Anna em 'Anna, a voz da Rússia", de
Lauro Machado Coelho, ed. Algol. E
nasceu em Bolshói Fontán, nas imediações de Odessa (a mesma da célebre escadaria de 'O encouraçado Potemkim'), na Ucrânia,então pertencente ao império russo.
Este livro da Algol traz um cd com trinta e cinco poemas na voz da própria Anna e, em português, na voz de Beatriz Segall - além de uma excelente biografia da poeta, por LCM.
SIDNEY WANDERLEY

Assis Freitas disse...

Clarice também nasceu na Ucrania. Mulheres poderosas gestam aquelas terras. Abraço.

João Renato disse...

Olá Gerana,
Bonito poema.
Nele, o que não é dito importa mais que as palavras.
JR.

Daniel Hiver disse...

Gerana...
Há muito tempo que quando algo não vai bem, eu tento "matar a memória até o fim"; e percebo que, no caso da minha, ela é imortal.

betina moraes disse...

belíssimo gerana, belíssimo!

inclusive os acréscimos que estão nos comentários.

tenho a lista completa daqueles ditados, de a a z! osso mandar para você,

o meu e-mail é

cespontanea@gmail.com

você pode mandar o seu endereço para lá, assim posso enviar a lista, se você quiser.

beijos!

Maria Muadiê disse...

esse poema é grandioso.
beijo

Juan Moravagine Carneiro disse...

Toda vez que adentro em seu espaço o primeiro pensamento que tenho é de agradecimento...

Pois sempre me vejo diante de algo novo, de qualidade...que deixa meu dia mais "completo"

Abraço

Lisarda disse...

Defintivo, como a contemplação da que fala.

Ana Tapadas disse...

Gerana,
que maravilha de postagem e o poema transcrito calou-me fundo na alma. Obrigada!
Beijinho

M. disse...

Fiz a correção da nacionalidade dela lá no estranhamentos. Obrigada, Gerana. Sempre. Bjs

Edu O. disse...

Casou lindamente a palavra com a imagem!

Rayuela disse...

excelente post acerca de un poema de Akhmátova!

siempre es un placer leerte.

mil besos,Gerana*

José Carlos Brandão disse...

Poema muito bom, Gerana. Fortes esses dois versos. Eu cultivo a memória, mas quem sofreu demais quer é matá-la.

Bernardo Guimarães disse...

definitivamente, eu não sou poeta!

Nilson Barcelli disse...

Não conhecia e achei o poema excelente.
A forma como está escrito é perfeitamente actual, na minha opinião.
Obrigado pela partilha.
Querida amiga, bom fim de semana.
Um beijo.

Non je ne regrette rien: Ediney Santana disse...

veja só, estou publicando um livro só de sonetos ou de tentativas de sonetos cahmado Rua da Alegria e quem abre o livro como apresentação? Anna Akhmátova

Chorik disse...

Fui buscar outra tradução para a estrofe em negrito. De fato, essa tradução é muito mais eficiente. Matar a memória até o fim versus acabar com o eco da memória.
Sabe qual o problema de acompanhar seu blog, Gerana? A gente vai fazendo uma lista de leitura que não tem fim! rs
Abs

Carolina Caetano disse...

Gerana;

A aspiração é a que, em três anos, eu possa ler os originais. E, como ainda traduzido, leio em fisgadas, natas compreensões que intentamos, preciso preparar o peito pra reconhecê-la em língua própria. Lindo, lindo! Como toda forte obra de Anna.

Também os dois versos orientados por você enlaçaram toda minha leitura.

Abraços!

Adriana Karnal disse...

Gerana,
traduzir poema é um absurdo, não é? esse está maravilhoso...

Jefferson Bessa disse...

Anna é mulher de fibra. Fala sempre com uma bela força.
Gosto muito, Gerana!
Beijos.

gláucia lemos disse...

Quem plasmou uma rocha neste corpo
eu nunca lhe direi.
Está ´no meu livro Trilha de Ausências, no final do poema Personagem. Mas eu nunca tinha lido Anna Akhmátova, de quem só nessa postagem estou tomando conhecimento.
Meu professor na Ufba Romano Galeffi dizia que as ideias estão em algum ponto do infinito e nós as detectamos quando vibramos na mesma frequência. Quem sabe ele estava certo.Palmas a Anna.

Lidi disse...

Lindo poema, não conhecia.
Beijo, Gerana!

Prisca disse...

Gerana:
Pode deletar esse comentário, é só pra dizer qeu deixei um selo no meu blog: http://prisca-pensamentos.blogspot.com/ para ires buscar e indicares mais dez blogues nomeados.
Espero que goste
Beijos

Pri

dade amorim disse...

Tarefa difícil, essa de traduzir poemas. Necessária, porque a poesia, estranhamente, resiste, se a tradução é assim fiel, ainda que não literal - o que é quase impossível.

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Gerana...sei que não é de bom tom copiar e colar, mas não resisto:

"Hoje, tenho muito o que fazer;
devo matar a memória até o fim."

Eu acordo assim, quase todos os dias de minha vida. E sigo assim, entre visões e sonhos parciais, que nem sei dizer se sonhei ou se vivi.

Agora, quando isso acontecer, tasco-lhe essa frase. Será que funciona? tenho esperança!

Gerana, puxa, tenho tanta coisa pra te perguntar....posso?

Mai disse...

"Matar a memória até o fim".
É calcinar sua história e transformar em um punhado de cinzas.
Nossa, quanta dor essa força guarda.
Incrível!

Não conhecia, Gerana.
Grata.
bjo