
Gerana Damulakis
Com pelo menos 30 livros publicados, desde 1937, e muito aclamado pela crítica, vencedor de, no mínimo, 10 prêmios literários, certamente o autor da Gramática... entrou na história da poesia nacional ocupando um lugar semelhante ao que ocupa Clarice Lispector na prosa brasileira, seja pelo que há de comum entre os dois escritores, nas suas lutas com as palavras para que digam além do que elas podem, seja pela proposta movida por uma intensa insatisfação quanto à ordem natural das coisas.
Repito: o que fez Clarice Lispector (10 de dezembro de1920 - 9 de dezembro de1977) com palavra na prosa parece ser o que faz Manoel de Barros (19 de dezembro de 1916- ) com a poesia. Estilo feito de invenções e de achados, substantivos são adjetivados, adjetivos e verbos são substantivados, violenta-se a regência verbal e neologismos ornamentam os versos, ou melhor, as frases. Como saber qual dos dois escritores disse:
Ri de novo, em leves murmúrios como os da água
Ambas são frases de Clarice Lispector.
É preciso ir mais adiante um pouco para constatar o paralelo:
O silêncio piscava nos vaga-lumes (...) os vaga-lumes abriam pontos lívidos na penumbra.
Mais uma vez, Clarice Lispector. Estou certa de que houve quem pensasse que esta última frase era de Manoel.
Agora estas frases:
O estilo de achados - flagrantes poéticos e iluminações - acaba comovendo mais ainda quando presente no gênero que lhe fica melhor, que é a poesia. Primeiramente é encantador, mas o risco é o de que possa descair em verbalismo, do que, vale ressaltar, Lispector livrou-se justamente devido ao gênero por ela praticado.
Uma outra pedra de toque da poesia de Manoel é o efeito da frase. Muitos, os que torcem o nariz para sua obra, rotulam-no de mero “frasista”. Pode-se dizer e classificar o poeta de vários modos, até de ecologista da palavra, mas é certo que ele chegou num momento do século passado que parecia totalmente sem perspectivas de algo diferente daquele “grafismo”, já tão longa e fartamente em moda, e deslumbrou.






