quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

"TEU NOME É PARA NÓS, MANUEL, BANDEIRA"

Gerana Damulakis

Somos tão complexos. Ao mesmo tempo: pareço viver sob a necessidade de ler todos os escritores, de ler os livros do mundo e, logo, pareço ser repetitiva, vivendo sob as mesmas necessidades. É o que ocorre quando se trata de Manuel Bandeira: uma necessidade recorrente. Já fiz três postagens com o centão intitulado “Antologia”, de Manuel Bandeira. Escrevi:

Um centão é uma composição poética (ou musical) elaborada com versos de vários autores ou de apenas um autor, assim como diz o nome: “manta de retalhos”, que vem do latim “cento”. A origem do centão é greco-latina: o poeta de então clamava por poemas homéricos e virgilianos como ponto de partida para construção de seu centão. No caso de Bandeira, o poema “Antologia” é um centão com seus versos.
Certa noite, resolvi me dedicar ao centão e procurei a origem de verso por verso, todos pertencentes a poemas memoráveis de Manuel Bandeira. Primeiramente seria maravilhoso sentir “Antologia”, perfeito como se sua feitura não tivesse nada de uma “colcha de retalhos”: fruto da magia do mestre.

Depois coloquei todos os poemas, evidenciando qual verso foi retirado para a composição do centão. Não repitirei, ficaria longo. Mas a necessidade de uma leitura dos versos de Bandeira resulta na repetição, mais uma vez, do poema que guarda, digamos, um resumo.


ANTOLOGIA
------------Manuel Bandeira

A vida
Com cada coisa em seu lugar
Não vale a pena e a dor de ser vivida.
Os corpos se entendem mas as almas não.
A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

Vou-me embora p’ra Pasárgada!
Aqui não sou feliz.
Quero esquecer tudo:
— A dor de ser homem...
Este anseio infinito e vão
De possuir o que me possui.

Quero descansar
Humildemente pensando na vida e nas mulheres que amei...
Na vida inteira que podia ter sido e que não foi.

Quero descansar.
Morrer.
Morrer de corpo e alma.
Completamente.
(Todas as manhãs o aeroporto em frente me dá lições de partir.)

Quando a Indesejada das gentes chegar
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa.
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.

O título da postagem está entre aspas porque se trata de um verso de Carlos Drummond de Andrade: "Ontem, hoje, amanhã: a vida inteira,/ teu nome é para nós, Manuel, bandeira".

6 comentários:

Assis Freitas disse...

Manuel Bandeira é um dos poetas vitais da literatura de língua portuguesa. Caminhou com estilo próprio em sua longa vida literária. Com a humildade dos sábios se dizia "poeta menor", qual nada Bandeira era referência, farol. Gosto de poetas que ficam de soslaio, estão na constelação mas evitam ser fulgurantes demais. Ele se sabia estrela da vida inteira.

Fred Matos disse...

Antes de Drummond, de Fernando Pessoa, de tantos outros poetas que admiro, Bandeira e Cecília Meireles foram os meus primeiros contatos com a poesia, mas talvez não seja este o motivo de que mantenham-se os meus poetas favoritos.
Beijos, Gerana.

Kátia Borges disse...

Gerana, Manuel foi meu melhor amigo imaginário na infância, ao lado de Cecília. Sinto sempre necessidade de voltar a ele, e a ela, especialmente quando as coisas ficam meio complicadas no cotidiano. Um beijo

NAMIBIANO FERREIRA disse...

Obrigado pela visita e comentário, sem dúvida Bandeira é uma grande bandeira na Poesia Lusófona...
Kandandu

Nydia Bonetti disse...

E que bela colcha de retalhos esta que teceu com os os versos mais marcantes do mestre, Gerana. Adorei.

beijo.

aeronauta disse...

Bandeira e Cecília, meus anjos, meus santos, sempre.