sábado, 2 de agosto de 2008

ELEFANTES E GUEPARDOS



Texto em homenagem ao centenário de Machado de Assis
Carlos Vilarinho

Venho sentindo nos últimos tempos, posso dizer-lhes com a franqueza da alma, pode rir-se também se quiser. Dado à estranheza e absurdo do sentimento. Mas percebo renitentemente que está em arrabaldes, no ar, na atmosfera um incomum processo, familiar até, de proximidade com o autor centenário Machado de Assis. Fico assim pairado, pois como ele morava no Cosme Velho. Era o bruxo do bairro. Eu que não sou bruxo nem nada, nem mágica para enganar criança faço, sou morador de Cosme de Farias. Moramos em bairros homônimos. Também isso não é lá grande coisa, mesmo porque os dois Cosmes eram distintos. Um era comerciante português de séculos atrás, o outro, esse mais próximo de mim, era advogado sem carta de Direito que proclamava justiça aos pobres. Não faço idéia como esse sentimento singular, misterioso e excêntrico vem iminentemente propagando-se de imediato e em princípio, acho eu, em mim mesmo.
Uma vez ao escrever um conto, não lembro qual, tive uma visão metafísica. Ou foi um sonho acordado. Ou foi uma viagem astral. Vi um homem barbudo, com um cavanhaque acentuado, muito parecido com o bruxo do Cosme Velho, dizendo a mim que eu estava caminhando sobre letras certas. Foi um enleio abstrativo. De imediato afirmo-lhe que não usei nada que me levasse a um barato lingüístico-literário-histórico. Então me lembrei dos elefantes que andam em bandos e na hora da morte trilha seu caminho sozinho para o desenlace atmosférico. Talvez o indivíduo que escreve, e que se descobre caminhando para escrever, aja assim. Claro, bem metafórica a comparação. De qualquer forma a figura do elefante bem que se parece com um escritor debruçado em livros na ânsia de absorver e em seguida escrever, criar. Eles nunca esquecem. Tanto um como o outro. Pode-se dizer, no entanto, que como em tudo que compõe a vida, o ato de traduzir o ser humano suscita também uma das mais febris dúvidas. Onde está a imaginação ou a vida? Princípio, meio e fim. Entre as infinitas centelhas de genialidade que assaltam Gabriel García Marquez, ele saiu-se com essa uma vez “... o puro prazer de narrar é talvez o estado humano que mais se parece à levitação”. E levitando provavelmente era que o bruxo do Cosme Velho deveria pender seus olhos em observações antropológicas para então dar vida (ou imaginação) à Capitu, por exemplo. Ora, ora, seria então um duelo infausto, como diria o próprio Machado em uma de suas cartas, o desafio diário e cotidiano de um observador de nuances de seus semelhantes. Retratá-las como um espelho de letras e ao final de tudo, levitar-se, como quer Gabo. Ou confessar de si mesmo, de si para si, ou para outros, como Gerana Damulakis acentuou em texto a respeito de Clarice Lispector. É essa proximidade que começa o texto, talvez familiar, ou por completar um ciclo de cem anos que nos deixa herda bruxarias lexicais, que seja, urge ser desnudado o homem do século XXI. Aparentemente igual, parecido, em paradoxo diferente, quiçá um outro tempo, mas com os mesmos anseios e dificuldades de século atrás. De épocas atrás. O homem é o mesmo desde Homero. Outros sofistas, uma inquisição “modernizada” e a mesma informação maniqueísta. Sendo que todos são bons e ruins ao mesmo tempo. Maniqueísmo em cada um de nós.
De mais a mais, sendo épocas distintas e distantes, havia e há a mesma evolução tecnológica, científica. Os mesmos discursos políticos, os mesmos dissabores sociais. Hoje um pouco mais intenso. No entanto, como diria outro ensaísta “a literatura não era pensada como manifestação autônoma, e sim tributária de uma discussão sobre o sentimento de nossa natureza, a originalidade da nação, o indianismo, enfim, a cor local”. Há originalidade nos elefantes de hoje. Não há cumplicidade entre os pares da pena, melhor, do word. Não posso, no entanto, sozinho, sentir a proximidade familiar de um bruxo centenário. Ou correr desarvorado para lugar nenhum. Correr sim, como um guepardo entre antílopes, mas coletivamente e em objetivo comum. Revelar o homem do século vinte e um.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

O AMOR MESMO PEQUENO É GRANDE


Ildásio Tavares



Dos meus pequenos amores, talvez
tenhas sido o maior. Ainda te vejo
esvoaçar viçosa pela calçada
na saída do cinema, atirando
o cabelo ao vento, com tua graça
atrevida de adolescente precoce
que gostava muito de ler poesia;
de desenhar; de discutir a razão
das coisas, das pessoas, dos
gestos e das atitudes e que me
desafiava com seu desdém de
jovem deusa. Mal acreditei quando
te vi, primorosamente nua no
desvario de minha cama de poeta
largado do destino – mais de
quarenta anos, contemplando
a flor de dezessete e abrindo
as suas pétalas de par em par.
Mal acreditei. Até hoje eu me
pergunto se não foi um sonho
aquela viagem, glória fugaz
e luminosa; capricho teu que
que não tiveste outra vez -
tão voluntariosamente foste
quão vieste e me abriste tua
corola, Ó ninfa fugidia.



Ildásio Tavares, poeta e ficionista, tem vários títulos premiados. Foto do Flickr, de John Monteiro.

TUA


Gláucia Lemos


Aqui
como manhã que aguarda uma hora sépia
para torná-la o dia de uma prece,
aguardo,
que és a água, e és o pão.
Sou a filha perdida em sempre busca
da tenda do teu peito.
Sou a fêmea felina te aceitando
nas varandas do corpo,
sem garras e sem presas
e sem pressa.
Boca e febre,
trilha e descoberta,
teto e companheira,
ou, não mais que tua.

Gláucia Lemos é poeta e ficcionista. Cronista do leitoracritica. Foto de marília assis, retirada do Flickr.

quinta-feira, 31 de julho de 2008

EM FALTA COM LAGO JÚNIOR








Nem acredito que não fui ao lançamento de Ao amigo desconhecido (Fundação Pedro Calmon, Selo Letras da Bahia, 2008), de meu querido amigo Lago Júnior. Foi uma honra fazer o prefácio deste seu segundo livro de poemas, assim como fiz o do primeiro. De Dúbio Labíolo - Transparências (BDA, 1996) tirei, inclusive, um verso para levar comigo vida afora: "Se da dúvida do não, eu sempre fizer a dúvida do sim, pode ser que eu ame muito mais".

DONA VIDA E DONA MORTE

Lago Júnior

Sou um poema de sínteses.

Pêndulo equalizador.

Antítese azul.

Tese amarela.

Sou seu e dela,

das imagens que fiz de mim e de vós,

Senhoras.

SONETO DE EXÍLIO

Ildásio Tavares

Vossos olhos, senhora, que competem
com o sol em formosura e claridade
Luís de Camões


Senhora, quando vejo, tão formoso
o vosso gesto amado que sorri,
percebo que outro igual não sei nem vi
e que vosso desprezo é deleitoso.
Vede, meu sofrimento é tão gostoso
e leve como a pena que escrevi;
me apraz cumprir a pena que cumpri
por crime de que não sou criminoso.
Se errei ao desejar casta mulher;
se chorei por um riso tão bonito;
se amei quem não me ama nem me quer,
parecer não me importa o esquisito;
hei de chorar sorrindo até morrer,
hei de errar por amor ao infinito.

O DIÁRIO ÍNTIMO DE CLARICE LISPECTOR




Gerana Damulakis


(sobre a crônica da consagrada romancista)




As crônicas de Clarice Lispector têm semelhanças com um diário íntimo. A escritora está de frente para o mundo para mergulhar em si mesma cada vez que a solicitação externa suscita uma reflexão interior. Portanto, ela faz do fato mero veículo para questionamentos, sempre exercícios de ficção ou levantamentos autobiográficos.
Foi na crônica que Clarice se escreveu. E, como diante de um analista, o começo não foi fácil, na verdade, foi-lhe custoso. Depois, acostumada ao novo ofício, ela se delicia com o lugar onde pode ser mais verdadeira, mais franca para consigo.
Como nas histórias, tudo começou com um espaço cultural na imprensa, o Suplemento Dominical, em 1956, no Jornal do Brasil, quando Clarice transitou, primeiramente com trechos de A maçã no escuro, de 25 de março de 1961. Antes disso, ela já escrevia para o jornal sob o pseudônimo de Helen Palmer, no Correio da Manhã, distribuindo conselhos e receitas. É em 1965 que a escritora assume a crônica semanal do Caderno B do Jornal do Brasil, a princípio temerosa, no lugar de Rachel de Queiroz: “Como vou arranjar assunto para uma crônica, que é sempre um comentário de acontecimentos?” Também diz assim: “Ser cronista. Sei que não sou, mas tenho meditado ligeiramente no assunto. Na verdade, eu deveria conversar a respeito com Rubem Braga, que foi o inventor da crônica”. No entanto, ela chegou a seu próprio entendimento do que é a crônica, por uma estrada muito clariceana, ou seja, se questionando: “Crônica é um relato? É uma conversa? É o resumo de um estado de espírito?” Clarice optou pelos resumos de estados de espírito em tom de conversa, enquanto relatava fatos que, quase invariavelmente, ocorriam com ela mesma, com ênfase para aqueles que se davam com suas empregadas domésticas e, como ela se locomovia de táxi, com os motoristas dos carros que a transportaram; ambos assuntos nas suas crônicas por diversas vezes. Sabia-se, assim, o que se passava no dia-a-dia da escritora de A paixão segundo G.H.. Porém, não foi apenas isso, sabia-se mais, sabia-se o que lhe ia na alma de mulher e de escritora.
De 1965 a 1973, Clarice Lispector escreveu crônicas para o Jornal do Brasil, tendo a subjetividade reinado sobre o factual e, onde, a priori, o que ela fez foi uma tentativa de autobiografia, a ponto de , a certa altura, confessar, na crônica, seu espanto diante do rumo que aqueles textos estavam tomando: “Rubem, não sou cronista e o que escrevo está se tornando excessivamente pessoal. O que é que eu faço?” É aqui que observamos a semelhança das crônicas de Clarice com o diário íntimo porque tais questionamentos sobre seus textos e sobre si mesma conduziram-na a reflexões constantes, buscando explicações. As explicações, construídas, foram para a página do jornal, e, mais tarde, para o livro de reunião das escolhidas.
As crônicas de Clarice, onde os acontecimentos são apenas pretextos para sua relação com o real, colocam claramente a realidade dentro do texto, que bem poderia ser tão somente imaginação. Apesar dessa colocação, haverá de se dizer também que o espaço da crônica foi usado por Clarice para exercitar a sua obra ficcional, o que, de resto, não põe de lado a afirmativa sobre ser a dela uma reunião de crônicas que mais se assemelha a um diário íntimo, podendo, sim, inserir aqui um ajustamento, haja vista ser o diário um lugar onde cabe muito bem o exercício da imaginação; diríamos, pois, um diário de uma escritora, aquele lugar certo para se treinar trechos de romances e contos. Daí encontramos um tanto de real e outro tanto do ficcional, que, por fim, acabam construindo a autobiografia.
Por sinal, não há cronista que escape à crônica que começa falando que hoje está triste, que hoje está irado, que hoje seu dia está cinzento. Realmente, não há escapatória para o cronista, ele invariavelmente acaba não resistindo à confissão do seu estado de alma. Em “Dies Irae”, temos:
"Amanheci em cólera. Não, não, o mundo não me agrada. A maioria das pessoas estão mortas e não sabem, ou estão vivas com charlatanismo. E o amor, em vez de dar, exige. E quem gosta de nós quer que sejamos alguma coisa de que eles precisam".
Em suma, a crônica é difícil de ser definida, podendo ser vista como um conto, como um texto reflexivo e filosófico, muitas vezes até como uma catarse, uma confissão, aparentadas com o diário íntimo. Clarice se confessa em tantas crônicas e chega a confessar muito, por exemplo, em “Fartura e Carência”:
"Mais o pior é o súbito cansaço de tudo. Parece uma fartura, parece que já se teve tudo e que não se quer mais nada. Cansaço dos Beatles. E cansaço também daqueles que não o são. Cansaço inclusive de minha liberdade íntima que foi tão duramente conquistada. Cansaço de um amar o outro. Melhor seria o ódio. O que me salvaria dessa impressão de fartura — é fartura ou uma liberdade de que está sendo inútil? —seria a raiva".
Em 25 de setembro de 1971, outra crônica também intitulada “Dies Irae”, vem com maior abertura, permitindo que se possa conhecer melhor a escrita da ficcionista , porque se nos romances e nos contos o mistério persiste, nas crônicas há a revelação desse mistério, na medida em que Clarice foi escrevendo seus textos para o jornal, sempre na primeira pessoa, sempre, e mesmo se contando um fato, numa cascata de reflexões que a iam ajudando a resolver impasses e até o que, mais tarde, faria parte de um romance ou de um conto:
"Esta — se disse o homem como se fosse para uma guerra — esta é a minha prece de possesso. Estou conhecendo o inferno da paixão. Não sei que nome dar ao que me toma ou ao que estou com voracidade tomando senão o de paixão. O que é isso que é tão violento que me faz pedir clemência a mim mesmo?"
Trechos de 18 de setembro de 1971, trazem escritos como estes: “Estou escrevendo de madrugada. Estou escrevendo com muita facilidade, e com muita fluência. É preciso desconfiar disso”. Acompanhando essa preocupação constante com o ato da escritura, está uma outra, bem maior, a preocupação com seus descobrimentos: “Um domingo de tarde sozinha em casa dobrei-me em dois para a frente - como em dores de parto - e vi que a menina em mim estava morrendo. Nunca esquecerei esse domingo. Para cicatrizar levou dias. E eis-me aqui. Dura, silenciosa e heróica. Sem menina dentro de mim”.
Ficamos de tudo sabendo, inclusive dos planos para logo mais. Contudo, se a “crônica é tudo aquilo que o autor assim chamar”, a de Clarice é a crônica que se insere nessa pluralidade de definições, assim, fica infundada a intriga que chegou aos ouvidos da escritora e esta registrou no jornal: “Uma pessoa me contou que Rubem Braga disse que eu só era boa nos livros, que não fazia crônica bem. É verdade, Rubem? Rubem, eu faço o que posso. Você pode mais, mas não deve exigir que os outros possam. Faço crônicas humildemente, Rubem. Não tenho pretensões. Mas recebo cartas de leitores e eles gostam. E eu gosto de recebê-las”.
A verdade é esta mesma, a de que não havia compromisso, por parte de Clarice, em se tornar a grande cronista. Ela começou insegura, revelou tal insegurança, até exaustivamente no próprio jornal e, com o exercício e o tempo, aquela que chegou a perguntar, em crônica, a Rubem Braga, o que fazer no espaço do jornal a ela reservado, passou a fazer o que quis, sem imitar outros cronistas: “Na literatura de livros permaneço anônima e discreta. Nesta coluna estou de algum modo me dando a conhecer. Perco minha intimidade secreta?. Se, quando em vez, ela teve preocupações quanto a se aquilo que escrevia era crônica, com o tempo Clarice decidiu por si, pela liberdade, pelo mostrar-se, enfim, ela dá a ver: “Avisem-me se eu começar a me tornar eu mesma demais”, em “Fios de Seda”.
Como a crônica brasileira tornou-se um gênero literário, perdeu, assim, a efemeridade do seu veículo de origem e chegou ao objeto seguro. Em livro, pois, temos as crônicas de Clarice Lispector, ou temos o diário de Clarice Lispector. De uma forma ou de outra, compreendemos mais e melhor algo que interessa muito à literatura: o estilo da escritora.
A ligação entre seu eu, o eu clariceano, e o mundo em torno, traz à tona mais do que uma simples observadora do cotidiano, embora ela não deixe de fora a realidade do tempo em que vive, e, por essa via, se dá uma reconstrução de sua história, de como e porque seus pais resolveram concebê-la, de como e porque, ela muito menina, começou a escrever, e por aí afora. É por toda essa gama de fatores que uma coletânea de crônicas de Clarice Lispector parece uma autobiografia, onde ela celebra a vida e o ato de escrever.
Creio que é a conclusão a que chego ao ler, logo abaixo do retrato de Clarice feito por Carlos Scliar, um trecho, que foi arrancado de uma crônica de 14/ 09/ 1968. Tenho-o emoldurado na parede, ergo os olhos do computador e leio:
"Escrever é procurar entender, é procurar reproduzir o irreproduzível, é sentir até o último fim o sentimento que permanecia apenas vago e sufocador. Escrever é também abençoar uma vida que não foi abençoada".

quarta-feira, 30 de julho de 2008

PACTO



Fred Matos


falemos sobre as pequenas coisas que nos cercam
falemos vagarosamente para que durem
um mínimo instante além do tempo que as fitamos

para as grandes coisas
já dedicamos toda a nossa pressa
e ela não foi capaz de nos dar conforto
nem de solucionar os graves problemas humanos

dediquemos às pequenas coisas um olhar preguiçoso

melhor ainda
façamos um pacto de silêncio enquanto caminhamos
de mãos dadas como Ricardo e Lídia à beira do riacho
onde eu nunca me havia dado conta
dos pés de avenca na sombra amarela do Ipê

façamos um pacto de silêncio para ouvir os pássaros
façamos um pacto de silêncio para ouvir as águas
e os seixos que rolam no seu leito

façamos silêncio para ouvir o vento
façamos silêncio porque as palavras estão gastas
como os seixos que rolam ao sabor das circunstâncias.



Este “pacto” é um dos poemas do livro inédito de poesia “nas horas e horas e meias”.
Foto de selenis, retirada do Flickr.