Aramis Ribeiro Costa 
Amor não se define - é mágica e loucura
Encontro e desencontro e encanto conquistado
É cegueira total e olhar que tudo apura
E tem em tal contraste o fogo renovado.
Indefinido amor, impulso incontrolado
Que se refaz de espera e tudo crê e jura
Que arde e consome e mata o próprio ser amado
Amor que se acomoda, amor que se aventura.
Amor que nasce morto e ainda assim existe
Amor que se desgasta em vão e se maltrata
Amor que tudo pode e deve e exige e serve!
Amor - encantamento que afinal resiste
A esperança maior, a sensação mais grata.
Indefinido amor: que o sonho te conserve!
Soneto de Espelho Partido - Sonetos Escolhidos 1971-1996 (Funceb, 1996).
quinta-feira, 17 de julho de 2008
SONETO DO AMOR INDEFINIDO
quarta-feira, 16 de julho de 2008
SONETO DO DEFINIDO AMOR

DE CRIATURA A CRIADORA, MULHER, PERSONAGEM (SONHO) DE SI MESMA
Gerana DamulakisDe criatura a criadora, a mulher percorreu um longo caminho de tributos e punições. E no início eram Adão e Lilith. O mito de Lilith é bastante explorado na literatura, William Faulkner e Mac Donald foram dois escritores que se encantaram com toda a gama de significações encerrada nesta lenda. Criados por Deus em condições de igualdade, Adão e Lilith viviam juntos até Lilith cometer o primeiro pecado – que não foi a mordida da maçã – ao proferir o nome d’Ele. Expulsa do paraíso graças aos seus excessos, afoiteza e galhardia, e suas inquietações, Lilith passou a simbolizar a desventura, o mal, o diabólico exagero.
Adão ficou só, mas não sustentou a solidão por muito tempo e rogou a Ele uma outra mulher. Porém dessa vez havia um preço a ser pago: uma parte de seu corpo. É sintomático desde logo o que resolveu a questão: de Adão não foi retirado nada dos olhos ou ouvidos, pois a mulher não deveria ver ou ouvir melhor que ele; nada a tirar da cabeça, do contrário, ele iria correr risco de ter um mulher que pensasse; também nada havia a retirar de suas pernas para que ela não corresse mais do que ele. Deus sugeriu, então, o osso curvo que chamamos costela. É um osso que não faz falta, além de ter a vantagem dessa curvatura que figura tão bem o sempre-curvado-a-ele.
A pequena história conta, em síntese, o papel da mulher, o que lhe coube, e daí vem a luta para reverter o conto e alcançar, ainda que na contramão, o destemor de Lilith. Na literatura escrita por mulheres se conta outra vez a lenda da primeira desafiadora: no início foi Safo, igual aos seus amigos poetas, ou mesmo mais ousada tal qual Lilith. Há ainda um escritora importante na hipótese de Harold Bloom, que foi capaz de propor uma polêmica quando, no O Livro de J. , que levanta "o mistério J." e a autoria original de trechos como os da criação de Adão, Noé e o dilúvio, José e seus irmãos e o episódio do Êxodo, do Velho Testamento dos cristãos. J. teria sido uma mulher, uma escritora da estatura de um Homero ou de um Shakespeare.
Mas, antes do século XVIII, o que encontramos é uma ou outra voz feminina, seja Sor Juana Inés de la Cruz, do México, ainda nos 600, seja a fama das Cartas de Amor de Mariana Alcoforado, escritas três séculos atrás. O que se vê, na verdade, é a mulher se debatendo com uma linguagem proibida. Emily Dickinson enfatiza o “sacrifício da mulher associado à fala considerada ilegítima e à sexualidade considerada subterrânea”. Contudo, as Novas Cartas Portuguesas já comprovavam o desassossego por originar uma linguagem aceitável para o gênero feminino. No princípio do século XVIII, as mulheres começaram a escrever e publicar expressivamente tanto no continente europeu como nas Américas, ainda que o palavreado refletisse a índole feminina firmada na rainha do lar. Apesar disso, a outra faceta virtualizava o mal e no instante em que se dá a autoria, a mulher criadora revelada pula fora da vida privada e, intrusa, faz da atividade cultural, que não lhe é própria, passagem para a simbolização da bruxa malvada. Seguindo essa trilha de condenação, a história e o hábito estéticos determinam a dádiva ou a faculdade de criação artística, como algo especialmente masculino, o que não causa admiração, afinal é a figura Paterna, o criador, o determinador.
Vê-se que pertence a mulher o papel alegórico, diabólico ou celestial, enfim, intercessora entre o criador, artista pois, e o mistério, doutrinando-o para a perversão e/ou lançando-o ao estado de candura. Em suma: musa. Essa posição diferenciada da mulher em relação ao homem permanece até o século XX.
Basta olhar os ideais cristãos da Idade Média apartando o sexo, o gênero, dos demais valores espirituais ou sociais, e, se depois a Inquisição rotula a mulher como emissária do demônio, enviada com o intuito de tentar o homem, então, resta olhar a Renascença, quando um “certo casamento” parece mais harmonioso.
Dando um salto direto para o Romantismo, vemos uma elevação da emoção e dos sentimentos e, com isso, a mulher é enaltecida para ser digna de contemplação. Estamos, outra vez, no século XX porque a conclusão fica a cargo das teorias psicanalíticas e das pesquisas científicas, responsáveis pela mudança relevante da visão humana de gênero, igualando os sexos e seus poderes.
A literatura acompanhou o desenrolar da luta dos gêneros: longe do tempo em que, cercada de lendas amorosas que aumentavam sua fama, a poeta Safo celebrizou os cantos de amor às suas ninfas, a autora obriga-se a criar contradizendo o modelo nascido do protótipo através de personagens representativas de sua contida, represada e acobertada aspiração, de forma a conseguir arremessar os ímpetos revolucionários e a energia do desespero em imagens excêntricas ou entusiasmadas, desfiguradas ou patéticas. É como se o próprio ato de escrever criasse o sujeito insano, “a figura da louca”. Cecília Meireles diz: “Sentada estava a Rainha, sentada em sua loucura./ Que sombras iam passando,/ naquela memória escura? “
O interessante é que no final dos 800 está evidente a quantidade de alterações nos temas e nas metáforas, remarcando, portanto, os papéis sexuais devido à necessidade de uma determinação dos gêneros e dado o pesar intrínseco na palavra “fim”, de fim de século, e toda a implicação que essa expressão carrega e produz como convulsão de conceitos.
Acontece a incursão feminina no mundo dos intelectuais, levantando discursos e discussões: é o tempo da guerra dos sexos.
Aqui e ali, uma Francisca Júlia (1874 – 1920) seguindo as diretrizes do realismo, uma Rosália de Castro ( 1837 – 1885), na Espanha, marcando seu nome com eternas letras femininas na poesia. Não resta dúvida de que a prosa foi mais fecunda: na ficção, desde 1678, Madame de Lafayette aparece com La Princesse de Clèves. Impossível não mencionar Madame de Stäel (1766 / 1817), e mais além Charlotte e EmilyBrontë, nos 800, enquanto na Inglaterra, Ann Radcliffe, por exemplo, torna-se a escritora mais popular e mais bem paga no século XVIII; também Mary Shelley, já no Romantismo, cria o mito eterno de Frankentein.
Mas, estamos mirando especialmente a poesia e, para tanto, é indispensável olhar a poeta romântica Emily Dickinson, americana que viveu de 1830 até 1886, tendo uma corrente de sucessores que testemunham sua importância. A pesquisa evidencia a fertilidade dos 800, chegando à contemporaneidade em todo o mundo com nomes como Elizabeth Barret Browning, nascida e 1806, consagrada pelos seus Sonnets From the Portugueses; sem esquecer Christina Rossetti, nascida em 1830, em Londres, irmã mais moça de Dante Gabriel Rossetti.
Na poesia norte-americana, encontramos Hilda Doolittle, nomeada H.D., contemporânea de Pound e William Carlos Williamns, pregadora dos "imagistas” e da “ausência de emoção”, enquanto Mariane Moore perseguia a exatidão com tanto radicalismo que ficou sendo rotulada de poeta cerebral e, de resto, fez uma poesia das mais fluentes na época com seus animais chamados “antipoéticos”, que serviam de isca para pegar o flagrante da verdadeira poesia e, assim “Poetry”, sua ars poética, consta de toda antologia publicada em qualquer parte do mundo.
Ainda, Edna St. Vicent Millay, Prêmio Pultizer, em 1923, ou Elizabeth Bishop, que nos é cara pois traduziu nossos poetas, por exemplo, Drummond. Sem deixar de mencionar Anne Sexton, também Prêmio Pultizer, ombro a ombro com Sylvia Plath devido a nota nova que ambas se preocupam em imprimir à poesia escrita por mulheres, de saída, diferente da frieza de M. Moore, mostrando uma vontade firme de abrir espaços. Anne Sexton, norte-americana, nascida em 1928, morreu tragicamente, suicidando-se em 1974, o que sugere uma comparação com a sorte de Sylvia Plath: vidas sofridas e encantos sublimes, as mesmas inquietações, como em: “Auge”, de Plath:
“A mulher está perfeita./ Morto,/ Seu corpo mostra um sorriso de satisfação,/ A ilusão de uma necessidade grega/ Flui pela dobras de sua toga,/ Nus, seus pés/ Parecem dizer:/ Fomos tão longe, é o fim. "
No Brasil, Henriqueta Lisboa, vinda dos anos 30 do século XX, amadurece junto com o nosso Modernismo, e Cecília Meireles desponta, em 1945, com Mar Absoluto. Ainda na nossa língua, Sophia de Mello Breyner Andersen, em Portugal, é voz marcante sem se desfeminilizar. Em 1945, a poesia e a mulher são premiadas com o Nobel de Literatura através da chilena Gabriela Mistral por seu conjunto de obras: Croquis Mexicanos, Desolación, Ternura, Tala.
A poesia escrita por mulheres é fato reconhecido, nomes imortais estimulam ensaios e estudos. João Carlos Teixeira Gomes assinala no livro A Tempestade Engarrafada a convergência das poetas Alfonsina Storni e Florbela Espanca, baseada na paixão e na agonia. O ensaísta diz: “O recalque atávico, de clara conotação freudiana na sua expressão individual (...) denuncia as pressões desencadeadas por 20 séculos da repressão sexual vinda do bojo da concepção judaico-cristã do mundo, que ela (Storni) repele, numa veraz e voraz celebração do impulso erótico e da força dos instintos nos jogos amorosos”: "Pudiera ser que todo lo que en verso he sentido/ no fuera más que aquello que nunca pudo ser,/ no fuera más que algo vedado e reprimido/ de família en família, de mujer en mujer".
Esta é Alfonsina Storni, naturalizada argentina, colocando no modus faciendi da condição feminina a sensualidade sem hipocrisia, tal como fez sua contemporânea Florbela Espanca. Ambas, e isso lembra o outro paralelo linhas acima entre Plath e Sexton, resistem, bravas, quanto ao desejo do homem, daí o caminho da negação: “O amor dum homem? Terra tão pisada,/ Gota de chuva ao vento baloiçada.../ Um homem? – Quando eu sonho o amor dum Deus? ...”.
Já levantei, em outra ocasião, uma semelhança entre Florbela e a brasileira Gilka Machado, nascida um ano antes que Florbela. Gilka expõe na poesia a diferença entre as naturezas feminina e masculina, ao plasmar a verdade do sentimento machista que não traz culpa nem ânsia de amar, pois, na sociedade em que vivemos, este parece ser um pecado essencialmente feminino, herança legada pelo mito de Lilith e por Eva, desafiadoras das leis em nome do desejo.
Gilka for precursora na luta pelos direitos da mulher em alcançar as representações do desejo na poesia, isto é, “não mais um corpo marcado pelo a-menos, mas sim um corpo que pode assinalar a fonte de um novo discurso”. Verseja Gilka: “ Eu sinto que nasci para o pecado,/ se é pecado na Terra amar o Amor:/ anseios me atravessam, lado a lado,/ numa ternura que não posso expor”.
Vale a pena citar um outro tipo de luta das mulheres utilizando a palavra poética: luta mais árdua, luta vã, mas tentativa válida no texto sofrido de Anna Akhmatova (1889 / 1966), lírica tensa e ampla, expressando a amargura da mãe que teme pelo destino do filho e da pátria num momento histórico difícil na então União Soviética. Também Marina Tzvetaeva (1892 / 1941), de vida e destino trágicos, continua a nostalgia e a dor do romantismo que expressa a busca da pátria e do companheiro através da magia verbal e de certa “impostação de voz populista”.
A poesia escrita por mulheres, vista pelo crítico Wilson Martins, marca a distância percorrida pelo feminismo literário, pois a leitura simultânea de uma poeta atual e de uma outra deixa evidente o caminho intelectual, emocional e social efetuado pelo feminismo literário nos últimos 80 anos. O ponto negativo reside na redução da poesia a lugares-comuns e ladainhas obsessivas, desmonetizando a temática do desejo, tanto mais que, para Wilson Martins, ao tratamento literário dado por um Gilka Machado, por exemplo e para ficarmos com uma poeta da qual já falamos, sucede um tratamento filosófico, descritivo e referencial, de resto, um tratamento antipoético.
A responsabilidade de tudo isso fica por conta das tentações do sucesso de escândalo e, assim, Gilka chega a mudar para “Cio” o título do belo soneto que se intitulava “Noturnos”, na edição original de seu Cristais Partidos.
O crítico paranaense mostra com segurança como a temática sofreu um desgaste graças aos sobrelanços inevitáveis da imitação que causou a condenação na medida em que o feminismo literário passou a ocupar o espaço do homem, usando o palavrão, a emancipação sexual e a obrigação do trabalho fora de casa.
Não há como fugir dessa realidade que reflete o extremo alcançado pela nova mulher. O preço pago por tal geração foi alto. Ana Cristina César deixou isso claro na sua poesia. Ela escreveu e pagou o valor: “ Pergunto aqui, meus senhores/ Quem é a loura donzela? Que se chama Ana Cristina? E que se diz ser alguém? É um fenômeno mor/ ou um lapso sutil? “.
Passados os lapsos, enganos, exageros, bravatas e, menos a Lilith do folclore assírico-babilônico, fantasma diabólico, para ser mais um gênero próprio e diferenciado, a mulher que escreve hoje luta com palavras na sempre “luta mais vã”, processando uma das maiores utopias da literatura que é, como ressaltou Laforgue, a conversão do autor ou autora, em personagem de si mesmo.
segunda-feira, 14 de julho de 2008
ESSE PRAZER SEM NOME

Gláucia Lemos
Apago a luz do teto, deixo o abajur quase em penumbra, e fecho os olhos.
A cabeça permanece a trabalhar no mesmo ritmo em que passou todas as horas do dia. Percebo que na agitação em que a tenho, não há cristão que repouse, como dizia minha mãe. Falta música. Música que me possua e me relaxe. O remédio santo e o sublime prazer. Uma faixa de Louis Armstrong vai me tomar todo sentimento e dissipar a tempestade, o que nunca é difícil escolher.
What did I do to be so, pouco a pouco me vai envolvendo. Sem demora o som do trompete modula, e já não sou a mesma. Divino Armstrong.
Em alguma encarnação fui uma negra em New Orleans, freqüentando os cafés nos quais os blues imperavam absolutos. Em um ângulo qualquer do salão, um negro dedilhava uma guitarra chorosa, tirando o jazz, repetitivo e monocórdio, no improviso do lamento a prantear a infância ao abandono, uma mãe embriagada, um pai morto na linha do trem, e etecetera, etecetera e tal. Ninguém lhe concedia atenção, pois qualquer um outro ali estaria, fazendo a mesma coisa, e ninguém lhe daria atenção. O quadro fazia parte do contexto.
Em uma plataforma um sax-tenor, um cover de B.B.King, animava o salão, permanecendo por exaustivas horas a se encantar na busca à blue note fugidia.
O som de Armstrong me penetra. Eu tinha um cansaço, tenho agora a magia da música que me estraçalha o coração e a alma, na voz rascante, e me convence de que jamais saberei expressar o que se passa em mim quando me entrego à possessão de um blue. Eis um prazer sem nome. Sinto desfalcado o meu vocabulário, meu idioma carente de palavras novas, alguma especialmente moldada ao sentimento no qual eu, inteira, me envolvo, desfeita e misturada - fisicamente misturada - como uma massa amolecida e amalgamada aos sons, à melodia e à harmonia, aos acordes e aos arpejos. Sinto-me despersonalizada, deixo inteiramente de ser, até o agudo final, limpo e declinante, do trompete que se perde quase sem sentirmos, como em um gemido macio que arrematasse um abraço amoroso.
Em algum tempo perdido na eternidade – se eu tivesse suficiente credulidade para afirmar que vivemos diferentes tempos – fui plantadora de arroz, às margens do Mississipi, e entoei spirituals em templos anglicanos. Minha alma teria sido impregnada dessa cadência nostálgica, e dessa melancolia sensual que embala e comove. Teria sido amante de algum Louis Armstrong, ou abandonada por um Coleman Hawkins. Ou simplesmente teria sido glorificada por algum mero plantador de arroz das margens do Mississipi, que cantasse gospel nas igrejas, e freqüentasse os cafés escuros de New Orleans, como eu. Se assim eu tivesse sido. Se eu acreditasse na existência de outros tempos nos quais houvesse vivido e convivido.
Estou no meu tempo e no meu espaço, corre na minha seiva uma mistura ibérica de complexa definição, meu coração brasileiro o é cada vez mais. Sou amante de Armstrong com o amor amado nas faixas dos CDs. Jamais serei abandonada por Coleman Hawkins, obviamente, ele não se evadirá das faixas em que o tenho gravado. Quanto ao plantador de arroz, ainda não conheci nenhum, e pela ‘desadmiração’ que voto ao mandatário daquelas bandas, não tenho a menor intenção de ir a New Orleans nem a qualquer dos outros estados daquela União.
Estou novinha em folha, minha alma apaziguada, dormirei tranqüila. Amanhã talvez faça um belo dia de sol nesta minha cidade que amo.
Gláucia Lemos é ficcionista, cronista e poeta. Tem mais de 20 títulos publicados e vários prêmios literários. Esta é mais uma crônica para um livro que nasceu aqui, neste blog. Foto de Louis Armstrong, por discoverblackheritage, retirada do Flickr.
quinta-feira, 10 de julho de 2008
SE TU ME ESQUECES (If you forget me)
Voz de Madonna, cenas do clipe "The Power of Goodbye".
Pablo Neruda
Quero que saibas
uma coisa.
Tu já sabes o que é:
se olho
a lua de cristal, o ramo rubro
do lento outono em minha janela,
se toco
junto ao fogo
a implacável cinza
ou o enrugado corpo da madeira,
tudo me leva a ti,
como se tudo o que existe,
aromas, luz, metais,
fossem pequenos barcos que navegam
para essas tuas ilhas que me aguardam.
Pois ora,
se pouco a pouco deixas de me amar,
de te amar, pouco a pouco, deixarei.
Se de repente
me esqueces,
não me procures,
já te esqueci também.
Se consideras longo e louco
o vento das bandeiras
que canta em minha vida
e te decides
a me deixar na margem
do coração no qual tenho raízes, pensa
que nesse dia
a essa hora
levantarei os braços
me nascerão raízes
procurando outra terra.
Porém,
se cada dia,
cada hora,
sentes que a mim estás destinada
com doçura implacável.
Se cada dia se ergue
uma flor a teus lábios me buscando,
ai, amor meu, ai minha,
em mim todo esse fogo se repete,
em mim nada se apaga nem se esquece,
do teu amor, amada, o meu se nutre,
e enquanto vivas estará em teus braços
e sem sair dos meus.
Tradução de Thiago de Mello.
SUICIDA
David Nobrega
David Nobrega criou e escreve nos blogs coletivos, pseduo-poemas ( http://www.pseudo-poemas.blogspot.com/) e no Canto dos contos ( http://contodecanto.blogspot.com/).Vai fazer uma exposição com suas fotos em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, com poesias suas e de outros poetas convidados. Dia 19 de julho.
segunda-feira, 7 de julho de 2008
RÉSTIA DE LUZ

Para Gerana
Ainda ontem, entrei sem querer naquela
pensão barata (mas limpa e asseada)
onde nos encontrávamos felizes nos
finais de tarde. Entrei sem querer,
eu juro. Procurava uma peça de carro
numa daquelas lojas perto da estação
e quando dei por mim, estava bem na porta.
Resistir, quem havia de?
Na penumbra furtiva do corredor,
o coração descarrilou até o quarto
17 que me aguardava calado como uma
verdade eterna. Tudo igual. A cama
imaculadamente branca; um criado mudo;
duas cadeiras de palhinha puídas; e a
bacia de louça cor de rosa em que te lavavas depois,
ocultando teu gesto,constrangida,
para não te banalizares – tua aura de
deusa profanada por uma intimidade prosaica.
Quanta vez este teu recato ante a promiscuidade
me excitou, te enlacei por detrás
e te trouxe de volta ao vendaval da cama!
Tu sempre resistias. Você é louco, menino? Ele chega
cedo do trabalho. Olhe aquela réstia de luz na persiana
que engatinha sorrateira a caminho da noite. Mas
resistias um resistir indeciso, querendo mesmo te
entregar, e desta vez com mais volúpia.
É um amor bem mais amor esse amor
que me fazes depois, tu murmuraste
um dia, abaixando os olhos, com esse
teu jeito envergonhado e tímido de
tudo fazer e nada comentar. Foi num desses dias em que
sentimos a terra tremer embaixo de nós e até pensamos
que era o trem. La estava a réstia de luz que engatinhava
pela persiana, prestes a engendrar a noite.
Não sei se foi ele, se fui eu ou que foi.
Ninguém entende a lógica das mulheres.
Faz bastante tempo que nos vimos.
Foi no meio da rua, por acaso. Tu nem
quiseste sentar para tomar alguma coisa, conversar.
Era um final de tarde. Tinhas pressa.
O que a gente tem pra conversar,
conversa aqui mesmo, rapaz, diga.
Eu tentei reviver em minhas trôpegas palavras
nossos momentos de esplendor, cerzir retalhos do passado
como uma colcha de delírio.
Tu ouviste calada e no final
disseste. Acabou, menino, passou, esqueça.
Com um sorriso didático e nada teu.
Com um ar preocupado, consultaste
teu relógio e foste embora, sem um adeus,
pisando nas nuvens num passo curto
e ligeiro. Eu via uma pessoa mas era outra
pessoa. No quarto imóvel da
pensão barata, a réstia de luz desenhava
preguiçosamente as horas diminutas do
final da tarde, recorrente indiferença
de todos os dias. Sinete azul da eternidade.
Foto de Zé Eduardo, do Flickr.