quarta-feira, 16 de julho de 2008

DE CRIATURA A CRIADORA, MULHER, PERSONAGEM (SONHO) DE SI MESMA

Gerana Damulakis
(sobre a literatura escrita por mulheres ao longo do tempo)





De criatura a criadora, a mulher percorreu um longo caminho de tributos e punições. E no início eram Adão e Lilith. O mito de Lilith é bastante explorado na literatura, William Faulkner e Mac Donald foram dois escritores que se encantaram com toda a gama de significações encerrada nesta lenda. Criados por Deus em condições de igualdade, Adão e Lilith viviam juntos até Lilith cometer o primeiro pecado – que não foi a mordida da maçã – ao proferir o nome d’Ele. Expulsa do paraíso graças aos seus excessos, afoiteza e galhardia, e suas inquietações, Lilith passou a simbolizar a desventura, o mal, o diabólico exagero.
Adão ficou só, mas não sustentou a solidão por muito tempo e rogou a Ele uma outra mulher. Porém dessa vez havia um preço a ser pago: uma parte de seu corpo. É sintomático desde logo o que resolveu a questão: de Adão não foi retirado nada dos olhos ou ouvidos, pois a mulher não deveria ver ou ouvir melhor que ele; nada a tirar da cabeça, do contrário, ele iria correr risco de ter um mulher que pensasse; também nada havia a retirar de suas pernas para que ela não corresse mais do que ele. Deus sugeriu, então, o osso curvo que chamamos costela. É um osso que não faz falta, além de ter a vantagem dessa curvatura que figura tão bem o sempre-curvado-a-ele.
A pequena história conta, em síntese, o papel da mulher, o que lhe coube, e daí vem a luta para reverter o conto e alcançar, ainda que na contramão, o destemor de Lilith. Na literatura escrita por mulheres se conta outra vez a lenda da primeira desafiadora: no início foi Safo, igual aos seus amigos poetas, ou mesmo mais ousada tal qual Lilith. Há ainda um escritora importante na hipótese de Harold Bloom, que foi capaz de propor uma polêmica quando, no O Livro de J. , que levanta "o mistério J." e a autoria original de trechos como os da criação de Adão, Noé e o dilúvio, José e seus irmãos e o episódio do Êxodo, do Velho Testamento dos cristãos. J. teria sido uma mulher, uma escritora da estatura de um Homero ou de um Shakespeare.
Mas, antes do século XVIII, o que encontramos é uma ou outra voz feminina, seja Sor Juana Inés de la Cruz, do México, ainda nos 600, seja a fama das Cartas de Amor de Mariana Alcoforado, escritas três séculos atrás. O que se vê, na verdade, é a mulher se debatendo com uma linguagem proibida. Emily Dickinson enfatiza o “sacrifício da mulher associado à fala considerada ilegítima e à sexualidade considerada subterrânea”. Contudo, as Novas Cartas Portuguesas já comprovavam o desassossego por originar uma linguagem aceitável para o gênero feminino. No princípio do século XVIII, as mulheres começaram a escrever e publicar expressivamente tanto no continente europeu como nas Américas, ainda que o palavreado refletisse a índole feminina firmada na rainha do lar. Apesar disso, a outra faceta virtualizava o mal e no instante em que se dá a autoria, a mulher criadora revelada pula fora da vida privada e, intrusa, faz da atividade cultural, que não lhe é própria, passagem para a simbolização da bruxa malvada. Seguindo essa trilha de condenação, a história e o hábito estéticos determinam a dádiva ou a faculdade de criação artística, como algo especialmente masculino, o que não causa admiração, afinal é a figura Paterna, o criador, o determinador.
Vê-se que pertence a mulher o papel alegórico, diabólico ou celestial, enfim, intercessora entre o criador, artista pois, e o mistério, doutrinando-o para a perversão e/ou lançando-o ao estado de candura. Em suma: musa. Essa posição diferenciada da mulher em relação ao homem permanece até o século XX.
Basta olhar os ideais cristãos da Idade Média apartando o sexo, o gênero, dos demais valores espirituais ou sociais, e, se depois a Inquisição rotula a mulher como emissária do demônio, enviada com o intuito de tentar o homem, então, resta olhar a Renascença, quando um “certo casamento” parece mais harmonioso.
Dando um salto direto para o Romantismo, vemos uma elevação da emoção e dos sentimentos e, com isso, a mulher é enaltecida para ser digna de contemplação. Estamos, outra vez, no século XX porque a conclusão fica a cargo das teorias psicanalíticas e das pesquisas científicas, responsáveis pela mudança relevante da visão humana de gênero, igualando os sexos e seus poderes.
A literatura acompanhou o desenrolar da luta dos gêneros: longe do tempo em que, cercada de lendas amorosas que aumentavam sua fama, a poeta Safo celebrizou os cantos de amor às suas ninfas, a autora obriga-se a criar contradizendo o modelo nascido do protótipo através de personagens representativas de sua contida, represada e acobertada aspiração, de forma a conseguir arremessar os ímpetos revolucionários e a energia do desespero em imagens excêntricas ou entusiasmadas, desfiguradas ou patéticas. É como se o próprio ato de escrever criasse o sujeito insano, “a figura da louca”. Cecília Meireles diz: “Sentada estava a Rainha, sentada em sua loucura./ Que sombras iam passando,/ naquela memória escura?
O interessante é que no final dos 800 está evidente a quantidade de alterações nos temas e nas metáforas, remarcando, portanto, os papéis sexuais devido à necessidade de uma determinação dos gêneros e dado o pesar intrínseco na palavra “fim”, de fim de século, e toda a implicação que essa expressão carrega e produz como convulsão de conceitos.
Acontece a incursão feminina no mundo dos intelectuais, levantando discursos e discussões: é o tempo da guerra dos sexos.
Aqui e ali, uma Francisca Júlia (1874 – 1920) seguindo as diretrizes do realismo, uma Rosália de Castro ( 1837 – 1885), na Espanha, marcando seu nome com eternas letras femininas na poesia. Não resta dúvida de que a prosa foi mais fecunda: na ficção, desde 1678, Madame de Lafayette aparece com La Princesse de Clèves. Impossível não mencionar Madame de Stäel (1766 / 1817), e mais além Charlotte e EmilyBrontë, nos 800, enquanto na Inglaterra, Ann Radcliffe, por exemplo, torna-se a escritora mais popular e mais bem paga no século XVIII; também Mary Shelley, já no Romantismo, cria o mito eterno de Frankentein.
Mas, estamos mirando especialmente a poesia e, para tanto, é indispensável olhar a poeta romântica Emily Dickinson, americana que viveu de 1830 até 1886, tendo uma corrente de sucessores que testemunham sua importância. A pesquisa evidencia a fertilidade dos 800, chegando à contemporaneidade em todo o mundo com nomes como Elizabeth Barret Browning, nascida e 1806, consagrada pelos seus Sonnets From the Portugueses; sem esquecer Christina Rossetti, nascida em 1830, em Londres, irmã mais moça de Dante Gabriel Rossetti.
Na poesia norte-americana, encontramos Hilda Doolittle, nomeada H.D., contemporânea de Pound e William Carlos Williamns, pregadora dos "imagistas” e da “ausência de emoção”, enquanto Mariane Moore perseguia a exatidão com tanto radicalismo que ficou sendo rotulada de poeta cerebral e, de resto, fez uma poesia das mais fluentes na época com seus animais chamados “antipoéticos”, que serviam de isca para pegar o flagrante da verdadeira poesia e, assim “Poetry”, sua ars poética, consta de toda antologia publicada em qualquer parte do mundo.
Ainda, Edna St. Vicent Millay, Prêmio Pultizer, em 1923, ou Elizabeth Bishop, que nos é cara pois traduziu nossos poetas, por exemplo, Drummond. Sem deixar de mencionar Anne Sexton, também Prêmio Pultizer, ombro a ombro com Sylvia Plath devido a nota nova que ambas se preocupam em imprimir à poesia escrita por mulheres, de saída, diferente da frieza de M. Moore, mostrando uma vontade firme de abrir espaços. Anne Sexton, norte-americana, nascida em 1928, morreu tragicamente, suicidando-se em 1974, o que sugere uma comparação com a sorte de Sylvia Plath: vidas sofridas e encantos sublimes, as mesmas inquietações, como em: “Auge”, de Plath:
A mulher está perfeita./ Morto,/ Seu corpo mostra um sorriso de satisfação,/ A ilusão de uma necessidade grega/ Flui pela dobras de sua toga,/ Nus, seus pés/ Parecem dizer:/ Fomos tão longe, é o fim. "
No Brasil, Henriqueta Lisboa, vinda dos anos 30 do século XX, amadurece junto com o nosso Modernismo, e Cecília Meireles desponta, em 1945, com Mar Absoluto. Ainda na nossa língua, Sophia de Mello Breyner Andersen, em Portugal, é voz marcante sem se desfeminilizar. Em 1945, a poesia e a mulher são premiadas com o Nobel de Literatura através da chilena Gabriela Mistral por seu conjunto de obras: Croquis Mexicanos, Desolación, Ternura, Tala.
A poesia escrita por mulheres é fato reconhecido, nomes imortais estimulam ensaios e estudos. João Carlos Teixeira Gomes assinala no livro A Tempestade Engarrafada a convergência das poetas Alfonsina Storni e Florbela Espanca, baseada na paixão e na agonia. O ensaísta diz: “O recalque atávico, de clara conotação freudiana na sua expressão individual (...) denuncia as pressões desencadeadas por 20 séculos da repressão sexual vinda do bojo da concepção judaico-cristã do mundo, que ela (Storni) repele, numa veraz e voraz celebração do impulso erótico e da força dos instintos nos jogos amorosos”: "Pudiera ser que todo lo que en verso he sentido/ no fuera más que aquello que nunca pudo ser,/ no fuera más que algo vedado e reprimido/ de família en família, de mujer en mujer".
Esta é Alfonsina Storni, naturalizada argentina, colocando no modus faciendi da condição feminina a sensualidade sem hipocrisia, tal como fez sua contemporânea Florbela Espanca. Ambas, e isso lembra o outro paralelo linhas acima entre Plath e Sexton, resistem, bravas, quanto ao desejo do homem, daí o caminho da negação: “O amor dum homem? Terra tão pisada,/ Gota de chuva ao vento baloiçada.../ Um homem? – Quando eu sonho o amor dum Deus? ...”.
Já levantei, em outra ocasião, uma semelhança entre Florbela e a brasileira Gilka Machado, nascida um ano antes que Florbela. Gilka expõe na poesia a diferença entre as naturezas feminina e masculina, ao plasmar a verdade do sentimento machista que não traz culpa nem ânsia de amar, pois, na sociedade em que vivemos, este parece ser um pecado essencialmente feminino, herança legada pelo mito de Lilith e por Eva, desafiadoras das leis em nome do desejo.
Gilka for precursora na luta pelos direitos da mulher em alcançar as representações do desejo na poesia, isto é, “não mais um corpo marcado pelo a-menos, mas sim um corpo que pode assinalar a fonte de um novo discurso”. Verseja Gilka: “ Eu sinto que nasci para o pecado,/ se é pecado na Terra amar o Amor:/ anseios me atravessam, lado a lado,/ numa ternura que não posso expor”.
Vale a pena citar um outro tipo de luta das mulheres utilizando a palavra poética: luta mais árdua, luta vã, mas tentativa válida no texto sofrido de Anna Akhmatova (1889 / 1966), lírica tensa e ampla, expressando a amargura da mãe que teme pelo destino do filho e da pátria num momento histórico difícil na então União Soviética. Também Marina Tzvetaeva (1892 / 1941), de vida e destino trágicos, continua a nostalgia e a dor do romantismo que expressa a busca da pátria e do companheiro através da magia verbal e de certa “impostação de voz populista”.
A poesia escrita por mulheres, vista pelo crítico Wilson Martins, marca a distância percorrida pelo feminismo literário, pois a leitura simultânea de uma poeta atual e de uma outra deixa evidente o caminho intelectual, emocional e social efetuado pelo feminismo literário nos últimos 80 anos. O ponto negativo reside na redução da poesia a lugares-comuns e ladainhas obsessivas, desmonetizando a temática do desejo, tanto mais que, para Wilson Martins, ao tratamento literário dado por um Gilka Machado, por exemplo e para ficarmos com uma poeta da qual já falamos, sucede um tratamento filosófico, descritivo e referencial, de resto, um tratamento antipoético.
A responsabilidade de tudo isso fica por conta das tentações do sucesso de escândalo e, assim, Gilka chega a mudar para “Cio” o título do belo soneto que se intitulava “Noturnos”, na edição original de seu Cristais Partidos.
O crítico paranaense mostra com segurança como a temática sofreu um desgaste graças aos sobrelanços inevitáveis da imitação que causou a condenação na medida em que o feminismo literário passou a ocupar o espaço do homem, usando o palavrão, a emancipação sexual e a obrigação do trabalho fora de casa.
Não há como fugir dessa realidade que reflete o extremo alcançado pela nova mulher. O preço pago por tal geração foi alto. Ana Cristina César deixou isso claro na sua poesia. Ela escreveu e pagou o valor: “ Pergunto aqui, meus senhores/ Quem é a loura donzela? Que se chama Ana Cristina? E que se diz ser alguém? É um fenômeno mor/ ou um lapso sutil? “.
Passados os lapsos, enganos, exageros, bravatas e, menos a Lilith do folclore assírico-babilônico, fantasma diabólico, para ser mais um gênero próprio e diferenciado, a mulher que escreve hoje luta com palavras na sempre “luta mais vã”, processando uma das maiores utopias da literatura que é, como ressaltou Laforgue, a conversão do autor ou autora, em personagem de si mesmo.

Um comentário:

gláucia lemos disse...

Magnifíca exposição, Gerana. Parabéns.