Foi o poeta Sidney Wanderley que informou: "Gerana, leia a poeta Wislawa Szymborska". A Companhia das Letras lançou um livro com os poemas da vencedora do Nobel de Literatura 1996. É hora de compartilhar.
PI
Wislawa Szymborska
O admirável número pi:
três vírgula um quatro um.
Todos os dígitos seguintes são apenas o começo,
cinco nove dois porque ele nunca termina.
Não se pode capturá-lo seis cinco três cinco com um olhar,
oito nove com o cálculo,
sete nove ou com a imaginação,
nem mesmo três dois três oito comparando-o de brincadeira
quatro seis com qualquer outra coisa
dois seis quatro três deste mundo.
A cobra mais comprida do planeta se estende por alguns metros e acaba.
Também são assim, embora mais longas, as serpentes das fábulas.
O cortejo de algarismos do número pi
alcança o final da página e não se detém.
Avança, percorre a mesa, o ar, marcha
sobre o muro, uma folha, um ninho de pássaro, nuvens, e chega ao céu,
até perder-se na insondável imensidão.
A cauda do cometa é minúscula como a de um rato!
Como é frágil um raio de estrela, que se curva em qualquer espaço!
E aqui dois três quinze trezentos dezenove
meu número de telefone o número de tua camisa
o ano mil novecentos e setenta e três sexto andar
o número de habitantes sessenta e cinco centavos
a medida da cintura dois dedos uma charada um código,
no qual voa e canta descuidado um sabiá!
Por favor, mantenham-se calmos, senhoras e senhores,
céus e terra passarão
mas não o número pi, nunca, jamais.
Ele continua com seu extraordinário cinco,
seu refinado oito,
seu nunca derradeiro sete,
empurrando, arf, sempre empurrando a preguiçosa
eternidade.
Tradução: Carlos Machado

9 comentários:
Não conhecia.
Gostei de muito do poema.
Felicidades, Gerana!
um poema para o infinito, infindável
abraço
"Como é frágil um raio de estrela, que se curva em qualquer espaço!"
Não é fácil inverter assim as grandezas. Achei desconcertante o poema, pelo "mote" matemático. Muito bonito.
E não é que todas as palavras enfileiradas formam uma serpente que tem fim?! Mesmo que a última seja a palavra INFINITO...
Abraço.
Excelente e muito original.
Eu não conhecia.
Beijinho e saudades de ti.
Em Abgar Renault (1901-1995), em sua "Obra Poética" possui referências em um poema ao símbolo "pi", porém o poema segue por viés diferente a esse. Que prazer novamente em vir a tua página, Gerana. Beijos e saudações minhas. Claudio.
gracias, G.
beijo*
Bom que o leitora está continuando. Beijo.
Gerana,
Se ela não ganhasse o prêmio Nobel em 1996, jamais seria traduzida para o português.
Nessas horas, vemos a vantagem dos escritores de língua inglesa, francesa, espanhola e, até, alemã.
JR.
Tinha lido, acho que não faz tempo, mas que novidade! Excelente.
Um abraço, Gerana.
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