terça-feira, 15 de novembro de 2011

POESIA E MATEMÁTICA

Gerana Damulakis

Foi o poeta Sidney Wanderley que informou: "Gerana, leia a poeta Wislawa Szymborska". A Companhia das Letras lançou um livro com os poemas da vencedora do Nobel de Literatura 1996. É hora de compartilhar.

PI

           Wislawa Szymborska


O admirável número pi:
três vírgula um quatro um.
Todos os dígitos seguintes são apenas o começo,
cinco nove dois porque ele nunca termina.
Não se pode capturá-lo seis cinco três cinco com um olhar,
oito nove com o cálculo,
sete nove ou com a imaginação,
nem mesmo três dois três oito comparando-o de brincadeira
quatro seis com qualquer outra coisa
dois seis quatro três deste mundo.
A cobra mais comprida do planeta se estende por alguns metros e acaba.
Também são assim, embora mais longas, as serpentes das fábulas.
O cortejo de algarismos do número pi
alcança o final da página e não se detém.
Avança, percorre a mesa, o ar, marcha
sobre o muro, uma folha, um ninho de pássaro, nuvens, e chega ao céu,
até perder-se na insondável imensidão.
A cauda do cometa é minúscula como a de um rato!
Como é frágil um raio de estrela, que se curva em qualquer espaço!
E aqui dois três quinze trezentos dezenove
meu número de telefone o número de tua camisa
o ano mil novecentos e setenta e três sexto andar
o número de habitantes sessenta e cinco centavos
a medida da cintura dois dedos uma charada um código,
no qual voa e canta descuidado um sabiá!
Por favor, mantenham-se calmos, senhoras e senhores,
céus e terra passarão
mas não o número pi, nunca, jamais.
Ele continua com seu extraordinário cinco,
seu refinado oito,
seu nunca derradeiro sete,
empurrando, arf, sempre empurrando a preguiçosa
eternidade.

Tradução: Carlos Machado

10 comentários:

BAR DO BARDO disse...

Não conhecia.
Gostei de muito do poema.

Felicidades, Gerana!

Assis Freitas disse...

um poema para o infinito, infindável



abraço

Marcantonio disse...

"Como é frágil um raio de estrela, que se curva em qualquer espaço!"

Não é fácil inverter assim as grandezas. Achei desconcertante o poema, pelo "mote" matemático. Muito bonito.

E não é que todas as palavras enfileiradas formam uma serpente que tem fim?! Mesmo que a última seja a palavra INFINITO...

Abraço.

Ana Tapadas disse...

Excelente e muito original.
Eu não conhecia.


Beijinho e saudades de ti.

Claudio Sousa Pereira disse...

Em Abgar Renault (1901-1995), em sua "Obra Poética" possui referências em um poema ao símbolo "pi", porém o poema segue por viés diferente a esse. Que prazer novamente em vir a tua página, Gerana. Beijos e saudações minhas. Claudio.

Rayuela disse...

gracias, G.


beijo*

gláucia lemos disse...

Bom que o leitora está continuando. Beijo.

João Renato disse...

Gerana,
Se ela não ganhasse o prêmio Nobel em 1996, jamais seria traduzida para o português.
Nessas horas, vemos a vantagem dos escritores de língua inglesa, francesa, espanhola e, até, alemã.
JR.

José Carlos Brandão disse...

Tinha lido, acho que não faz tempo, mas que novidade! Excelente.

Um abraço, Gerana.

A. Marques-Rodrigues disse...

Muito original, não se pode negar. E, eu acredito, a matemática deve esconder ainda muitos outros poemas; algumas fórmulas, alguns conceitos são como versos bem acabados, com rimas, estrofes e métrica.

Abraços