quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

HOJE É COM CECÍLIA MEIRELES

Gerana Damulakis

Minha relação com a poesia vem desde muito cedo. Claro que a culpa foi do ambiente. Pessoa na família que era poeta, todos falavam muito de literatura, outra pessoa na família que era jornalista e escritor, biblioteca em casa. Tudo isto ajuda e influencia, embora não necessariamente, tampouco definitivamente. De forma que trago a poesia e a admiração pelos poetas dentro de mim, eles acharam morada permanente. Acontecimento automático: adorar descobrir poetas, vibrar com as realizações deles. E, assim, alimento a poesia que reside em mim.

Cada dia amanheço com certos versos. Fiel, Manuel Bandeira tem lugar cativo. Mas ando muitos passos com Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, Florbela Espanca, João Cabral de Melo Neto, Carlos Drummond de Andrade, Manoel de Barros ... para ficar com aqueles de nossa língua.

Hoje são os versos de Cecília Meireles (1901-1964) que tomam os pensamentos, se repetem como frases musicais, me encantam, trazem imagens belas e estranhas. A poesia é um mundo fascinante.

4º MOTIVO DA ROSA

-----------Cecília Meireles

Não te aflijas com a pétala que voa:
também é ser, deixar de ser assim.

Rosas verás, só de cinza franzida,
mortas intactas pelo teu jardim.

Eu deixo aroma até nos meus espinhos,
ao longe, o vento vai falando em mim.

E por perder-me é que me vão lembrando,
por desfolhar-me é que não tenho fim.

12 comentários:

BAR DO BARDO disse...

Cecilia é tudo, ponto.

João disse...

Cecília é pura música, Gerana. Almas como essa deviam ser proibidas de desencarnarem.
Taí: voto pela imortalidade de Cecília.

João Renato disse...

Gerana,

Eu adoro.
Cecília tem uma obra imensa. Tanto na qualidade como no tamanho, e em versos de todas as formas.
Com extrema delicadeza criou uma poesia refinada a partir de detalhes frágeis e fragmentos casuais que normalmente não percebemos.
Qualquer Antologia dela será sempre incompleta.

Não por acaso escreveu:
"Entre mim e mim, há vastidões bastantes
para a navegação dos meus desejos afligidos."

Abraço,
JR.

glaucia lemos disse...

Eterna Cecília! Excelente escolha.

Ianê Mello disse...

Interessante, a minha relação com a poesia também teve início no seio familiar.
Embora na família não houvesse escritores, minha avó tinha um caderno onde registrava seus versos e eu adorava folheá-lo.
Minha mãe, de igual forma, escrevia seu poemas.
Desde adolescente, então, comecei a rabiscar meus versos.

Em vários poetas me inspirei: Adelia Prado, Cecília Meireles, Florbela Espanca,fernando Pessoa, Ferreira Gullart e muitos mais...

Seu texto me fez relembrar esse tempo...

Grande beijo.

Janaina Amado disse...

Gosto demais de Cecília, inclusive dos poemas para criançad de "Ou isso ou aquilo", como este (copiado do Jornal de Poesia):

Colar de Carolina

Com seu colar de coral,
Carolina
corre por entre as colunas
da colina.

O colar de Carolina
colore o colo de cal,
torna corada a menina.

E o sol, vendo aquela cor
do colar de Carolina,
põe coroas de coral

nas colunas da colina.

Maria Muadiê disse...

Gerana, sou completamente apaixonada por essa poesia.
É uma oração.

Edu O. disse...

A D O R O este poema e Cecília.

Assis Freitas disse...

Cecília é sempre vertigem, viagem. Me parece que ela tinha uma espécie de pacto com as palavras para que elas fossem suaves, mesmo sob o martírio da escrita. Abraço.

Marcus Vinícius Rodrigues disse...

Gerana,

Este poema é meu poema preferido de Cecília e, talvez, esteja entre os cinco de que mais gosto (e nem consigo lembrar dos outros quatro). Inspirado nele, fiz o poema abaixo.

UMA ROSA SEM MOTIVOS
Para Cecília Meireles

Sou uma rosa sem motivos,
sem princípio fim e anseios.
Não tenho voz nem corpo,
apenas cheiros.

Rosa sem palavras,
a cada pétala que perco,
mais comigo pareço,
apenas um fraco olor.

Eu, sem espinhos,
sem raízes e sem caule,
sou apenas um nome sem alma
que pende no abismo da tarde.

Debruçada ao poente,
aqui estou, querido vento
a espera de fresca aragem,
como espera toda flor.

E como o vento que não veio,
como passaram as estações,
passo eu o ano inteiro
em meio a multidões.

Nada digo de meu,
apenas agarro de outra flor
o verso infinito:
E por perder-me é que me vão lembrando
por desfolhar-me é que não tenho fim.

Gerana Damulakis disse...

Marcus: um diálogo pleno de beleza poética com os versos de Cecília. Eu era fã da sua prosa, atualmente sou também da sua poesia; já não sei de qual das duas sou mais fã.

José Carlos Mendes Brandão disse...

Não me conformo com a pouquíssima - para o valor dela - valorização de Cecília Meireles.

Querem escrever poesia hoje sem Cecília Meireles como referência - absurdo.