sábado, 20 de setembro de 2008

EL CAPITÁN DEL AMOR




Gerana Damulakis



(sobre os versos do capitão do amor Pablo Neruda)


Quando a vanguarda latino-americana se dirige do surrealismo rumo à síntese neo-realista, o peruano César Vallejo passa a manter, em sua obra, uma ligação dramática e irônica com a realidade. Já o cubano Nicolás Guillén eleva o negro e se torna um representante da poesia realista-socialista. Mas o modelo mais significativo dessa corrente para a literatura universal, no parecer do historiador húngaro Miklós Szabolcsi, é a extensa obra de Pablo Neruda, que se inicia com o surrealismo, passa para um “realismo mágico” e chega a um “realismo despojado, sereno e complexo”.
A poética de Pablo Neruda encerra a política, a evocação da América Latina, o amor, os conflitos existenciais. Em Canto General (Canto Geral, 1947), a América, passada e presente, ascende à solicitação da poesia, construída de uma imagem do mundo da Antigüidade aos nossos dias, como “uma encenação épica à escala de um continente”, através do figurado e do contemplativo. Ainda que os temas patrióticos e de guerra sejam omitidos por Horácio, em sua Arte Poética, que lista assuntos a seu ver apropriados à poesia, estes temas estão presente em poetas de todas as épocas, e em Neruda encontramos tanto em España en el Corazón quanto em versos como: “Stalin es el mediodia/ la madurez del hombre y de los pueblos”, demonstrando a viabilidade dos temas políticos na expressão da poesia mais autêntica, mesmo que isso implique em submeter a poesia aos interesses de determinada causa política, na medida em que se pronuncia pelo tema marxista.
Certamente, o fim da poesia não é o estudo dos costumes, nem a crítica social e política. Mas, como adverte Domingos Carvalho da Silva, “se há bons poemas políticos na obra de Victor Hugo e Castro Alves, de Maiakóvski e Pablo Neruda, isto não decorre do assunto, mas da linguagem”, da clareza e da segurança, do sentido de renovação.
Neruda se engaja politicamente “de modo unilateral”, porque usa a palavra apenas a favor do socialismo, e por tal, “sua lírica de grande fôlego, ampla, escancarada, representa também uma variedade do realismo socialista”. Assim como muitos escritores de sua época, o poeta chileno coloca sua aversão à disposição do Partido Comunista e, como tantos, inicia cantando as agruras do povo, e de pronto se vê fazendo apologias a Stalin: “la mirada de Stalin a la nieve”( no poema “Nuevo canto de amor a Stalingrado”).
Acontece, pelo anos 60, que Neruda se desestaniliza, contudo canta a Revolução Cubana. Jorge Edwards, assessor de Pablo Neruda quando este, no governo Allende, chefiou a embaixada do Chile em Paris, escreveu Adeus poeta: uma biografia de Neruda, onde conta que, por ocasião de um congresso do Pen Clube, Neruda aceitou o convite de Arthur Miler e foi para Nova Iorque; então, por este fato, o poeta recebeu uma carta-aberta, em 1966, de intelectuais cubanos que o censuravam por sua tolerância para com o inimigo capitalista. Pablo Neruda ficou exasperado, pois estava certo de que, apesar das assinaturas de Lezama Lima e Alejo Carpentier, o real orientador da carta era Fidel Castro. Alguns anos depois, convidado para visitar Cuba, o poeta quis uma retratação que não ocorreu e nunca voltou àquele país.
Entre outros casos envolvendo seu amigo, Jorge Amado narra, em Navegação de Cabotagem, um interessante episódio em torno de Las uvas y el Viento, coletânea de poemas políticos onde um deles faz uma apologia a Tito, comandante dos iugoslavos. Quando estava anunciada a segunda edição do livro, Tito rompe com Stálin, Pablo retira o poema e coloca no lugar do panegírico uma denúncia contra Tito. Passa o tempo, Stálin é desmascarado via Kruschev que reabilita Tito. A essa altura, “Pablo se sente enrolado nas malhas da política, lastima o destino das uvas ao sabor dos ventos soviéticos” e diz: “Assim fica difícil ser poeta engajado”. Jorge Amado aconselha a retirada de Tito das páginas do livro “de uma vez para sempre”, e sobretudo aconselha esperar “até ver que bicho dá”, antes de escrever outra louvação.
O espírito de Neruda “era travesso e brincalhão”. Matilde Urrutia, seu grande amor, conta, em Minha Vida com Pablo Neruda, que quando o poeta estava se vestindo para cerimônia na qual receberia o Prêmio Nobel, em 1971, olhava as caudas da casaca. Ria muito e dizia: “Sinto a mesma sensação que experimento quando me fantasio nas festas em Isla Negra. Se pudesse pintar uns bigodinhos, então, seria perfeito”. Ou em um jantar com Louis Aragon e outros intelectuais, quando Neruda vira-se para os amigos latino-americanos dizendo: “Vamos ter que ser inteligentes a noite toda”.
Pablo Neruda era um colecionador capaz de pagar preços exorbitantes por coisas que lhe agradavam, mesmo que não tivessem valor, ou por algo raro como uma primeira edição de Edgar Allan Poe. E era um homem capaz de amar com loucura, sem barreiras.
No nosso século, uma das mais conhecidas exaltações amorosas são os Veinte Poemas de Amor y una Cancíon Desesperada, quando os versos pendem para o lirismo do poema hipoteticamente escrito para as bodas de Sulamita e para o poema “Arte de Amar”, de Ovídio, em que se conjugam a força lírica e a didática erótica. Na linha que começa com os Vintes Poemas e culmina com as Odes Elementais, Os Versos do Capitão guardam uma história de amor verdadeira e por isso o livro foi publicado anonimamente em 1953, sendo reconhecido por Neruda apenas na terceira edição. A admiração que provocou confirma que o volume Los Versos del Capitán está entre os mais prestigiados livros de poemas de amor de nosso tempo. O amor deixa de ser um mito: “Eros não é mais um Deus cego e enceguecedor”, retorna o caminhante deslumbrado e sedento de uma totalidade dos sentidos, de uma sinestesia cúmplice do estado de plenitude e no ritmo de seu caminhar dissipa o torpor de um deserto que se faz habilitado. A verdade encontra a sua essência, e não é o despotismo de uma racionalização que escolhe isso, mas um desejo que se implanta em cada um de nós, seus leitores, e nos suplanta, é a energia de “Eros fazendo-se poema” como nos versos de “El amor”: “Qué tienes, qué tenemos?/ qué nos pasa?”, o amor real por uma mulher real e tão comum que torna incompreensível tal sentimento: “Yo te miro/ y no hallo nada en ti sino dos ojos/ como todos los ojos, una boca/ perdida entre mil bocas que besé, más hermosas,/ un cuerpo igual a los que resbalaron/ bajo mi cuerpo sin dejar memoria”; o amor como invasão que entra “en tu vida,/ para no salir más,/ amor, amor, amor./para quedarme”. Queda para sempre a poesia de Pablo Neruda.

Um comentário:

gláucia lemos disse...

Grande, enorme Neruda! Ele concorda, como se eu tivesse a imensurável honra de ter sido lida por ele, ele concorda comigo quando eu disse que há os que passam como trens,e logo nada são e não são mais ninguém; e há os que ficam em nós como a única voz entre todos os sons que a vida esparrama pelo espaço. Grandes amores são sempre semelhantes, creio.