quarta-feira, 27 de agosto de 2008

BELEZA PURA

Fred Matos



conto carnavalesco para cantar

Não me amarra dinheiro não, mas formosura. Este ano, Colombina, não vai ser igual àquele, já detonou o som na praça. O caminhão eletrificado, milhares de watts, decibéis à beça, todas as bocas troando um baiano frevo, balança o chão da praça Castro Alves, não pára, arrasta a multidão pipoca subindo, lentamente, a Carlos Gomes, tem pé na dança. Dinheiro não, a pele escura. No mete o cotovelo vai abrindo caminho, atrás só não vai quem já morreu ou fica esperando outro, que já vem, que já vem, que já vem, umazinha, alemã deve ser, xenhenhém úmido decerto, pendurada no pescoço do negrão filho de Gandhi de sorriso sonso e intenção humana como a minha que transo todas sem perder o tom. Dinheiro não, a carne dura. Um grupo, abadas amarelos pintalgados de tons vermelhos, desce a ladeira de São Bento chacoalhando pandeiros, batendo agogôs, tambores, latas. A chuva bem-vinda pé-d’água desaba refresca e passa. Nessa cidade todo mundo é de Oxum, não se esqueça de mim, não desapareça, Colombina, homem, menino, menina, mulher. Poucos são ainda dominós, pierrôs, arlequins, havaianas, tuaregues, mascarados, nesta multidão com pouca roupa graças a deus. Dinheiro não, moça preta do Curuzu, não me leva a mal, vou beijar-te agora, beleza pura, hoje é carnaval, não faça como aquela que bebeu, bebeu, bebeu e depois se misturou à turba, fugiu. Se a canoa não virar virão marinheiros, índios, cangaceiros e baianas. Quando essa preta começa a tratar do cabelo é de se olhar. No tabuleiro da baiana tem vatapá, caruru e do seu tacho, flor do dendê, recende o aroma saboroso do acarajé fritando. Peço um, só com pimenta, melhor acompanhamento não há para uma cerveja gelada, não à estupidez, no ponto em que se formem dois cremosos dedos de espuma. Toda a trama da trança a transa do cabelo. Você me puxa, me leva pela mão para o meio da rua, conchas do mar ela manda buscar pra botar no cabelo, a praça fica pra trás, subimos a Chile, à esquerda o Elevador Lacerda, lá embaixo, azul esverdeado, Todos os Santos, o mar da baía onde bóia redondo o Forte de São Marcelo, no horizonte a ilha de Itaparica, toda minúcia, toda delícia, vamos em frente, Misericórdia, Praça da Sé, Terreiro de Jesus de tantas igrejas, não me amarra dinheiro não, mas elegância e agora o Pelourinho para ver ouvir o carnaval de outrora nas fantasias, das bandinhas, dos violões e bandolins do Paroano sai Milhó, não me amarra dinheiro não, mas a cultura: Quem é você, diga logo que eu quero saber o seu jogo, dinheiro não, a carne dura. A tarde cai e da sacada do velho reformado sobrado uma avozinha acena e dança, acena e dança, acena e dança, ao redor crianças jogam confetes atiram serpentinas, beleza pura. Moço lindo do Badauê, beleza pura. Se eu deixar de sofrer como é que vai ser para me acostumar, beleza pura? Do ilê aiyê, beleza pura. Na Baixa dos Sapateiros, dinheiro yeah, beleza pura, sentado neste improvisado botequim, longe o som dos trios, tontura de sons, cores, aromas, a filha da Chiquita Bacana, morena mais dengosa da Bahia, dentro daquele turbante do filho de Ghandi, pede a saideira, é o que há, tudo é chique demais, tudo é muito elegante, beleza pura. Antevendo horas de gozo, minutos que sejam são serão suficientes, manda botar palha da costa e que tudo se transe, sequer percebo, todos os búzios, todos os ócios, que acabou o nosso carnaval nas cinzas de uma quarta-feira. Não me amarra dinheiro não, mas os mistérios.




Fred Matos é autor de Melhor que a encomenda (FUNCEB, 2006). Foto de quir-k, retirada do Flickr.

5 comentários:

Flamarion Silva disse...

Que é isso, moço?! A música, quero dizer, a prosa, tem um ritmo próprio que desliza a leitura num fluxo solto e agradável. Parabéns, Fred. Abraços.

Anônimo disse...

Mas é só uma brincadeira, Flamarion. Agradeço pela gentileza do comentário, bem como a Gerana por publicar.
Abraços.
Fred Matos.

tita coelho disse...

Nossa, muito legal!
Um texto muito bom de se ler.
Abraços

glaucia lemos disse...

Haja carnaval, Fred! Até´eu que não sou da folia me senti dançando, que de dançar eu bem que gosto. Ainda estou sorrindo aquele mesmo sorriso que não pude controlar durante toda a leitura do texto. Evoé, menino! Evoé, Fred Dioniso!

fred disse...

Obrigado, Tita e Gláucia.
Beijos