
Tarda
e se faz longe e tarda.
Para cá do âmago do meu sacrário
e foge,
palavra úmida do escondido soluço.
Viesses
como rebentação viria,
grito de cataclismo,
ou rio,
a escandir sobre a tela pautada,
teu ritmo de dor.
Viesses,
fogo em coivara a estalar,
ou frágil flama em lenho de fogueira.
Viesses,
casca a ragar-se da amêndoa,
inflamando ignota e vívida.
E após tua voz no traço
- sangue impresso -
o silêncio,
vencendo a agonia do silêncio,
seria
a perseguida paz.
Gláucia Lemos é ficcionista premiada e tem mais de 20 títulos publicados, mas o blog está em tempo de poesia. Foto de Rodolfo Oliver, retirada do Flickr.
9 comentários:
Adorei o "fogo em coivara a estalar,/ ou frágil flama em lenho de fogueira". Mais um vez agradeço por sua participação.
E eu esse daí, Gerana:
E após tua voz no traço/
sangue impresso
o silêncio,/
vencendo a agonia do silêncio...
Aí, sim... É poesia!
Maravilha!
Gostei muito do ritmo, das palavras muitíssimo bem escolhidas para a combinação perfeita, do colorido quente do "fogo em coivara a estalar". Eu tenho essa memória na pele, no ouvido, e posso ver o reflexo do fogo rebrilhar nos meus olhos. Lá na roça tinha isso. Abraços.
Obrigada, Gerana e Vilarinho. Eu também gosto dele. Posso, não é?
É, de facto, muito bom. Sinestésico, intercalando secura e humidade, estalidos e gotejar. A mistura de sensações e sons em ritmo consonante é a forma perfeita para um conteúdo dramático, que quase seria barroco nas imagens que convoca, não fosse o romantismo impresso na sonoridade.
Só uma nota: é mesmo "ragar-se" ou foi gralha na digitação?
Manuel Anastácio, obrigada pelo comentário, sabe que tenho lido seus poemas e fico repetindo, relendo. Seu comentário muito me alegra, e saiba que não sou poeta, sim prosadora. A palavra realmente não é "ragar-se" sim "rasgar-se" . Casca a rasgar-se da amêndoa, etc. Foi digitação apressada minha, pois Gerana é cuidadosíssima, dificilmente comete essas coisinhas. Pelo desculpas aos leitores. Um abraço.
Flamarion, quando eu digitava agradecimento a Gerana e Vilarinho, você digitava comentário a meu poema,observe o diferença peqpuena que consta na postagem, por isso só agora estou agradecendo sua palavras. Obrigadíssima. Abraço.
Me senti preterido mesmo, mas logo observei a hora e percebi que estávamos conectados. "Ou será que não?", fiquei me perguntando. "Será que fiz algum comentário besta?" Bem, agora tirei o cisco da cabeça e tudo clareou. Ainda somos amigos! Grande abraço, Gláucia.
Gláucia: a culpa foi minha na revisão. Quando a gente encontra um erro dá uma agonia, pior quando é no livro, não é?
Postar um comentário