terça-feira, 17 de junho de 2008

AS QUATRO FOLHAS DO TREVO


Gláucia Lemos

Descobri uma touceira de trevos em um canteiro. Há muito tempo não encontrava um pé de trevo para exercitar minha busca à felicidade.
Agachada, demorei-me mexendo nas hastes, frágeis, que mãos sem cuidado não podem afastar. Caçava um que tivesse as quatro folhas do talismã. Não havia nenhum. Essa incontida busca à felicidade... Estamos sempre a persegui-la, sem sequer sabermos onde, em qual objeto, em que ser, em que ação, em que pessoa daremos com ela. E até nos confortamos com seus símbolos.
Fugitiva e escorregadia, ela nos escapa a cada momento, a cada tentativa. Ou somos nós que, na ansiedade por possuí-la, e não desconfiando sequer da sua forma própria, do seu impreciso conteúdo, ficamos a bater a cabeça, a gastar os sapatos e a ralar a alma, a nos animar com as miragens pelas quais ela nos ilude. É ela que nos ilude, ou somos nós que nos envolvemos prazerosamente nas ilusões que nós próprios criamos na pressa de tê-la? Ela está sempre apenas onde a pomos / e nunca a pomos onde nós estamos. Assim pensava Bilac (ou Vicente de Carvalho? Minha memória me trai.)
Mas nós não queremos a felicidade que manipulamos, que movemos de um a outro lado, que podemos pôr em algum lugar. Sonhamos a utopia de uma felicidade que lá um dia apareça de asas abertas, enormes, todas em plumas cor de ouro – ou brancas também servem - e nos envolva dizendo: Cheguei! Sou a tua felicidade! E ela nos entregue - enrolada para presente, ou desenrolada mesmo - uma pessoa que nos ame definitivamente – nada disso de infinito enquanto dure, ame mesmo no duro definitivamente, sendo sob medida para os nossos braços como quer a canção, mas não só para os nossos braços, também sob medida para as nossas emoções, que não ronque de noite, não tenha mau-humor, não seja arrogante, nem sofra de gastrite nervosa, e venha envolta em uma nuvem – que pode ser leve – de paciência para a TPM e o atávico consumismo feminino. E sobretudo que, de vez em quando se lembre de que nós, mulheres, existimos, e nos sorria. Queremos uma felicidade que nos traga aquele emprego cujo chefe seja generoso e bem-educado, ou de preferência sejamos o chefe de nós mesmos, pois sabemos ser suficientemente responsáveis, e nosso salário cubra não só as nossas necessidades, mas também os nossos sonhos. Queremos que ela nos traga filhos, ah! como prescindir dos filhos? Filhos que nunca adoeçam, que nos amem e reconheçam que fazemos tudo para que estejam bem, e também entendam que pais são humanos e erram. Filhos que, acima de tudo, se sintam muito felizes.
Não nos conformamos com a felicidade minguada que possa caber nas nossas inexpressivas mãos, para que tenhamos o arbítrio de manejá-las. Essa é sempre pouca para nós. Felicidade que se preza e que nós merecemos há que ser monumental e alegórica. Porque tudo, enquanto sonhamos, é monumental e alegórico, temos a psicose do grandioso para podermos sofrer a inacessibilidade a nossos sonhos.
E assim vamos nós, até que um dia, entramos naquele restaurante pequeno e aconchegante, no qual costumamos almoçar quando estamos na praia, e somos recebidos com o abraço do dono, na sua sincera simplicidade, e o sorriso de quarenta e quatro dentes feitos de coco, daquele cozinheiro que é mestre e doutor no mais delicioso ensopado de mariscos, e nos sentamos ao lado de um jardim de graxas, escutando o silêncio de uma rua tranqüila, nos entregando aos beijos de uma brisa levíssima como um adejo de beija-flor, a alma em paz mais que sempre, fechamos os olhos, e então nos descobrimos pensando: isto, este momento, é felicidade.
É verdade que depois passa. Saímos do estado de divindade e voltamos à guerrilha da cidade grande, retomamos as defesas para não sermos engolidos pela competição, pelo banditismo, não sermos pisados pela inveja, pela intriga, pela falsidade, pela fome de destruição dos nossos semelhantes tão dessemelhantes. E cá estamos outra vez mexendo nas touceiras à procura de um trevo que tenha brotado com as quatro folhas do talismã.
No entanto, enquanto isso, quem sabe, acontece o beijo de um filho, a palavra de um médico confirmando a saúde, a presença de alguém inaugural adentrando os portais da nossa vida, o prêmio que se estava disputando, o encontro com um amigo de quem se tinha esquecido há tanto tempo, e você, e eu, voltamos a pensar: isto, este momento, é felicidade!




Gláucia Lemos é autora de mais 20 títulos. Esta crônica vai compondo um livro que nasceu aqui neste blog. Foto de Daniel Freire, retirada do Flickr.

2 comentários:

pereira disse...

O livro está ficando uma belezura(termo do meu tempo). Estou acompanhando com atenção toda vez que aparece uma crônica para o livro. Gosto mais de crônica do que de poesia, mas você é mestra em qualquer gênero literário.

gláucia lemos disse...

Ih! Pereira, você perfumou meu ego. Obrigada. Belezura também é do meu tempo, além do que há expressões que não caem. Quando o livro estiver pronto você já o terá conhecido, mas isso é lisonjeiro, só não deixe de estar no lançamento. Editado com capa e ilustrações, fica até mais bonito. Abraço Gláucia.