quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

RECEITA DE ANO NOVO


Carlos Drummond de Andrade

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)
Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

00: A DÉCADA DE BOLAÑO

Gerana Damulakis

Uma ilustração incrível estava no The New Yorker: dois homens com pás nas mãos, na beira de um morro, onde já se encontravam vários bustos devidamente instalados em seus lugares. Um busto novo vinha caindo, todavia ainda no ar, assim como se estivesse chegando para ganhar seu lugar merecido, quando um dos homens com a pá diz para o outro: “Aí vem mais um para o cânone”. A ilustração era do artigo que avalia o escritor Roberto Bolaño.

Pensei em fazer uma lista com os livros da década 00, a disposição passou, não tem cabimento, há muitos escritores que brilharam, que encantaram, que acrescentaram à literatura, só que há um escritor que realmente assegurou seu lugar: sem dúvida, trata-se de Roberto Bolaño. Não há espaço para uma lista quando um escritor da envergadura de Roberto Bolaño despontou na década.

O chileno que publicou pela primeira vez nos anos 80, depois publicou na década de 90 do século passado, morreu em 2003, com apenas 50 anos. Seus títulos, a grande maioria deles, foram lançados nos anos 00, ainda em vida e postumamente. O grande romance 2666, um “tijolo” que primeiramente suscita uma associação com Ulisses, de Joyce, ainda não chegou ao Brasil, mas já saiu em Portugal. Muitos títulos, tais como A pista de gelo, Os detetives selvagens, Amuleto, o incrível Noturno do Chile, o volume de contos Putas assassinas (com o conto inesquecível “Últimos Entardeceres na Terra”), Estrela distante saíram pela Companhia das Letras.

O que há em Bolaño? Precisamos seguir sua linhagem? Cervantes, Twain, Melville? Há Bolaño, que estarreceu a crítica, que virou mania, que nos envolve, que adentra a alma humana dos seus personagens para que encontremos nós mesmos.

Ilustração: Roberto Bolaño, por Riccardo Vecchio, retirada do The New Yorker (http://www.newyorker.com/), no artigo assinado por Daniel Zalewski.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

"PAPA" HEMINGWAY


A única coisa que deves fazer é escrever uma oração verdadeira.
Ernest Hemingway (1899-1961)

domingo, 20 de dezembro de 2009

GRANDE OZ

Gerana Damulakis


A aldeia centenária de Israel, a “antiga e sonolenta” Tel Ilan, é o palco de Cenas da vida na aldeia (Companhia das Letras, 2009) do escritor israelense Amós Oz, com tradução do hebraico de Paulo Geiger.

Num período entre o fim do verão e o início do inverno, as histórias acontecem. O leitor vai percebendo que os personagens passeiam: se focados em certo conto, aparecem em outro, só que, desta feita, apenas como um “figurante”. Mas, claro, a aldeia é a mesma, os moradores são poucos e se encontram, se cruzam.

O palco, a aldeia, não se ausenta das narrativas, não apenas por conta das belas pinceladas com as quais Oz coloca o leitor para sentir o feérico calor da tarde, por exemplo, ou a chuva fina que acompanha a médica voltando para casa (imagem de um dos mais belos textos), mas porque a aldeia é a guardadora daquelas vidas e suas cenas.

São oito cenas com títulos sugestivos: “Os que herdam”, “Os que esperam”, “Os que perdem” etc. Como são independentes, os textos podem ser lidos em qualquer ordem, mas estão interligados pela aldeia - o espaço –, pelo calor e pela chuva de certa época - o tempo – e pelos personagens.

No conto “Os que cavam”, um jovem árabe vive na casa de um pai com sua filha. O pai é um homem idoso, ex-deputado, Pessach Kedem, enquanto a filha é uma quarentona viúva, Rachel, dedicada ao pai e que pensa, no desespero de sua vida vazia e já entrando no outono da existência, que deveria ter coragem e ir embora dali. O pai sempre sente que ela está pensando em outra possibilidade de vida e joga-lhe na cara que ela torce para que ele morra. O árabe Adel vive com eles, conserta algumas coisas da casa, em troca de moradia, e é visado pelo velho como um inimigo em potencial. Eles conversam sobre a origem da tristeza humana num momento magnífico.

Meu preferido, contudo, foi o conto “Os que são próximos”, com imagens tão profundas que convencem totalmente sobre o heroísmo do simples viver: a médica Guili Steiner vai buscar seu sobrinho que chegará no ônibus vindo da capital, mas ele não aparece; em casa, antes de ir para o ponto do ônibus, ela, uma mulher solitária, deixou o peixe e as batatas no forno, a cama do rapaz sendo aquecida, a luz da sala num tom bem aconchegante, mas passa a noite pensando que o sobrinho desceu na parada errada, ou dormiu e continua dentro do ônibus. Ela vai até a casa do motorista, entram e procuram o rapaz nos bancos do ônibus, encontram um casaco, ela segue para casa com o casaco nas mãos, tecendo mais alternativas para o ocorrido. A intensidade do conto é algo que apenas um grande escritor consegue plasmar.

Amós Oz estava na lista de apostas para ser vencedor do Prêmio Nobel de 2009. Há vários títulos editados pela Companhia das Letras. Li o belíssimo De amor e trevas (2005), De repente, nas profundezas do bosque (2007) e, no ano passado, Rimas da vida e da morte (2008). Posso sentir, depois deste tanto de leitura,e mais ainda depois da leitura de Cenas..., que Oz prefere a história do cotidiano e suas pequenas grandes tragédias. Com relação a estes contos e suas pontes, tal edificação parece trazer a intenção de uma homenagem a Winesburg, Ohio, de Sherwood Anderson, uma admiração de Amós Oz.

Nascido em Jerusalém, em 1939, Oz é considerado um dos melhores escritores israelenses da atualidade. Sua obra já foi traduzida para mais de 22 línguas. Mora em Arad, no deserto de Neguev, e leciona literatura hebraica na Universidade Ben-Gurion.

sábado, 19 de dezembro de 2009

LIVROS 2009: MAN BOOKER PRIZE



Gerana Damulakis

O Man Booker Prize existe desde 1969, sendo considerado um dos mais prestigiados prêmios para obra de ficção publicada no ano. O escritor deve ser do Reino Unido, da República da Irlanda ou dos países da Commonwealth.

Hilary Mantel é a escritora britânica vencedora do Man Booker Prize 2009 com o romance histórico Wolf Hall. O romance se passa em 1520 e conta a história de Thomas Cromwell, conselheiro do rei Henrique VIII da Inglaterra.

Pela Record, há os seguintes títulos de Mantel: Mudança de Clima (1997), Oito meses na rua Gaza (1999), Experimento amoroso (1999), O gigante O’brien (2001), A sombra da guilhotina (2009).

Os outros finalistas foram:

The Children’s Book, A.S. Byatt
Summertime, J.M. Coetzee
The Quickening Maze, Adam Fould
Wolf Hall, Hilary Mantel
The Glass Room, Simon Mawer
The Little Stranger, Sarah Waters

Não se pode nem se deve opinar sem ter lido, mas sempre torceria por J. M. Coetzee, dada sua maestria em vários títulos e haja vista a obra prima Desonra.
Esperei bastante para comentar este prêmio porque gostaria de ter lido o romance, todavia aguardamos a tradução.

Ilustração retirada do Google, não consegui encontrar os créditos; caso contrário, aqui certamente estariam.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

LIVROS DE 2009: ESTREIA EM DESTAQUE

Gerana Damulakis


Nilson Pedro tem um blog, o Blag, http://nilsonpedro.wordpress.com/, onde coloca seus poemas. Os leitores que acompanham sua produção pediam um livro que reunisse aqueles versos envolventes.
Pela Coleção Cartas Bahianas, da P55 Edições, saiu o Caixa Preta, trazendo 50 poemas do blog.
Considero, na minha humilde opinião de leitora, a melhor estreia em poesia do ano de 2009. A poesia de Nilson Pedro sabe conjugar o verso cerebral na dose saudável, assim como sabe fazer jorrar o lirismo com mão atenta, ambas as tendências mescladas e dosadas com tal equilíbrio como se fosse um químico das palavras a preparar uma solução de dada concentração.
Não se pode fazer uma leitura: no Blag, ao ler um poema novo lá postado, há o ímpeto de escrever logo um comentário, mas imediatamente surge a necessidade da releitura. Sabemos que ele diz mais do que se absorveu de primeira.
Há um jogo mental bem mensurado, como já foi apontado, contudo há uma escolha de palavras que, quando não são “poéticas”, na poesia de Nilson Pedro passam a ser. Sua sintaxe é pessoal e toda ela é significativa, daí a pungência alcançada. É difícil conferir uma forma explícita que traduza completamente as sensações causadas por uma leitura: o melhor, sempre, é ler.

MORTE
Nilson Pedro

A morte, intransponível, no entanto nos visita.
E dizemos deus, e dizemos tempo,
e dizemos nada.
E nada não é coisa que se diga, se ela existe.

A morte, incontrastável, entretanto nos
-------------------------------------[conforma.
E ganhamos deus, e ganhamos tempo,
e ganhamos nada. E nada não podemos obter,
se ela é plena.

ALEIVOSIA
Nilson Pedro

Cuidado com tudo isso
que não te espera,
que tudo isso que não
te espera nada mas é
que teu fado: e eis que
vem vindo algo mais
que à noite não se vê, não se
distingue na floresta
das visagens, das insônias,
dos meandros deste ser
que se desvela.
Cuidado sobretudo com
as palavras que deixaram
de existir.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

RESUMO

Gerana Damulakis

As melhores crônicas de todos os nossos cronistas, sem exceção, resultaram da famosa “falta de assunto”. Isto se deu, seja por parte do grande Rubem Braga, ou do nosso igualmente grande Adroaldo Ribeiro Costa, seja por parte de qualquer outro da legião de escritores que fizeram da crônica - que nasceu num veículo efêmero, como o jornal ou a revista - um gênero brasileiro por excelência, com moldes muito próprios.

Não é sobre a crônica que quero escrever, mas sobre a falta de assunto. Na falta de assunto uma coisa puxa a outra. E o que surgirá disso aqui? Olho para a parede desta minha biblioteca e os olhos param num quadro com um poema. Só um irmão muito querido para fazer um projeto gráfico, reproduzir o poema dividindo em 5 estrofes que o poema não tem, colocar cada estrofe dentro de uma cor (e todas as cores são as preferidas da pessoa que escreveu), jogar cada uma para um lado, mandar imprimir, colocar moldura.

Tudo caminhava para uma crônica e deu em poesia de superfície. E defasada porque a autora tem, atualmente, livros publicados e, inclusive, este poema está no livro desprezado, o único de poemas O Guardador de Mitos - os demais são ensaios e/ou organização de antologias. Que seja. Ah, e já plantei uma árvore.

RESUMO

Não cheguei na lua.
Andei apenas pelas ruas
molhadas, cheias de buracos
que transbordam de pedras.
Não plantei uma árvore,
nem colhi frutos,
mas não arranquei rosas.
Não escrevi um livro.
apenas passei páginas,
lisas e lidas.
Não conquistei meu chão,
meu corpo é pequeno,
grande minha solidão,
e apenas consigo
abrir meu coração no tímido pedaço
do meu espaço;
Semeio de paz o meu redor,
tento criar ilusões para
a difícil realidade da vida.


A foto foi tirada por Gerácimos Damulakis, meu pai, já colocada aqui em outra ocasião, num dos seus arroubos de fotógrafo artístico: em preto e branco para enfatizar o raio de luz sobre nós dois, meu irmão e eu.