quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

RESUMO

Gerana Damulakis

As melhores crônicas de todos os nossos cronistas, sem exceção, resultaram da famosa “falta de assunto”. Isto se deu, seja por parte do grande Rubem Braga, ou do nosso igualmente grande Adroaldo Ribeiro Costa, seja por parte de qualquer outro da legião de escritores que fizeram da crônica - que nasceu num veículo efêmero, como o jornal ou a revista - um gênero brasileiro por excelência, com moldes muito próprios.

Não é sobre a crônica que quero escrever, mas sobre a falta de assunto. Na falta de assunto uma coisa puxa a outra. E o que surgirá disso aqui? Olho para a parede desta minha biblioteca e os olhos param num quadro com um poema. Só um irmão muito querido para fazer um projeto gráfico, reproduzir o poema dividindo em 5 estrofes que o poema não tem, colocar cada estrofe dentro de uma cor (e todas as cores são as preferidas da pessoa que escreveu), jogar cada uma para um lado, mandar imprimir, colocar moldura.

Tudo caminhava para uma crônica e deu em poesia de superfície. E defasada porque a autora tem, atualmente, livros publicados e, inclusive, este poema está no livro desprezado, o único de poemas O Guardador de Mitos - os demais são ensaios e/ou organização de antologias. Que seja. Ah, e já plantei uma árvore.

RESUMO

Não cheguei na lua.
Andei apenas pelas ruas
molhadas, cheias de buracos
que transbordam de pedras.
Não plantei uma árvore,
nem colhi frutos,
mas não arranquei rosas.
Não escrevi um livro.
apenas passei páginas,
lisas e lidas.
Não conquistei meu chão,
meu corpo é pequeno,
grande minha solidão,
e apenas consigo
abrir meu coração no tímido pedaço
do meu espaço;
Semeio de paz o meu redor,
tento criar ilusões para
a difícil realidade da vida.


A foto foi tirada por Gerácimos Damulakis, meu pai, já colocada aqui em outra ocasião, num dos seus arroubos de fotógrafo artístico: em preto e branco para enfatizar o raio de luz sobre nós dois, meu irmão e eu.

6 comentários:

maria guimarães sampaio disse...

A foto? eu já havia curtido da outra vez, continuo. O texto levando ao poema, e que poema!
Beijo de Maria

Valéria Martins disse...

Oi, Gerana. É lindo o poema e a foto. Que bom que vc tem uma família que ajuda e valoriza o seu trabalho.

Um beijo com carinho

Assis Freitas disse...

Bonito poema. Poema tem que ter cheiro de alguma coisa, esse tem cheiro de reminiscência. Quem foi que disse que nostalgia é a saudade que se tornou leve?

Abraço.

claudio rodrigues disse...

Que lindo texto, sua cronica, seu poema, a foto... Que bela composição para quem começou falando da falta de assunto. Esse é o poder da cronica. O poder de quem quer e ama escrever! Demais, Gerana!

Nílson disse...

E que poema! É possível encontrar o livro, Gerana? Onde?

Anônimo disse...

Plantou uma árvore para contrariar o poema e desse desencontro entre poema e brisa a fecundação foi realidade.
Nos frutos pouso o meu olhar, no aroma a memória da cumplicidade e na cor está reflectida a luz que reconhece a identidade.
Quem tem asas não pode conquistar um chão.
Abraço.

Maria Helena