terça-feira, 23 de setembro de 2008

BLOG DE JOSÉ SARAMAGO


Gerana Damulakis


Não posso deixar de divulgar a existência do blog de José Saramago. Soube por Manuel Anastácio, lá no blog Da Condição Humana. Já coloquei nos meus favoritos como "Blog de José Saramago", mas para quem não quiser entrar por aqui, aí vai o endereço:


A viagem do elefante é o título do próximo livro (já está pronto!) deste que é, para mim, um escritor especial (para dizer o mínimo).

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

ENFIM, OS 100

Gerana Damulakis

Enfim os 100 romances aí estão. Ficaram muitos de fora. Limite é sempre algo enganador, achamos que organiza pensamentos, até ações, mas é vã ilusão, continua sendo apenas uma barreira que desperta o desejo de ultrapassar. Se calhar, seguirei com a lista até um número qualquer, designado tão somente pelo meu gosto. Afinal, e seguindo um debate que o blog Madame K levantou há pouco tempo, para que servem os blogs? Servem ao gosto de cada um, servem para preencher alguma lacuna. No meu caso, o blog serve para registrar leituras, aplaudir textos, divulgar seus autores, compartilhar a literatura.

91- Em busca do tempo perdido (todos os volumes), de Marcel Proust

92-De verdade, de Sándor Márai

93- Minha vida de menina, de Helena Morley

94- Encontro em Samarra, de John O'Hara

95- Giovanni, de James Baldwin

96- Meus dias de escritor, de Tobias Wolff

97- Casa de encontros, de Martin Amis

98- As aventuras do Sr. Pickwick, de Charles Dickens

99-Os anéis de Saturno, de W.G. Sebald

100- O destino de um homem, de Somerset Maugham

TRECHO de Albertina desaparecida, a versão de A fugitiva alterada pelo próprio autor, último volume de Em busca do tempo perdido no qual Marcel Proust (foto) trabalhou.

Albertina já não existia; mas era a pessoa que me havia escondido seus relacionamentos com mulheres, em Balbec, e que imaginava ter conseguido me manter ignorante quanto à questão. Quando consideramos o que há de acontecer conosco após a morte, não é o nosso “eu” vivo que, erroneamente, ao fazê-lo, projetamos? Será mais absurdo, afinal, lamentar que uma mulher que já não existe desconhece ter vindo à tona o que ela fazia seis anos atrás, ou desejar que o público fale bem de nós daqui a um século, quando estivermos mortos? Se o segundo caso tem mais fundamento que o primeiro, o arrependimento, retrospectivo, do meu ciúme partiu do mesmo erro de visão que produz no homem o desejo da celebridade póstuma. Todavia, se a impressão da natureza solene e irrevogável da minha separação de Albertina, momentaneamente, suplantou a idéia que concebi de suas más ações, a mesma impressão serviu tão somente para agravá-las, conferindo-lhes um caráter irremediável. Vi a mim mesmo perdido na vida, como em uma praia infinita, onde estava só e onde jamais a encontraria, seguisse eu em qualquer direção.

domingo, 21 de setembro de 2008

ELAS MORAM EM MIM

Gerana Damulakis

Digo e repito estas palavras escritas por Clarice Lispector. Elas moram em mim.




(...) como poderei dizer senão timidamente assim: a vida se me é. A vida se me é, e eu não entendo o que digo. E então adoro. - - - - - - -


em A Paixão segundo G.H.

sábado, 20 de setembro de 2008

DIZER

Manuel Anastácio

Para a Gerana Damulakis










Dizer liberdade e pensar num pássaro. Em voar.
Em ar.
Dizer saudade e pensar em cais.
Em água.
Em pedra. Em pouco mais.
Dizer amor e pensar em fogo.
Dizer desejo e pensar em cinza
Após a inocente inconsciência do jogo ardente e do jugo
das labaredas.

Dizer liberdade e pensar em solidão.
Num só e único pássaro.
No ar. Movimento sem destino.
Dizer liberdade e pensar ingratidão.
Pássaro abandonado a correntes sem vontade,
Algemado ao amuo do vento,
Ao arrasto, ao empuxo, ao peso,
À sustentação.

Dizer liberdade e jamais pensar em bandos
E em nuvens pontilhadas de colectivo amor.
Dizer liberdade e negar a dor
Que há na saudade, mas jamais
Nos cais de nuvem
De um beijo sem atrevimento.
Liberdade a penas.
Um ponto que flutua no esquecimento,
Certa semente da mais decantada e desasada servidão.

Dizer liberdade.
E esquecer o coração.







Manuel Anastácio assina o blog Da Condição Humana, entrada pelos meus favoritos, ou http://literaturas.blogs.sapo.pt/ Foto "Liberdade", de Web4u, retirada do Flickr.

VERSOS ANTOLÓGICOS


Gerana Damulakis


Não sei se acontece com todos que amam poesia, mas comigo ocorre amiúde ter vontade de responder em versos a algum questionamento. Tudo isto porque há os versos inesquecíveis que se encaixam como resposta em várias ocasiões, ou mesmo, sem que seja preciso um diálogo, eles surgem como resultado de alguma observação. Fernando Pessoa é dono de muitos versos antológicos: os exemplos refletem os meus preferidos.

Há doenças piores que as doenças,/Há dores que não doem, nem na alma/ Mas que são dolorosas mais que as outras./ Há angústias sonhadas mais reais/ Que as que a vida nos traz, há sensações/ Sentidas só com imaginá-las/ Que são mais nossas do que a própria vida. (...). Em "Há doenças piores que as doenças"

Quem não quiser sofrer, que se isole

Há metafísica bastante em não pensar em nada.

Deus é o existirmos e isto não ser tudo. Em "A minha imagem"

Todas as cartas de amor são/ Ridículas./ Não seriam cartas de amor se não fossem/ Ridículas.

Não sou nada./ Nunca serei nada./ Não posso querer ser nada./ À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo. Em "Tabacaria"

COISAS DA NOBREZA


Gláucia Lemos


Há situações que se constroem destrutivamente, e nelas nos envolvemos, mediante uma inevitabilidade que nos custa acreditar. Passamos a responder por elas, quantas vezes com o nosso próprio prejuízo. Ficamos, como as gentes diziam na minha infância, “apagando o fifó com os dedos” (Para quem não sabe, fifó é um tipo primitivo de candeeiro, alimentado a querosene, de pavio grosso que faz chama forte, alta e fumarenta, e não tem manga). Então ficamos olhando para o tempo a nos perguntar por que estamos carregando nos ombros aquela conseqüência, se fizemos tudo de acordo com o figurino, com toda lealdade e com o mais perfeito bom-senso. Fica a perplexidade um pouco doída. E aquela sensação fria e letárgica, de não-ter-que-fazer.
Há alguns anos, nesta cidade dos mil encantos, das gentes bonitas e amigas, neste ninho de intelectualidades e de gente boa, uma moça coordenava um concurso literário anual para uma conceituada instituição. Havia uma pequena equipe bem competente, eleita por ela, para que cada elemento se encarregasse do julgamento de determinado gênero. Durante muitos anos o sistema funcionou muito bem, com pequeno cachê, mas festas de premiação com coquetel e tudo, muita música, alegria e franca amizade. A equipe era quase uma família.
Um dia, o presidente da instituição sugeriu à moça o nome de uma pessoa para participar como jurada. Só que não iria acrescentar, ao contrário, alguém teria que ser afastado para que o novo elemento o substituísse. A moça sabia da competência do novo elemento, como igualmente conhecia a competência dos que, havia tantos anos, vinham trabalhando. Entrava o sentimento de lealdade. E perguntou: quem eu afasto? E disse ao presidente: escolha quem sai, porque essa escolha eu não posso fazer. Ele não quis escolher, ela não pôde escolher. Ninguém saiu.
A nova não entrou, mas entrou na historinha um componente terrível, abjeto, cruel e destruidor, chamado Retaliação.
O novo elemento proposto era da imprensa e tinha função expressiva na área literária. Nunca mais, a partir de então, a moça que coordenava os jurados conseguiu publicar um conto, uma crônica, um ensaio, um artigo, naquelas folhas que, anteriormente ao fato, lhe eram franqueadas sem reservas. Ganhou prêmios, fez palestras, venceu concursos, participou de projetos importantes, mandava releases, nunca mais até hoje, mereceu a menor notícia naquele jornal, como se tivesse sido sentenciada a encerrar sua carreira. Alguma dúvida?
Isso é a vida no lado escuro. São coisas que acontecem quando menos esperamos. Coisas relacionadas com nobreza, de haver, ou não haver.
Algum comentário?


Gláucia Lemos é ficcionista, cronista e poeta, tem vários títulos publicados e prêmios recebidos. Foto "revista e jornal", de Crystian Cruz, retirada do Flickr.

DO 81 AO 90

Gerana Damulakis


81- Homem que é homem não dança, de Norman Mailer

82- O companheiro de viagem, de Gyula Krúdy

83- Nada de novo no front, de Erich Maria Remarque

84- O amanuense Belmiro, de Cyro dos Anjos

85- A montanha da alma, de Gao Xingjian

86- Trilogia (A vida breve, O estaleiro, Junta-cadáveres) de Juan Carlos Onetti

87- Mar morto, de Jorge Amado

88- Pedra Bonita, de José Lins do Rego

89- Rumo à estação Finlândia, de Edmund Wilson

90- Com o diabo no corpo, de Raymond Radiguet

TRECHO de Mar morto, de Jorge Amado (foto).

Lívia olha o mar morto de águas de chumbo. Mar sem ondas, pesado, mar de óleo. Onde estão os navios, os marinheiros e os náufragos? Mar morto de soluços, quedê as mulheres que não vêm chorar os maridos perdidos? Onde estão as crianças que morreram na noite do temporal? Onde está a vela do saveiro que o mar engoliu?E o corpo de Guma que boiava com longos cabelos morenos na água que era azul? Na água plúmbea e pesada do mar morto de óleo corre como uma assombração a luz de uma vela à procura de um afogado. É o mar que morreu, é o mar que está morto, que virou óleo, ficou parado, sem uma onda. Mar morto que não reflete as estrelas nas sua águas pesadas.
Se a Lua vier, se a Lua vier com sua luz amarela, correrá por cima do mar morto e procurará como aquela vela o corpo de Guma, o de longos cabelos morenos, o que marchou pela estrada do mar para o caminho das Terras do Sem Fim, das costas da Arocá."