terça-feira, 10 de março de 2009

EM VÁRIAS FASES DA VIDA: BALZAC

Gerana Damulakis

É interessante como a obra de Balzac está presente em várias fases da minha vida. Estou lendo História dos Treze (Ferragus, A Duquesa de Langeais, A Menina dos Olhos de Ouro, em volume único da L&PM Editores).

"Saudai-me, pois estou seriamente na iminência de tornar-me um gênio", escreveu Balzac em carta à sua irmã.

De fato, ele foi um gênio.

domingo, 8 de março de 2009

MINICONTO DE ANTÔNIO TORRES


MAS O RIO CONTINUA LINDO
Pensa o desempregado ao pular do Corcovado.


Foto de mistca, retirada do Flickr.

sábado, 7 de março de 2009

PARA A MARIA HELENA


Manuel Anastácio


No horizonte, na ténue linha onde os gritos morrem
E se cala o eco,
As montanhas concentram-se num fractal
Onde o bem e o mal tomam formas
De insuportáveis dimensões.
Antes do horizonte, insustentáveis, as coisas fogem ao
olhar,
E os sentidos obrigam a um só momento.
Antes do horizonte não há memória nem pensamento,
E a erosão destrói a história e qualquer outra ilusória
narração.
As imagens, oxidadas, envelhecem, veladas em poeira e
abrasão.
Os mantos abrem buracos por onde o coração das coisas
vê as estrelas
E Abraão, sem vê-las, planeia veredas.
Mas antes do horizonte apenas seguem sendas e atalhos
Cortados em retalhos sem limite.
Antes do horizonte, os caminhos
Esbarram na impossibilidade de atravessar o que a luz
obriga.
Dos mais curtos, dos prometidos, há pedaços.
Há fragmentos de percursos interrompidos.
Há farrapos de mera possibilidade.
E, na verdade, perdidos,
Somos rendidos nos caminhos pelos deuses que passam
E nos trespassam com sonhos e promessas
Que se esbatem no horizonte.

A erosão corrói a cutícula do universo
E há no seu inverso, a deposição, o mistério das coisas
como elas são.



Manuel Anastácio é poeta e professor, assina o blog Da Condição Humana: http://literaturas.blogs.sapo.pt/
Conservei a ortografia do português europeu.
Ilustração da postagem: "Lamentação da Virgem", de "As Horas da Cruz" do Mestre de Rohan. 1435

quinta-feira, 5 de março de 2009

DUAS ESCRITORAS DE PESO


Gerana Damulakis


As escritoras Állex Leilla e Renata Belmonte lançarão seus novos livros. Állex Leilla é, na minha opinião, uma ficcionista singular: original, ousada, seu texto sempre exerceu um enorme fascínio sobre mim justamente por ser ímpar em se tratando de tema e linguagem. E Renata vem se firmando com seus livros e seus prêmios, os quais, de saída, atestam um talento verdadeiro; espero e creio que sua profissão, consumidora de tempo em área distante da literatura, jamais conseguirá sufocar este talento. Será com muito prazer que lerei O sol que a chuva apagou (belíssimo título) e Vestígios da Senhorita B. (título que corresponde ao blog da própria Renata).

domingo, 1 de março de 2009

CASTELÃO DE MITOS

Gerana Damulakis

"Estou na berlinda/ porque tenho no meu peito,/ além dos espinhos desses cardos,/ uma saudade infinda."
Sosígenes Costa



O tratamento sobre a obra de Sosígenes Costa começa pelo caminho da admiração. É, antes de mais nada, um tratamento admirativo e isto torna difícil a escolha da direção na qual podemos lançar um olhar para avaliar sua poesia. Autor que viu apenas um livro publicado em vida, Obra Poética, Rio de Janeiro, Editora Leitura, 1959, o baiano de Belmonte, nascido em 1901, viveu 68 anos e teve dois livros póstumos, ambos publicados pela Editora Cultrix, de São Paulo, graças ao empenho do ensaísta e também poeta José Paulo Paes: a Obra Poética II e Iararana.
Se Sosígenes é mais citado pelos seus "sonetos pavônicos" de versos que se guardam na memória, seria errôneo deter a mirada nestes poemas de descrição simbolista, únicos em verdadeira originalidade, refinamento e mesmo na estranheza que suscitam quando o poeta deixa que a impregnação do luxo barroco estabeleça uma combinação que denuncia sua singularidade. Bronzes, lilases e lírios, mirra e canela, compõem sonetos simbolistas, mas ímpares no uso destes símbolos. Há sempre um quê de irônico, uma esgarçar do canto da boca, como se ao lidar com flores e aromas, o poeta evocasse um mundo que viesse diferir a sua poética a ponto de tornar impossível seu enquadramento em uma escola.
A natureza, fornecedora de ritmos naturais, atrai o poeta Sosígenes Costa assim como os mitos, porque ela mesma criou vínculos com os arquétipos. Os ritmos poéticos, para N. Frye, são ligados ao ciclo natural por estarem sincronizados com os ritmos da natureza, por exemplo, com o ano solar. O pôr-do-sol, tão caro ao nosso poeta — um exemplo mais imediato é o soneto "Tornou-me o pôr-do-sol um nobre entre os rapazes" — é um arquétipo da sátira o que, de resto, coincide muito bem com o tom com o qual Sosígenes impregna muitas de suas peças poéticas. Tal soneto, donde foi retirado o título deste texto, é uma confissão do desejo de criar um sinônimo para a poesia, ironizando os mitos:

Queima sândalo e incenso o poente amarelo
perfumando a vereda, encantando o caminho.
Anda a tristeza ao longe a tocar violoncelo.
A saudade no ocaso é uma rosa de espinho.

Tudo é doce e esplendente e mais triste e mais belo
e tem ares de sonho e cercou-se de arminho.
Encanto! E eis que já sou o dono de um castelo
de coral com portões de pedra cor de vinho.

Entre os tanques dos reis, o meu tanque é profundo.
Entre os ases da flora, os meus lírios lilases.
Meus pavões cor-de-rosa os únicos do mundo.

E assim sou castelão e a vida fez-se oásis
pelo simples poder, ó pôr-do-sol fecundo,
pelo simples poder das sugestões que trazes.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

NESTA DESMEDIDA

Kátia Borges



Há um poema aqui
nesta desmedida.
Sim, há um poema aqui
nesta desmedida.


Sem palavras, zen,
sem saber de sílabas.

Há um poema aqui, sim, nesta desmedida.



Kátia Borges publicou De volta à caixa de abelhas (Secretaria da Cultura e Turismo, FUNCEB, EGBA, 2001 - Coleção Selo Editorial Letras da Bahia). Visite seu blog, Madema K, entrada pelos meus favoritos, ou http://mmeka.wordpress.com/

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

A LENDA DE RASPUTIN


Gerana Damulakis


Não gosto de ler sobre História. Na verdade, não gosto de ler o que não seja Literatura. Mas, sou química. E é como química e como leitora que vou reproduzir uma história que li no livro de Jacques Bergier, Os impérios da química moderna. Trata-se de um fato muito interessante.

No final do período czarista da Rússia, um monge chamado Grigori Rasputin (foto), tornou-se uma figura muito influente na Corte imperial porque salvou o filho do czar, Alexei Romanov, da hemofilia. O místico caiu nas graças da czarina Alexandra Fedorovna, que passou a confiar cegamente no "mensageiro de Deus". Tanta influência começou a incomodar. Conspiradores patriotas, mas ignorantes em Química, colocaram cianureto de potássio num chá de limão destinado ao mago Rasputin. O mago bebeu o chá e, antes, ainda regou-o com uma boa vodca. Nada aconteceu, o chá era inofensivo para aquele homem protegido por forças sobrenaturais. Os conspiradores benzeram-se primeiro, depois mataram Rasputin a tiros de revólver; "por aqui é que eles deveriam ter começado", escreve Bergier.

A superstição, tornada histórica, tem explicação e acaba com a lenda de Rasputin. O ácido cianídrico e seus sais, especialmente o cianureto de potássio, são venenos violentos. Este tipo de venenos tem uma propriedade que os químicos conhecem bem: o cianureto de potássio, num meio quente e ácido (o chá de limão), se transforma em carbonato de potássio totalmente inofensivo.

Bergier conta que indicou o mecanismo químico do fenômeno a um dos sobreviventes da conspiração, um homem muito idoso que ele encontrou em Paris antes da Segunda Guerra, e que ficou completamente desolado. Este homem prometeu consultar Bergier na próxima vez que fosse envenenar alguém.