sábado, 3 de janeiro de 2009

VAMOS ESQUECER O TREMA, CERTOS ACENTOS, O HÍFEN EM MUITOS CASOS



Não esqueçam: desde 1º de janeiro de 2009 entrou em vigor o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

A maior parte dos jornais, a exemplo da "Folha de São Paulo" e do "O Estado de São Paulo", dois dos principais jornais do Brasil, adotaram desde o dia primeiro de janeiro as novas regras da reforma ortográfica da língua portuguesa.

Foto de menina.da.LUA, retirada do Flickr.

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

ESPAÇO UNIBANCO DE CINEMA GLAUBER ROCHA



Espaço Glauber – o Ouro

Ildásio Tavares

Sair de minha choupana em Itapuã onde durmo ao embalo da música das ondas que Debussy tentou captar a vida inteira; sair do meu sossego atlântico, ainda mais de noite, só mesmo por alguma coisa muito sedutora ou muito do meu afeto. Desta vez, eu ainda tive o incentivo de uma musa inspiradora, uma amiga fiel que veio me pegar em casa e, na volta, me deixou no Iguatemi na cara de um táxi. E desta vez o estímulo foi duplo – sedução e afeto.Tratava-se da revitalização do antigo Cinema Guarany, rebatizado de Glauber Rocha e agora devolvido ao público baiano em grande estilo. A inauguração oferecia, de quebra, um clássico, O Santo Guerreiro contra o Dragão da Maldade, obra prima de nosso genial cineasta.
Este belíssimo filme ganhou, lá fora, o título de Antônio das Mortes para facilitar o público, mas para descaracterizar um aspecto da proposta do mais brasileiro dos cineastas de fazer um cordel cinematográfico, referencializado no título original. Gláuber usa, inclusive, a linguagem do cordel nos diálogos e a parodia no mis-en-scène. A película não podia ser mais nordestina, uma perfeita alegoria das relações de dominação no sertão, flagrando, de forma magistral, a catarse de Antônio das Mortes que desperta de seu letargo de matador de cangaceiros=sertanejos e parte para combater o verdadeiro mal configurado no latifúndio e nos seus coronéis - passa de dragão para santo, ao lado de Mário Gusmão feito S. Jorge. no final.
É digno do primeiro mundo, o espaço Glauber Rocha. Vi algo semelhante em Roma, um espaço multiuso onde assisti a um fabuloso concerto sinfônico. O espaço, não pretende ser uma mera casa de espetáculos. Possui variada vocação cultural – uma livraria, uma galeria, um restaurante quatro salas de projeção finamente equipadas, poltronas das mais confortáveis e com uma técnica de projeção que une o mais bem resolvido da imagem ao mais bem requintado dos sons, o que pude constatar na exibição do filme de Glauber cuja cópia, por sinal, rivaliza com o original em qualidade.
Lembro-me de que vi o filme original no Cine Capri, com Aloysio de Oliveira que aqui estava na produção do filme Capitães de Areia, (obra de Jorge Amado) de Hall Bartlett, diretor de um filme de sucesso na época, Fernão Capelo Gaivota, (Jonathan Seagull). Aloysio fora aos Estados Unidos com o Bando da Lua, acompanhando Carmem Miranda, e trabalhara com Walt Disney. O tempo todo, ele reclamou de defeitos técnicos do filme, na montagem, inclusive. Vendo o filme agora, na verdade não descobri nenhum. Acho que foi pura birra do meu amigo Aloysio que cobrava o filme fosse hollywoodiano, a última coisa que Glauber gostaria para um filme que fez com as vísceras do nordeste de fora.
Espero,que as autoridades prestigiem o esforço criativo que brindou a Bahia com este espaço. À frente da Fundação Gregório de Mattos um poeta da maior expressão, terá o desafio de rechear a praça; de Criar e recriar e de acrescentar mais ouro a este ouro que nos deram.

SPECTOR

Gerana Damulakis

O poeta Luís Antonio Cajazeira Ramos leu a postagem que Kátia Borges colocou no seu blog, Madame K (http://mmeka.wordpress.com/), no dia 29 de dezembro. Trata-se de um texto de Clarice Lispector com considerações em torno de "se eu fosse eu". Não foi preciso mais: Luís escreveu o soneto seguinte. Desfrutem verso a verso, leiam e releiam.


SPECTOR

Luís Antonio Cajazeira Ramos

Clarice, “se eu fosse eu” não faz sentido.
É como se eu pudesse ser alguém.
Pois nem ser eu sei ser, quanto mais quem
houvesse além de si haver havido.

Melhor deixar aquém o ser contido
e se deixar além de todo além.
Há muito que essa vida não faz bem
a quem vive pensando ou comovido.

Melhor não ser Clarice nem ser eu,
Clarice, nem ser eu a te dizer
o que é melhor – a ti, que já morreu

em mim o que queria conhecer
o que sentia, o que queria meu
um jeito, no sem jeito de viver.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

PAISAGEM: A PONTE ESTAIADA OCTÁVIO FRIAS DE OLIVEIRA


Gerana Damulakis


A definição do Aurélio para o vocábulo ‘paisagem’ é: espaço de terreno que se abrange num lance de vista. O Rio de Janeiro é o campeão em matéria de paisagens belas, paisagens dignas de cartões postais. Tem o Cristo Redentor, o Pão de Açúcar, a própria Copacabana, para ficarmos nos pontos turísticos imediatamente lembrados, porque há outras belíssimas paisagens. A minha cidade vem em seguida: o Farol da Barra, o Porto da Barra, o Elevador Lacerda, uma quantidade enorme de praias, o Farol de Itapuã, para ficarmos também apenas nos lugares mais evidentes. Já a cidade de São Paulo não tem nada que nos faça querer olhar de novo. Claro está que tudo vem do meu ponto de vista, não há pretensão de plasmar verdades absolutas. Voltemos a São Paulo: o Viaduto do Chá ou a vista do restaurante Terraço Itália seriam suficientes para extasiar o olhar? Não acho, embora não esqueça as maravilhosas horas que passei no Terraço Itália em certa noite regada com paixão, por ocasião de uma Bienal do Livro de São Paulo: o manto de luzes que recobre a cidade vista lá das alturas do restaurante, a música brega apropriada para os enamorados, a boa comida e, no meu caso, a companhia do meu amor; foi inesquecível, sempre digo a Aramis o quanto adorei aquela noite já quase no final do século XX. Mas, neste dezembro, retornei a São Paulo carregando a minha tristeza, o peso da perda de meu pai, peso este que não me deixa e traz sombra ao meu olhar; contudo, eu fui com disposição suficiente para, deslocada daqui, abrir meu estado de ânimo para a música de Madonna e acabei me encantando com a vista do meu quarto de hotel no Morumbi: o novo cartão postal de São Paulo, a Ponte Estaiada Octávio Frias de Oliveira, inaugurada no dia 10 de maio deste ano. Achei, num lance de vista, um espaço tão belamente ocupado, me alegrei tanto ao admirar a arquitetura e a grandiosidade da ponte, que aí está a foto tirada do hotel. De noite ela estava iluminada para o Natal, cheia de estrelas, mas as fotos não estão tão boas. Posso dizer agora que a minha paisagem preferida em São Paulo é a visão da Ponte Estaiada.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

LIVRARIA CULTURA

Gerana Damulakis

Na postagem de 30 de novembro último, intitulada “Livraria Cultura”, José Saramago, em seu blog O Caderno de Saramago (http://caderno.josesaramago.org/page/17/), escreveu:
“A última imagem que levamos do Brasil é a de uma bonita livraria, uma catedral de livros, moderna, eficaz, bela. É a Livraria Cultura, está no Conjunto Nacional. É uma livraria para comprar livros, claro, mas também para desfrutar do espectáculo impressionante de tantos títulos organizados de uma forma tão atractiva, como se não fosse um armazém, como se de uma obra de arte se tratasse. A Livraria Cultura é uma obra de arte.
O meu editor, Luis Schwarcz, da Companhia das Letras, sabia que me ia emocionar este portento, por isso me levou. Também me tocou bastante a livraria da Companhia, ver estantes luminosas com obras de fundo, os clássicos de sempre expostos como outros fazem com as novidades. E todos juntos oferecidos ao leitor, que tem o difícil mas interessante dilema de não saber que escolher.”
No dia seguinte, parece que o encantamento ainda tomava conta das lembranças do autor de A viagem do elefante, haja vista o retorno ao mesmo tema: “Ontem deixei aqui algumas frases admirativas sobre as magníficas instalações da Livraria Cultura, em São Paulo. Ao assunto volto, em primeiro lugar para reiterar como justiça devida, a impressão de deslumbramento que ali experimentámos, Pilar e eu...”
A livraria Cultura é realmente uma obra de arte, como definiu meu autor de cabeceira. E ali estive por conta do entusiasmo dele. Na foto, como comentei com Kátia Borges, pareço, metaforicamente, é óbvio, uma criança visitando uma doceria ou uma loja de brinquedos, dado o sorriso de um canto ao outro. Para quem ama os livros, a Cultura é um templo.
Notinha: não estranhem tanta roupa em pleno dezembro, lembrem que havia uma frente fria no sudeste do país na semana dos shows de Madonna e, afora a desculpa verdadeira, lembrem que eu sou da Bahia, terra do sol e da alegria.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

NATAL

Manuel Anastácio


Há natáis que pedem poemas.
Outros não.
Os que pedem, pedem
Poemas de luz celeste em terra escura.
Outros não.
Os que pedem, pedem
Sofrimento em grossos traços de doçura.
E em gritos no tom que eclode
No peito frágil que enfim respira.

Outros não pedem.
Não podem. Não querem. Não são.
Outros não.

Há natáis que pedem o segredo
Que a luz aos sábios segredou
E que em caixinhas guardados
Em ouro, incenso e mirra se disfarçou.
Um traz silêncio, que ele dorme.
Um traz aviso, pelo perigo.
Outro, novidade, que o menino ignora.
Porque é de poema o sobreaviso, o aviso e a demora.
Ou não.



Manuel Anastácio é o poeta que assina o blog Da Condição Humana, cuja entrada pode ser feita pelos meus "Favoritos", ou com o endereço: http://literaturas.blogs.sapo.pt/

Foto do Cristo Redentor, no Rio de Janeiro, de Sweet Painting, retirada do Flickr.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

ALÔ, SOLIDÃO!


Gláucia Lemos


No edifício em frente havia um senhor que cuidava dos passarinhos. Suponho que era aposentado. Tinha cabelos brancos e compleição franzina. Caminhava devagar, mas seus gestos eram precisos e cuidadosos. Pelo que eu observava, ele criava os passarinhos.
Todas as manhãs, enquanto eu estava regando a jardineira da minha varanda, via-o no seu quinto andar, à altura do meu, alimentando-os. Só que tinha uma particularidade, os passarinhos viviam soltos, não havia gaiolas nem telas limitando a liberdade dos bichinhos. Ele espalhava a ração sobre o parapeito da varanda, e uma infinidade de aves pequeninas vinha não sei de onde e pousava diante dele, inquietamente bicando os grãos de alpiste. Seriam rolinhas ou outras de porte semelhante. Todas as manhãs.
Havia alguma coisa poética naquela cena, que se completava com a presença de piotas pendentes do teto, em volta das quais, agitando vertiginosamente as asas, esvoaçavam beija-flores.
Nunca vi outras pessoas habitando aquele apartamento. O homem se movimentava rodeado de pássaros, enquanto eu regava minhas plantas no meu espaço.
Contemplava-o por longos minutos, gozando o direito da invasão sem culpa, e me recolhia a meus afazeres que eram muitos, na minha responsabilidade de mãe de três filhos em idade escolar, dona de casa sem empregada, mulher casada com piloto em intermináveis vôos pelos céus do mundo, e tão poucas vezes voando em direção à casa. Aquele velhinho, ao longe, começou a fazer parte da minha vida. Poderia ser meu pai. Se um dia não o encontrava alimentando os pássaros, ficava preocupada. Estaria doente? Teria mudado de endereço? Quem alimentaria os passarinhos na sua ausência? Naqueles dias, a cada intervalo entre o tempero do arroz e o alarme do forno, corria à varanda a ver se estaria de volta. Até que, mais tarde, ou no dia seguinte, ele lá aparecesse, para minha tranqüilidade.
Nisso passaram-se meses sem conta, talvez um ano ou mais, não posso precisar, vivendo a mesma rotina.
Uma tarde, concluída a jornada diária, enquanto descansava a esperar a hora para apanhar as crianças no judô, eu cochilava em cima das páginas de Hemingway, que estava sendo a minha companhia do momento, na absoluta falta de alguém com quem conversar.Com Hemingway eu andava freqüentando bares e estações ferroviárias, entre bêbedos, marinheiros e prostitutas.
Então, soou a campainha da porta. Que visita estaria chegando sem prévio aviso, quem sabe seria o zelador do prédio para medir o gás.
Com má vontade, espiei pelo olho mágico da porta de serviço. Não era o zelador, não reconheci a pessoa, o hall não estava bastante iluminado. Deixei a área de serviço, encaminhando-me à porta da sala , recriminando a portaria por não ter avisado a chegada de alguém.
Torci o trinco. Um senhor de cabelos inteiramente brancos, brancos como talco, estava de pé me olhando, com olhos miúdos e brilhantes, olhos de uma cor quase doirada, e um sorriso que não se completava, apenas se desenhava quase imperceptível na boca pequenina. Um sorriso que quase pedia desculpas por sorrir.
- Boa tarde - cumprimentei e sorri também.
Tenho medo de desconhecidos, mas vendo-o tão frágil, pequeno, parecendo indefeso, não senti receio, o sentimento era de quase proteção.
- Quem o senhor procura?
Ele desvelou o sorriso retido, com dentes pequenos e brancos.
- A senhora mesma. Sou seu vizinho, do edifício em frente.
Então o reconheci. Meu Deus, é o velhinho dos pássaros.
- Pois não? Sei. Pode entrar, faça favor.
Ele entrou, seus passos eram suaves. Sentou-se no sofá em frente a mim, discreto, parecendo tímido.
- Esteja à vontade – animei-o.
Então começou
- É porquê... Vejo sempre a senhora regando as plantas pela manhã. Fico observando o empenho com que cuida delas. São tão bonitas. Fiquei curioso.
- É verdade. Eu gosto de plantas, cultivo flores.
- Eu também gosto. Mas não tenho jardineira. Cultivaria crisântemos. Se pudesse.
- Pode vir vê-las. É só um canteiro.
Levei-o até a varanda.
- Aqui são begônias. Begônias vermelhas. Quando abrem as corolas demoram muito para secar, às vezes aturam abertas até dois meses.
- Demoram tanto assim? Por isso que estão sempre floridas. Parecem rosas, lá da minha varanda pensei que eram rosas.
- É verdade. Parecem um buquê de rosas pequenas. Mas para mantê-las assim é preciso cuidado, nunca molhar os caules. São frágeis. Já os hibiscos só duram vinte e quatro horas. Murcham em um dia.
- As plantas são como as pessoas, cada uma com seus caprichos.
- Ou seus problemas – completei.
Ele concordou afirmando com a cabeça.
Voltamos para a sala, ele se sentou no mesmo lugar. Nunca notara que ele me observava, eu era quem o contemplava com seus passarinhos. Procurei ser gentil.
- Posso servir um café, aceita?
- Aceito. Mas não quero incomodar, é só uma visita.
- A visita me alegra.
Fui para a cozinha. Rapidamente retornei com a xícara fumegando café solúvel. Ele tomou lentamente enquanto falava. A voz era mansa como um chuvisco.
- A senhora gosta de passarinhos?
- Muito. Sempre fico olhando o senhor cuidando dos seus. São muitos, não é?
- Muitos. Mas não são meus. Sou o copeiro deles – ele riu divertido – Não sei de onde vem. Espalho alpiste e eles aparecem.
- E os beija-flores?
- Os beija-flores são uma estratégia. Eu ponho mel na água dos caqueiros e eles vem beber. Não sei como é que de longe pressentem a presença do mel.
- Mel?
- Sim, mel de abelhas. Compro especialmente para eles. Eu não como mel, é açúcar, mas eles não têm restrições, acho que é porque ainda não têm a minha idade...
Ria enquanto falava. Rimos juntos.
Então se levantou e me entregou a xícara com um resto de café.
- Obrigado. Vou embora. Venha lá em casa amanhã para ver os passarinhos se alimentando.
- Está bem. Obrigada pela visita. Vou ver os passarinhos amanhã quando deixar as crianças na escola.
Abri a porta, ele saiu manso como chegara. Voltei para dentro com um resto de sorriso. Eu iria ver os passarinhos, iria sim.
Fui.
Entrei para uma sala quase vazia de móveis. Uma arca colonial junto à parede. Acima, em contraste, imensa tela bastante colorida com motivo abstrato. Havia uma cadeira de balanço austríaca, ao lado de um revisteiro abarrotado em frente à TV de 33 polegadas. Persianas na porta larga envidraçada deixavam penetrar uma claridade frouxa, que não chegava a se espalhar pelo espaço da sala.
O velhinho sorriu ao me ver, e me conduziu à varanda. Rolinhas e outras aves miúdas bicavam o farto alpiste espalhado no mármore do peitoril, indiferentes à minha presença e ao ininterrupto rumor dos carros que transitavam lá embaixo. Permanecemos ali, em silêncio, para não afugentá-las. Ele tinha um olhar carinhoso para as aves, quase paternal. Alguns minutos e voltamos à sala onde tratei de me despedir, sem que ele concordasse.
- Não se apresse. Tenho que lhe servir alguma coisa. A senhora toma chá?
- Não se preocupe, eu tenho que ir.
Ele, porém, já se dirigia à cozinha falando enquanto caminhava.
-. Nunca recebo visitas, por isso não preciso de cadeiras. Sente aqui mesmo na cozinha. Moro sozinho, sabe? Minha mulher morreu há muitos anos, meu filho pouco me visita, não tem tempo, o trabalho...
Havia uma bancada de cozinha americana. Sentei-me em um banco alto, enquanto ele preparava um chá que tinha o cheiro bom de canela, e serviu duas xícaras. Uma colocou em minha frente e começou a tomar da outra. Em silêncio. Os dois. Eu não sabia o que falar. No ar pairava uma cumplicidade. Ele sempre sorria, um sorriso brando, parecendo contente, os olhinhos doirados brilhando entre as pálpebras rugosas. Quando terminei descansei a xícara em cima da bancada e me levantei.
- Agora preciso ir. O chá está muito gostoso, o senhor sabe preparar um ótimo chá. Obrigada por me convidar. Quando quiser, pode ir ver minhas begônias. Agora, porque o senhor falou deles, estou pensando em plantar também crisântemos. Pode ir ver quando quiser, é só avisar.
Fui saindo. Ele me acompanhou até a porta e recomendou:
- Cuidado com a porta do elevador que às vezes fica travada. O perigo do poço!!! Esta semana, eu escapei por pouco, quase caí.Volte outro dia, não precisa avisar, eu não saio de casa. Vou esperar a senhora.
Acenei e entrei na cabine, para o que tive que desemperrar a porta defeituosa. Por que não consertam esta porta? – pensei. Alguém ainda vai cair.
Fiquei com o velhinho na cabeça. Amanhã na varanda vou acenar para ele. Enfim muda alguma coisa, tenho um amigo para me sorrir e apreciar minhas flores. Que velhinho mais simpático!
Dia seguinte fui cumprir minha rotina. Regador na mão, rumo da jardineira. Ele ainda não estava na varanda. Demorei mais tempo cuidando do canteiro, arrumando um espaço para as mudas de crisântemos, enquanto esperava para vê-lo chegar a alimentar os pássaros. Ele não veio. Passei a manhã inquieta, vigiando, a pequenos intervalos. Não apareceu naquele dia. Nem no outro, nem no outro.
Nunca mais o vi. Pouco a pouco os passarinhos abandonaram a varanda. Eu desisti dos crisântemos.


Gláucia Lemos é ficcionista, cronista e poeta com 33 títulos publicados. Seu mais recente romance é Bichos de Conchas (Scortecci, 2008).
Foto "Crisântemos Coloridos", de LoveCats 2006, retirada do Flickr.