quarta-feira, 5 de setembro de 2012

DE RUY ESPINHEIRA FILHO




Um poema de RUY ESPINHEIRA FILHO


UMA VISITA EM ABRIL

Não enviarei a você
a foto em que estou sentado
no túmulo de Marcel Proust
em manhã fria e úmida de primavera,
porque não teria como explicar-lhe
que lá estava para agradecer por nós,
por nossa história por ele contada
várias vezes e de muitas maneiras,
com nomes e lugares diferentes,
mas sempre a nossa história,
desde os primeiros tempos das moças em flor,
ou ainda antes,
do jeito que foi escrito:
no tempo da Criação,
como se ainda não existisse
o passado.

Não, você nunca soube,
nem saberá,
que viveu e vive também naquelas páginas,
com nomes e feições diversas,
mas sempre bela de sua própria beleza,
de sua própria alma
fulgurante do que eu próprio lhe concedi
de mim,
como hoje trago ainda na lembrança
e escrito
pelo que visito em seu túmulo simples
de mármore negro
(e peço licença para ali sentar-me, descansando
um pouco
de tanta vida),
na manhã chuvosa e fria,
ele,
que continua a se contar,
a nos contar,
de modo tão profundo
que é como se descesse ao tempo da Criação,
quando ainda não existia
o passado.      

5 comentários:

Assis Freitas disse...

poemaço, Ruy é mestre


abraço

Tania regina Contreiras disse...

Meu professor inesquecível, o Ruy, da Facom e um poeta e tanto!
Grata pelo presente, Gerana...
Beijos,

João Renato disse...

Deu vontade de ler Proust.

Ana Tapadas disse...

Um belíssimo poema...


Beijo grande

Gláucia Lemos disse...

Cada vez q leio Ruy, repito para mim mesma: não tenho a menor dúvida, é o maior poeta vivo do Brasil. Muito me envaidece ser sua amiga e confreira.