quarta-feira, 6 de outubro de 2010

MAÇÃ


Gerana Damulakis

Manuel Bandeira (1886-1968) foi o poeta que me despertou para a apreciação da poesia. Li e fiquei tomada, assim como quem descobre o que faltava e diz É isso, é isso que me encanta. Abaixo, segue um poema pleno de ironia, sarcasmo e humor, recursos poéticos que estão em sua poesia com total consciência de como e do quanto podem ser usados. Completo Bandeira, um poeta completo.


MAÇÃ
-------------Manuel Bandeira

Por um lado te vejo como um seio murcho
pelo outro como um ventre de cujo umbigo pende ainda o cordão
-----------------------------------------------------[placentário
És vermelha como o amor divino

Dentro de ti em pequenas pevides
Palpita a vida prodigiosa
Infinitamente

E quedas tão simples
Ao lado de um talher
Num quarto pobre de hotel.

in Lira dos Cinquent'Anos

Ilustração: Natureza morta com maçãs, xícara e copo, de Paul Cezanne (1839-1906).

15 comentários:

aeronauta disse...

Bandeira, o poeta mais querido do meu coração!

Zélia Guardiano disse...

Que riqueza, Gerana!
Que riqueza!
Também eu sou apaixonada pelo poeta.
Duas maravilhas: ele, porque escreveu, você, porque selecionou para nós...
Enorme abraço com beijinhos.

Chorik disse...

Ô moça fina e culta essa Gerana! Poesia de Bandeira e quadro de Cezanne. Sempre nos trazendo duas obras de respeito.

Nilson Barcelli disse...

Conheço pouco da obra do Manuel Bandeira.
Mas gostei de tudo o que li, tal como gostei deste poema.
Beijos, querida amiga.

Marcantonio disse...

Esse poema sempre me impressionou! Só pelas analogias visuais que ele identifica na maçã já seria incrível.

Bem, e maçãs não podem ser evocadas sem que se lembre de Cezanne, não?

Abraço.

Ana Tapadas disse...

Este poema é lindíssimo, Gerana!
Beijo

Tania regina Contreiras disse...

Seleção sensível, Gerana. Passo por aqui, ensaiando a volta, e, pra variar, gosto muito das tuas escolhas, com as quais nos presenteia.

Beijão,

João Renato disse...

Oi, Gerana,
Admiro no poema o seu minimalismo e a delicadeza. E também sempre o associei a uma natureza morta.
Agora, a sacação do cordão placentário é incrível.
Abraço,
JR.

Assis Freitas disse...

sempre ao alto a Bandeira, poeta de todos nós,


abraço

glaucia lemos disse...

A arte de tirar da insignificância do dia-a-dia a poesia que reside em todas as coisas. Só o artista tem este dom. E Cezzane, o mestre, ali confirmando.

Rayuela disse...

Bandeira!
gracias


besitos*

Maria Muadiê disse...

Adoro Bandeira. Lembro direitinho do primeiro livro dele que comprei. No Círculo do livro, lembra?
bjo

Edu O. disse...

Bandeira e Cesanne, meu pintor preferido, juntos. Um presente!

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

É, imagino a Gerana das "exatas" sendo arrebatada pela poesia. Bonito.... nem todos conseguem descobrir essa coisa...essa que diz "é isto, isto que faltava"

vc sabe dizer exatamente do jeito que a gente diria...

Fernando Campanella disse...

Maravilha, este poema do Bandeira. Proporciona tanto à reflexão. Tantas vaidades no mundo, e somos orbitados pela terra, por forças externas que nos movem, e nos remetem ao pó. Gosto das coisas que não se pensam, da luz do que não se sabe, dos pequenos grandes reconhecimentos.
Um abraço, Gerana.