quarta-feira, 15 de setembro de 2010

UM GRANDE POETA



Gerana Damulakis

Carlos Pena Filho (1929-1960) é um grande nome da poesia brasileira do século 20, contudo se pode pensar e indagar: "Como ele é grande, se não é lembrado como são lembrados e louvados Mário de Andrade, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto (só para citar poucos nomes)?"

Nem todo grande poeta alcança a notoriedade nacional, mas, ainda assim, do ponto de vista da arte literária será sempre um grande poeta.

TESTAMENTO DO HOMEM SENSATO
--------------Carlos Pena Filho


Quando eu morrer, não faças disparates
nem fiques a pensar: “Ele era assim…”
Mas senta-te num banco de jardim,
calmamente comendo chocolates.


Aceita o que te deixo, o quase nada
destas palavras que te digo aqui:
Foi mais que longa a vida que eu vivi,
para ser em lembranças prolongada.


Porém, se um dia, só, na tarde em queda,
surgir uma lembrança desgarrada,
ave que nasce e em vôo se arremeda,


deixa-a pousar em teu silêncio, leve
como se apenas fosse imaginada,
como uma luz, mais que distante, breve.


Ilustração: Claude Monet (1840-1926). Femme assise sur un banc (Mulher sentada num banco), de 1874, National Gallery, London, UK.

29 comentários:

Marcantonio disse...

Afora isso, há os misteriosos desígnios pelos quais se formam (ou se inventam) as tradições.

Belíssimo poema! Pousou inteiro no meu silêncio.

Abraço.

João Renato disse...

Olá, Gerana,
Só conheço os sonetos, e acho-os de uma leveza tão grande que nem parecem sonetos.
Penso que a notoriedade exige do autor vida e obra longas, com diversos livros publicados, e ele morreu muito cedo.
Se Drummond tivesse morrido aos 31 anos só teria publicado Alguma Poesia.
Um abraço,
JR.

Nilson Barcelli disse...

Não conhecia, mas o soneto é fabuloso.
Para alcançar a notoriedade, ser bom poeta é uma condição necessária, mas pode não ser suficiente. Porque há um sem número de factores, muitos deles perfeitamente aleatórios (como, por exemplo, ter a sorte de ver um livro de leitura obrigatória na escola), que tudo decidem.
Beijos, querida amiga.

Edu O. disse...

Se lembrássemos, diariamente, que a vida é assim: breve.....

M. disse...

Ele é um dos meus poetas favoritos. Aprendi com Beth Hazin a amá-lo.

Gerana Damulakis disse...

JR: mas Castro Alves morreu aos 24 anos e consegui notoriedade. Aliás, os poetas do Romantismo morreram cedo, ou cedíssimo, e viram a glória.

Chorik disse...

Carlos Pena falava muito de cores. E das cores, a mais bela, o azul.

SONETO DO DESMANTELO AZUL

Então, pintei de azul os meus sapatos
por não poder de azul pintar as ruas,
depois, vesti meus gestos insensatos
e colori as minhas mãos e as tuas,

Para extinguir em nós o azul ausente
e aprisionar no azul as coisas gratas,
enfim, nós derramamos simplesmente
azul sobre os vestidos e as gravatas.

E afogados em nós, nem nos lembramos
que no excesso que havia em nosso espaço
pudesse haver de azul também cansaço.

E perdidos de azul nos contemplamos
e vimos que entre nós nascia um sul
vertiginosamente azul. Azul.

Belíssimo.

Gerana Damulakis disse...

Ah, Chorik, amo o "Soneto do Desmantelo Azul". Inclusive, João Cabral dedica um poema a Carlos Pena Filho, onde trata justamente das cores.
Você completou a postagem com este soneto.

aeronauta disse...

Adoro Carlos Pena Filho, o "poeta do azul", que partiu tão cedo e de uma maneira tão trágica. Poeta grande, enorme.

João Renato disse...

Oi, Gerana,
É, mas como quase todos os românticos morreram cedo, eles empataram.
No caso, sendo um morto contemporâneo de Drummond, Bandeira e João Cabral vivos (e produzindo), acho difícil um poeta atingir a notoriedade nacional.
Sobretudo quando nascido no século XX, e radicado fora do Rio e São Paulo.
Um abraço,
JR.

Bípede Falante disse...

Não conheço a obra dele. O poema é belíssimo. bj.

Assis Freitas disse...

sem dúvida, um grande poeta entre os grandes poetas,


abraço

Marcantonio disse...

Deus! Esse soneto trazido pelo Chorik é de fechar o trânsito poético! Em dias de obsessões azuladas calou-me fundo. Maravilhoso!

Ana Tapadas disse...

Um poema maravilhoso que peço licença para levar comigo. Posso?
Também vou pôr os meus meninos a fazerem uma selecção complementar de textos.
Obrigada pela partilha, querida Gerana

Gerana Damulakis disse...

Ana: claro que pode levar, o poema é de todos.

Gerana Damulakis disse...

JR: a notoriedade é uma circunstância de localidade e de ação, me diz ARC.

Rayuela disse...

estoy emocionada

mil besos*

betina moraes disse...

escolheu uma jóia do poeta!

as considerações que ele faz são belas, singelas, comoventes...

depois houve ainda o lindo soneto azul.

foi um presente vir aqui hoje.

um beijo, querida.

Carlos Barbosa disse...

Respondi lá, respondo aqui: sim, fique à vontade, pode trazer pro Leitora. Fico grato, sempre. Abrações e até lá. (Carlos)

Nilson disse...

Não conhecia. Não sei de qual gostei mais: o do homem sensato ou o do desmantelo azul!

cirandeira disse...

Um excelente poeta. Aliás, o Nordeste é um verdadeiro celeiro de
poetas e escritores que por não estarem no eixo Rio-São Paulo, são pouquíssimo conhecidos. E boa parte dos que estão por lá, são daqui do Nordeste.

Beijos

Jefferson Bessa disse...

Gerana, que belo poema!
belo mesmo!
Linda postagem.
Feliz em poder ler um soneto desses!
Um beijo.
Jefferson.

Lisarda disse...

Brrrr! Fiquei tembrando!
Maravilhosamente sensato.

Pena disse...

Estimada e Linda Amiga:
Que maravilha. Realmente, um enorme e gigante poeta.
Parabéns pela homenagem a esse admirável Homem das Letras. Extraordinário.
Beijinhos agradecidos pela sua doce visita de sonho.
Com respeito e sempre a admirá-la

pena

Bem-Haja, fabulosa amiga.
Excelente Post. Como já nos habituou com a sua ternura.
MUITO OBRIGADO pela sua amizade que é recíproca.
Tem um blogue de encanto.
Só sai daqui maravilha e deslumbre.

glaucia lemos disse...

Muito doce, de um lirismo leve, leve, quase esvoaçante, um sonetista que sabe tratar o estilo. E o pai do impressionismo completando muito harmonicamente. Um belo post.

lírica disse...

Ge
Esse é um dos poemas mais belos que li, muito obrigada por esta preciosa partilha.
Quando eu morrer gostaria que este poema fosse lido para minha alma voar para um céu bem azulzinho :)
bj querida
tenha um dia feliz!

lírica disse...

Já estava a esquecer de falar sobre "a mulher sentada num banco", adoro esta obra e Monet é um dos meus favoritos :)
bejin arigatô :)

Fernando Campanella disse...

Gosto muito desse poema do Carlos Pena Filho, já me inspirei nele. E gostei muito também do poema sobre o azul que o Chorik apresentou no 'Comentários'. Curioso é que o poeta faleceu jovem e no poema postado apresenta a bela maturidade de uma longa vivência. Talvez tenha amadurecido,e atingido a excelência cedo demais. Seu legado poético o coloca ao lado dos grandes, sem dúvida. Quanto à notoriedade, muitos fatores a propiciam. Carlos Pena pode não ser lido como um Drummond, mas o simples fato de estar aqui em teu blog, lembrado e reconhecido por ti, e por tantos outros, já lhe faz justiça.
Grande abraço.

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Aceita o que te deixo...
louco isso, pq na verdade, nem sabemos direito o que nos dão, imagina então o que nos deixam...
Gerana, vc sempre acerta...