sexta-feira, 10 de setembro de 2010

FERREIRA GULLAR: 80 ANOS

Gerana Damulakis

Uma homenagem...
porque sua poesia seguiu - e segue - lado a lado com o país desde o começo da segunda metade do século 20, porque sua poesia se fez surreal, se fez concreta, se fez neoconcreta, se fez crítica e continua sendo feita, porque seu "eu" lírico sente e versa a natureza, porque o poeta carrega também as cidades, não apenas a sua São Luís do Maranhão, mas o Rio de Janeiro, Buenos Aires, Santiago do Chile, porque Gullar vive o homem brasileiro, o homem latino-americano, porque hoje Ferreira Gullar completa 80 anos.

CANTIGA PARA NÃO MORRER

-----------------Ferreira Gullar

Quando você for se embora,
moça branca como a neve,
me leve.

Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.

Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.

E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.


-----------in Dentro da noite veloz


Ilustração: Hélio Oiticica (1937-1980).

20 comentários:

Por que você faz poema? disse...

"Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo."

Jefferson Bessa disse...

Gostei muito de seu comentário, Gerana!
A poesia de Ferreira Gullar, além de sua qualidade, podemos recebê-la como a de um poeta que viveu para/com ela. É a coragem de um artista.
Fico feliz em ler Gullar no seu blog.
Um beijo.
Jefferson.

Assis Freitas disse...

80 anos. Quando me deparo com esses números é que me dou conta do tempo e como ele devassa a carne do homem. Gullar é um dos fundamentais da nossa poesia, o Poema Sujo é magistral e reflete um momento único da história do Brasil. Vida longa ao poeta,


abraço

M. disse...

Gosto tanto. Coisa mais linda esse poema.

Georgio Rios disse...

E foi ao levar pra casa um volume de Toda Poesia para casa que me embrenhei pela poesia. Grande Gullar, de dentro da noite veloz. Gerana em breve te mando os textos.Um abraço!

João Renato disse...

Olá, Gerana,
Por acaso, ultimamente tenho relido muito o "Toda Poesia" dele, e é sempre uma descoberta. Em todos os livros tem alguns poemas muito bons, além de sempre demonstrarem um compromisso radical e corajoso com a verdade.
Ele bate e dá a cara para bater.
Gullar levou sua vida além dos limites, mas sempre levando a poesia consigo, e sem que ela perdesse a qualidade.
E isso é muito, muito difícil mesmo.
Um abraço,
JR.
ET: Esse poema que você postou, ele escreveu para uma namorada russa, quando estava exilado em Moscou.

Vladimir Queiroz disse...

Para F Gulart a vida sempre foi celebracao. Nao e de extranhar sua vitalidade aos 80. Deixar que os passos sejam regados de surpresas ao longo do caminho.
"sei que dois e dois são quatro
sei que a vida vale a pena
mesmo que o pão seja caro
e a liberdade pequena."FG

José Carlos Brandão disse...

A poesia de Gullar é um soco no estômago.
Parabéns ao poeta.

Caio Rudá de Oliveira disse...

Gullar é sensacional. Acredito que será nosso primeiro nobel de literatura.

Lidi disse...

Lindo poema do Gullar. Também gosto muito de "Poema Sujo". Bjs

Maria Muadiê disse...

essa poema é lindo!
viva a Gullart!

BAR DO BARDO disse...

Referência não obrigatória, mas prazerosa.

Ele é grande.

BAR DO BARDO disse...

Referência não obrigatória, mas prazerosa.

Ele é grande.

Ana Cecília disse...

Belo comentário, belo poema.
Obrigada por nos fazer celebrar a poesia.

Flamarion Silva disse...

Não li muito Ferreira Gullar. É uma falta grande. Graça que sempre recitava, de memória, este poema suave.
Abraço.

Marcantonio disse...

Nossa, mas o seu texto ficou belíssimo!
Um poeta plural, enorme, e que jamais mistificou a poesia.

"Façam a festa/ cantem dancem/ que eu faço o poema duro/ o poema-murro/ sujo/ como a miséria brasileira"

Só não sei se ele (atualmente)aprovaria a imagem do Hélio Oiticica... Rs.

Abraço.

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Que lindo...

no fim então, de um modo ou de outro, a moça branca (a morte?) vai nos levar mesmo.

Que demais sua concepção tão mitológica do homem cosmopolita, que reflete o cosmos, que não é de cidade alguma, mas do universo.

Gerana, vc sabe das coisas, sabe mesmo. Será por isso que existe uma melancolia na vida? Tanto saber...... tanto por fazer....tic tac....

Lisarda disse...

Um gran poeta. O conhecí em Buenos Aires cuando saiu a ediçao bilingue do Poma Sujo, em 2008.
Foi inesquecível falar com ele.

Fernando Campanella disse...

Maravilha de poema, lindo demais. Há alguns meses atrás fiz uma postagem em meu blog sobre o Ferreira. Uma entrevista ao 'O Estado de São Paulo', o poeta fala de seu retorno à poesia após uma ausência de onze anos, se bem me lembro. E que poesia ele nos trouxe agora, mais lírica, intimista, encantada. Grande poeta.
Parabéns ao poeta pelo aniversário, e a você, Gerana, pela lembrança e homenagem.

Nilson disse...

Grande Gullar! É sempre bomm voltar ao Leitora e aos seus posts que respiram literatura!