
Gerana Damulakis
Os poetas e os leitores de poesia têm algo em comum: o sentimento do excesso de ser.
O poeta português Mário de Sá-Carneiro escreveu: “De excesso, morri à míngua”, enquanto Mário de Andrade chegou a precisar: “Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cinquenta”.
São os versos de Mário de Andrade que utilizo em determinadas circunstâncias, talvez em momentos confusos, onde excessivamente sou tantas, ainda que haja a fé — “ Mas um dia afinal eu toparei comigo”.
O poema de Mário de Andrade abaixo conserva a ortografia da época.
EU SOU TREZENTOS...
---------------------Mário de Andrade
Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,
As sensações renascem de si mesmas sem repouso,
Ôh espelhos, ôh Pirineus ! Ôh caiçaras!
Si um deus morrer, irei no Piauí buscar outro!
Abraço no meu leito as milhores palavras,
E os suspiros que dou são violinos alheios;
Eu piso a terra como quem descobre a furto
Nas esquinas, nos táxis, nas camarinhas seus próprios beijos!
Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,
Mas um dia afinal toparei comigo...
Tenhamos paciência, andorinhas curtas,
Só o esquecimento é que condensa,
E então minha alma servirá de abrigo.
Ilustração: de Lasar Segall, Mário de Andrade, 1927.
22 comentários:
Gerana, querida, um dia eu também toparei comigo! E que versos esses, não?
abraços,
Tânia
Como no livro do Pirandelo, somos: um, nenhum e cem mil :)
Como no livro do Pirandelo, somos: um, nenhum e cem mil :)
"excesso de ser"
Gerana, acho que sofremos dessa doença...rsrsrs.
Acho mesmo...hum, sinto palpitar! E vc?
E tem o F.Pessoa- eu que aguente comigo e com os comigos de mim.
Vou dormir, eu e minas sombras.
Tenha uma boa semana, minha amiga!
Adoro esse poema. Sempre que ouço falar em excessos lembro de Blake: o caminho do excesso leva ao palácio da sabedoria. Os excessos de ser levam à poesia? A Bípede lembrou bem sobre Pirandelo.
A título de informação: também torci pela Argentina; e também acho o Maradona uma figura. Rs.
Abraço.
Fiquei invocado com a ideia de que só o esquecimento condensa!
a pluralidade que caminha paradoxalmente com a singularidade, ser muitos e diverso e ter um eu essencialmente afinado,
abraço
Somos muitos, e nenhum rosto é conhecido.
Que lindo isto: um dia eu toparei comigo. Sabe, Gerana, venho tentando isso há tempos, rs, sou tão múltiplo, tantas coisas pululando, atritando-se, tantos eus... mas , por incrível que pareça, escrevendo consigo temporariamente uma unidade, tenho a sensação de que estou inteiro ali no que crio embora 'entrelinhas'.
Um abraço.
Olá,
Assim sendo, num mundo onde o ter tem todos os holofotes, quem não é poeta, que vire leitor de poesias para, quem sabe, talvez, no futuro formarmos uma sociedade mais humana e justa.
Saúde e felicidade.
JPMetz
Oi, Gerana,
Acho que as palavras são muitas para uma pessoa só.
Abraços,
JR.
Talvez seja por ele ter sido tantos, trezentos e cinquenta, que uma certa pintora do grupo modernista tanto o idolatrou e sofreu de amor em vão. Minha memória não me ajuda, ocorre-me o nome de Anita Malfatti, mas tenho dúvida no momento. Só sei que nenhumn dos muitos que havia no grande Mário se sensibilizou com a paixão que inspirara.
Penso que é o encontro que todos nós esperamos.
Eu também... um dia ainda toparei comigo.
Por acaso acho que não é um "sentimento do excesso de ser".
Mas sim uma maior sensibilidade para ver o ser nas suas váriadíssimas cambiantes (inventei agora, a quente...).
É apenas o que eu penso...
Beijos, minha querida amiga.
es cierto, tenemos en común el sentimiento de exceso de ser...
por eso
un día
me
ví
pasar*
hermoso poema de Andrade,
besos*
A imaginação mesclada às sensações levam os poetas a muitos lugares, levam a serem eles mesmos muitos ao mesmo tempo. A postagem foi excelente! Beijos.
Só para contrariar, vou lembrar João Cabral que dizia o contrário: tinha vazio de ser. Escrevia para preencher esse vazio. Toda regra tem sua exceção. João Cabral era a exceção.
"A estrada do excesso, leva ao palácio da sabedoria" (William Blake)
Maravilhoso post
abraço e agradecido pelas visitas ao Rembrandt
o sentimento do mundo - carregamos todos - que se misturam aos nossos e vira poesia. somos todos exagerados :) beijo, gerana.
maravilha...
Gerana...
O Alexandre...do Biricuticu's já me disse inúmeras vezes...leia Mário de Sá Carneiro...vou ler...
adorei a frase...
“De excesso, morri à míngua”...
e o que dizer de...
Mario de Andrade...
Ele é perfeito...
beijos
Leca
é aquela questão de não se cabar dentro do próprio peito, penso que nessa questão o maior excessor de ser foi Fernado Pessoa
excesso de ser...
exatamente! acho que todo o artista é gente demais...
você escolheu muito bem os versos.
gerana, seu blog acrescenta muito ao mundo do leitor.
um beijo.
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