sexta-feira, 7 de agosto de 2009

UM LUAR NA NOITE DOS SANTOS REIS


Gláucia Lemos


Carregar o estandarte do terno da Sempre-viva era o prestígio máximo. Eu era a prestigiada. Dançar, portando aquele pavilhão dourado, bem à frente do rancho, seguida de todas as meninas adornadas com areia brilhante nas tiaras, e de todos os rapazes vestidos com cetim cor-de-ouro e quepes de paetês, era o meu momento de glória. Não havia cansaço.
O terno saía da Estrada da Rainha às 22 horas em ponto, ao som da banda de Bebeto que nos acompanhava com a estridência do seu piston muito afinado. Subíamos a ladeira da Soledade, e, quando entrávamos no Corredor da Lapinha, já sabíamos que nenhum outro terno da noite dos Santos Reis estaria mais vistoso que o terno da Sempre-viva.
Naquele ano não foi diferente. Mas, naquele ano, Carina tinha cismado que haveria de ser a porta-estandarte. Carina era a filha de seu Heitor, o dono do terno. E era a noiva de Bebeto, um noivado que já tinha perdido a graça, pois o noivo nunca resolvia realizar o casamento. Mas eu era a porta-estandarte desde a organização do terno, e não queria ceder o meu espaço. Carina era miudinha, magrinha, com toda aquela sengracice, ela mal conseguia equilibrar o estandarte na cintura para dançar. Assim, eu continuei sendo a porta-estandarte e Carina continuou desfilando na frente das outras meninas, como sempre.
Aconteceu que desde os ensaios daquele ano, Bebeto e eu vínhamos trocando uns olhares diferentes. Alguma coisa estava se passando entre nós que eu não conseguia controlar, quando Bebeto olhava para mim. O que era aquilo, meu Deus do céu? Eu sempre vira Bebeto andando pela Estrada da Rainha, ou atendendo no balcão da loja de ferragens do pai dele, como se fosse um rapaz qualquer dos que moravam no bairro, mas agora os olhos dele me desconcertavam quando ele fazia um ensaio de sorriso malicioso pelo canto da boca, como se fosse um convite velado. Fomos começando uma cumplicidade sem palavras, mas bastante compreendida por nós dois.
Então chegou o dia 5 de janeiro; era a noite do terno sair, já que a festa da Lapinha acontecia na véspera do dia santo. Minha tiara de areia brilhante ofuscava a vista de quem olhava para mim, e eu ainda espalhara uma porção de brilho pelos cabelos, para ficar ainda mais radiante aos olhos de Bebeto. Porque agora eu já me fazia bonita só para ser apreciada por ele .
O terno saiu da Estrada da Rainha com meia hora de atraso. As meninas estavam animadas e o piston de Bebeto, tocando a marcha- rancho da Sempre-viva causava um frêmito de prazer no corpo inteiro. Sabíamos que o nosso terno era o mais esperado pelo pessoal que freqüentava o largo da Lapinha nos festejos dos Santos Reis. E os aplausos eram sempre muito calorosos, por onde passávamos.
Quando entramos na praça toda embandeirada, por acaso olhei para o céu, e encontrei enorme a lua cheia, bem acima da igreja, brilhando mais do que o Sempre-viva, que as luzes da praça não permitiam que fosse percebida. Como meus olhos sempre encontravam os olhos de Bebeto, mostrei-lhe quanto bela estava a lua. E ele, acompanhando meus olhos para o alto, soltou um pouco o piston para dizer
- Esta lua é nossa. Minha e sua.
Eu me derreti em um sorriso. E ao ritmo do rancho, nos encaminhamos para a frente do presépio armado na fachada da igreja, a dançar em homenagem ao Menino-Deus. Todo o povo ao redor aplaudia alegremente. Cheguei-me mais para perto de Carina e falei
- Vamos fazer uma troca. Eu lhe passo o estandarte.
Ela mostrou um sorriso imenso de contentamento. Tomou o estandarte do Sempre-viva e começou a dançar entusiasmada, como sempre desejara. Supondo tratar-se de uma cena programada, o povo voltou a aplaudir e Carina empolgou-se ainda mais.
Olhei para Bebeto e, depois de me confundir no turbilhão do povo, sai a correr pelo fundo da igreja. Sem demora, Bebeto surgiu, à minha procura, pelo lado oposto ao que eu tomara. Livrei-me das sandálias da fantasia, e, de mãos dadas com ele, nos arriscamos a enfrentar a ladeira São Francisco de Paula, a correr quase deslizando pelas perigosas pedras roliças e escorregadias, para descer até a Cidade Baixa.
Lá embaixo, tudo era só ermo noturno e silêncio. Um solene silêncio de cumplicidade, um silêncio que acolhe e causa medo. As lâmpadas dos postes, de claridade precária, anulavam-se ao brilho do luar, que se estendia na praia como um lençol suave e sugestivo. Aquela lua era nossa. Minha e de Bebeto. Em um abraço, rolamos pela praia, apaixonados.
Lá em cima, Carina estava feliz, realizada, por ostentar o pavilhão dourado do terno Sempre-viva, como sempre desejara, e, com tamanha empolgação, aposto que estaria graciosa.
Uma tiara de areia brilhante e um quepe de paetês confundiram-se, envolvidos pelas primeiras ondas que vieram mansas, na madrugada do dia santo dos Reis, enquanto Bebeto e eu despertávamos para um novo dia. A troca estava feita.

Foto: "Coroando o luar", de Carlos Monte Jr.., retirada do Flickr.

5 comentários:

pereira disse...

Tudo está bem quando acaba bem. Raio de esperança este conto.

maria guimarães sampaio disse...

Beleza, Gerana. Adorê.

glaucia lemos disse...

É bom quando o leitor encontra algo que lhe fale positivamente. Obrigada, Pereira, obrigada, Maria.

anna disse...

Fazia tempo que Gláucia não escrevia crônica. Vez em quando, um conto. Vez em quando, um poema.No conto de agora, encontrei a narradora de um outro conto aqui apresentado, foi aquele que ela herda um lugar no interior e o capataz mata quem queria roubá-la.

glaucia lemos disse...

Oi Anna: Obrigada pela atenção que dispensa a esta autora. Estou mesmo um pouco ausente e saudosa do blog, porque meu novo romance está me aborvendo mais demoradamente. Para matar saudade, às vezes pego um texto guardado e envio para me fazer lembrar.Sabe, o romance exige mais tempo e reflexão. Um beijo.