
Carlos Vilarinho
Naquele dia eu estava aborrecido. A mulher tinha cobrado mais atenção de minha parte, como se eu tivesse que procurá-la para amar novamente. Ora, foram trinta e cinco anos juntos, tivemos duas filhas já criadas e casadas. Cada uma com seu macho, eles que cuidassem delas de agora em diante. A mulher rezava ao deitar, rezava para pegar no sono, rezava para acordar, rezava para levantar... Diabo de tanta reza! Já não agüentava mais, então lhe perguntei o que ela fazia de fato na igreja se gastava toda a reza dentro de casa. Ela pensou que eu estivesse ciumando, ora, veja! Sorriu e dissimulou sensualidade pífia.
- “Ridícula!”
Aquilo me aporrinhou tanto que saí de casa tremendo de desgosto e nauseabundo. Além de ter tomado duas cápsulas de Rivotril. Louco de dispepsia, ouvi o grito da mulher ao sair.
“Estás sob a influência de Satanás, velho.”
E mais, em tom bíblico:
“Antes da ruína, vem o orgulho... Antes da queda vem a presunção”.
Assim cheguei à rua principal de Brotas, ofegante e enojado pelo aborrecimento causado por Regina Astrid que um dia foi uma bela mulher e levou-me para o altar. A moça com olhar de cio passou por mim e não pôs as vistas em mim como de costume...
Carlos Vilarinho é autor do volume de contos As Sete Faces de Severina Caolha & Outras Histórias, do Selo Editorial Letras da Bahia (SCT, FUNCEB, 2005).
Foto: "Satanás", por Erredé, reirada do Flickr.
4 comentários:
Parabéns, meu amigo Vilarinho. Acho muito bom vê-lo de volta aos contos. È que você andou meio sumido.
Grande abraço.
O trecho é uma boa amostra para o que vem a ser o trabalho completo. Suponho que uma novela ou talvez um romance. Aí está um bom começo. Limpo, bem dosado. Abraço.
Ok, obrigado Gerana, Flamarion, Gláucia e a todos!
Pouco texto e muita coisa nas entrelinhas. Uma história para o leitor completar.
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