quarta-feira, 17 de junho de 2009

PELA LINHA DO TREM

Gláucia Lemos



Não conhecia ninguém naquela cidade, se é que podia chamar de cidade, um lugarejo no qual cada fazenda distava da mais próxima às vezes um ou dois quilômetros. Onde a parada do trem era só uma plataforma de paredes sujas e um escritório instalado em um cubículo, e era dirigido por um velhinho magérrimo, que olhava quem chegava por trás de lentes pequeninas e embaçadas, mal escutava o que se falava com ele, e sempre esquecia os horários do trem.
Um recado do meu primo Jaime deu-me conta de que nosso avô Heron estava à morte e era preciso que fosse vê-lo.
Fomos criados pelo nosso avô, Jaime e eu, por circunstâncias que nunca nos ficaram claras, e, assim crescemos na fazenda como irmãos, nos apoiando e amando o velho Heron como se fosse o nosso verdadeiro pai, e sempre aos cuidados do fiel Francisco e de Dazinha, sua mulher gordíssima e calada.
Cada qual por sua vez deixou a fazenda e procurou em cidades grandes estudar mais que o bê-a-bá da escolinha que frequentávamos a umas boas léguas da fazenda, aonde meu avô nos mandava na boleia do caminhão que transportava as canas da lavoura do velho Heron. Assim, saímos para garantir o futuro, primeiro Jaime, depois eu, quando tivemos idade suficiente para decidir. Agora eu ensinava em uma escola na capital, e não sabia de Jaime que rumo teria tomado. Mas alguém, que eu não soube quem, deixara na secretaria da escola um bilhete de Jaime. Sem endereço para resposta, datado de três semanas anteriores, o bilhete era vago e só não deixava dúvidas da sua procedência, por ter sido assinado com o apelido pelo qual eu o tratava desde a infância, e somente eu assim o chamava: Um beijo do seu irmão Jami.
Tomei licença na escola e agora ali estava, naquele fim de mundo de onde partira vinte anos antes, para onde nunca mais retornara.
Era quase um deserto a porteira, distante da parada do trem pouco menos que um quilômetro, de pó e de sol a pino. Era a entrada para um mundo que se me tornara estranho. Parei em frente a ela e meu primeiro impulso foi retornar, tal o silêncio e a solidão que encontrei. Vi que aquilo era o cenário mais fiel para representação da morte. Até os pássaros que pipilavam pelo arvoredo davam a impressão que o faziam a medo, quase imperceptíveis. Pensei em retornar dali mesmo, mas me lembrei de que era preciso ver meu avô. De repente me dei conta de que gostava dele e que tinha sido muito ingrata por nunca ter voltado a procurá-lo, e me bastar com as vagas notícias pelo telefone do posto.
Parada na porteira, com os sapatos e as vestes carregados de uma poeira amarelada e fina, notei quando um homem, saindo de trás da casa, veio a meu encontro. Chegado mais perto, reconheci Francisco, o fiel caseiro em quem meu avô depositava toda a sua confiança, agora de têmporas brancas e rugas no rosto. Olhou para mim, ensaiou um ligeiro sorriso que só se apagou para dizer: - Menina, por que não veio antes?
Não retive o desejo de abraçá-lo, ele era a minha infância naquelas terras. Ele também me abraçou como se eu tivesse ainda oito anos, com a ternura da proteção antiga.
- E ele? – perguntei.
-Não pôde esperar. Por que não veio antes? Falou no seu nome e no de Jaime enquanto guentou falá. Dazinha é testemunha. Pediu pra eu tomá conta da menina.
- Só soube ontem.
- Chegou tarde. Já faz quatro dias. Vocês nunca se importaro com ele.
Fomos andando na direção da casa. Dazinha já se adiantara abrindo portas e janelas para ventilar. Agora estava na cozinha preparando o almoço.
Entrei para a casa onde deixara toda a minha infância e parte de minha juventude. Agora teria que decidir o que faria de tudo o que de repente passara a pertencer só a mim e a meu primo Jaime, que nos tínhamos como irmãos. E estava só, sentindo-me culpada.
- Jaime apareceu?
- Jaime veio quando o patrão tava mal. Mandei recado pelo maquinista meu conhecido que sempre encontra com ele. Mas teve que voltá, falou que era por causo do trabalho, disse que ia lhe avisar.
- Avisou. Mas agora estou sozinha, Francisco. Jaime não vai voltar a morar neste lugar.
- Não tá sozinha não, menina, tá comigo. Eu ainda posso protegê a menina. Eu mais Dazinha.
- Não sou mais menina, Francisco, tenho trinta e sete anos, mas não sei o que vou fazer com esta casa enorme, com a cana, com empregados, com tanta terra, não sei lidar com isso. E não mereço ganhar tudo isso de graça.
- Eu não vou deixá você se atrapalhar. Você pra mim ainda é a menina do patrão, ganhou porque era do patrão. E não vou deixar ninguém lhe fazê mal.
Achei estranhas as palavras de Francisco.
- Por que alguém me faria mal?
- A ambição, menina. O patrão deixou muita terra que agora é sua. E nesta terra seca, a terra do patrão tem uma riqueza que as outra não tem. Daqui até dezoito légua pela linha do trem, isso aqui é o melhor que existe. Esta terra tem uma nascente que nunca secou. Quando as nascente das outra fazenda fica seca, a daqui tá sangrando.
- É verdade. O rio. Eu me lembro que você nos levava para brincar no rio.
- Apois é isso. Enche os olho dos vizinho, das outra fazenda.
- De quem? Você sabe de quem?
- Tem um caseiro aqui, um tal de Tinho, que já andou falando que terra que o dono é mulher é muito fácil de homem tomar.
- Quem é Tinho?
- É o caseiro da fazenda Barro Grosso, duas léguas pra dentro, pela linha do trem. A cerca dela é agarradinha na cerca daqui. É muita terra de um lado e do outro.

À noite o escuro da fazenda era o mais escuro do mundo. Vi Dazinha arrumando a cozinha sozinha, sem Francisco. De manhã o procurei .
- Onde você andou, Francisco, desde ontem que não o vejo.
- Fui fazê um trabalho um pouco longe. Mas já vortei. Tou aqui todo inteiro, com a graça de Deus.
Naquele momento passava pela estrada um cortejo, com pouco mais de uma dezena de acompanhantes. Lentamente, conduziam um caixão enorme.. Alguns levavam pequenos ramos de margaridas e dálias. Outros levavam lenços ao rosto de vez em quando, enxugando o suor e um choro silencioso. O silêncio e a poeira amarela subindo e fazendo uma nuvem leve e incomodativa, quase encobrindo todos os que passavam..
- Para onde é que está indo aquele enterro, Francisco?
- Deve de ir pro cemitério da vila. Quatro légua pra fora, pela linha do trem.
- Você sabe quem morreu?
- Apois não é o dono da fazenda Barro Grosso, menina? Foi onte de noitinha.
- Francisco... De que morte ele morreu?
- Não sei direito não. Mas agora que já morreu, ele não vai mais achá que é fácil tomar terra que o dono é mulher. Eu acho que não, não é, menina?



Gláucia Lemos é ficcionista, cronista e poeta. Tem 33 títulos publicados. Em breve terá mais um título, nascido neste blog.
Foto: Linha do Trem, por felipelima, retirada do Flickr.

9 comentários:

Anabela Lopes disse...

Eu adorei o texto! Cheguei ao fim e pensei: "Já acabou? Quero mais!"
Gláucia tem algum blog? Ela comentou o meu e gostaria de retribuir.

glaucia lemos disse...

Não, Anabela, não tenho blog, porque não tenho tempo disponível, e os blogs ocupam.O tempo de que disponho, preciso dedicar ao trabalho no livro do momento, que é a minha atividade.Obrigada pelas suas palavras e, querendo retribuir minha visita, venha ao leitora crítica, no qual a colega Gerana Damulakis me disponibiliza um espaço generoso.Um beijo, amiga.

pereira disse...

Este conto é daqueles, Gláucia: magistral. Final absolutamente maravilhoso!

gláucia lemos disse...

Pereira, obrigada pelo magistral. Magistral é ótimo. Lido e relido acho que ele é início de um romance, não vou perder a minha própria dica! (sou meio louca, não sou?)

anna disse...

Embora não costume gostar da linguagem ao modo de Guimarães Rosa, o conto é ótimo.

Pedro disse...

Que final que tem esse conto, tomei um susto, cabra retado. Pois eu adoro a linguagem que, contas feitas, não pertence a guimarães Rosa, mas à nossa literatura.

glaucia lemos disse...

Anna e Pedro: Beijos aos dois pela presença e palavras. A questão da linguagem, não pretende a linha do mestre Rosa, não sou adepta de seguir esse ou aquele (com todo respeito) mas uso a linguagem que seja própria ao personagem.Um roceiro,um pescador, não falam corretamente, se coloco em suas falas português correto, o personagem fica falso. Também eu (autora) não falo palavrão, mas se há uma briga entre dois garis, alguém vai xingar a mãe do outro com todas as letras, sem nenhum pudor da autora.Pense nisso,Anna.

Flamarion Silva disse...

OI, Gláucia. Seu texto flui leve. Concordo que a personagem seja fiel à sua linguagem, só não concordo com esse "português correto". Acho que o caipira fala o português correto. O que há são variações. O português "correto" da gramática tradicional também é uma variação, é uma questão de ponto de vista. Mas, engraçado como a gramática tradicional tem peso quando se trata de texto escrito. Muitas vezes me pego cortando marcadores conversacionais no texto escrito, tão somente por pensar que eles pertencem mais ao texto falado.
Seu texto é perfeito, original: como todo texto, atravessado por outros textos.
Beijos.

glaucia lemos disse...

Oi Flamarion, gostei das colocações. Obrigada.