sexta-feira, 19 de junho de 2009

BAIANO, ASSOCIAÇÃO, YACHT


Ildásio Tavares

Quando eu era menino, só existiam três clubes no mundo, Baiano, Associação e Yacht. Cada clube com sua turma, cada turma com seu jeito, as classes médias e altas da Bahia distribuíam-se nestas entidades como a forma mais sofisticada de lazer; a forma mais qualificada de divertimento, desde as tradicionais festas, carnaval, S. João, réveillon; aos esportes praticados com empenho e eficiência – o tênis, o basquete e o vôlei, na Associação e no Bahiano; a natação e o iatismo no Yacht.
Qualquer pessoa que se prezasse tinha que ser sócio dos três. Principalmente porque o ameno carnaval da Bahia se perfazia com os três. O carnaval começava com o corso da Associação no sábado, uma interminável carreata de carros sem capota e de jeeps, polvilhadas de belíssimas donzelas esparramadas por cima dos carros e dos paralamas devidamente lambuzados de cola e entupidos de confete, no ar uma revoada constante de serpentinas e o cheiro provocante dos lança-perfumes. Ah, o carnaval acabou com o fim do confete, pedacinho colorido de saudade, com o desaparecimento da serpentina; com a proibição do lança-perfume. Começava aí outra coisa.
Apesar de baixo, eu tinha mão certa no basquete e estava quase para ser sócio-atleta do Bahiano quando houve um endurecimento nos estatutos. Tinha sócio-atleta demais. Entrei para sócio mesmo aos 18 anos, frequentador mais das festas, bingos, e continuando no basquete com Patinho, (Roberto Lisboa), Marcelo Lisboa que tinha torcida própria – as meninas torciam por ele não pelo time, Deoclides Barreto de Araujo, Bob, Carlito Kruschewsky, Sheldon e seu irmão Leslie e mais as feras do 2° quadro: Fernando Lyra, Aron Kremer, Mimito.
O Bahiano de Tênis era um mundo: o aristocrático. No S. João,as donzelas ocultas por milhares de anáguas rodopiavam no salão circular nos braços ardentes de seus pretendentes, que ali mesmo começavam um périplo de paquera, namoro, noivado, casamento. Para o bem de todos e felicidade geral da nação. Mais tarde entrei para a Associação, atraído pela imensa piscina em cuja inauguração meu amigo Chiquinho Amaral mergulhou do terceiro trampolim e João Gilberto fez o show pelas mãos de seu amigo Coqueijo.
De todos, o mais encantador, o Yacht. Verdadeiro cartão postal engastado na montanha. Típico paraíso do bem viver baiano que pode desfrutar, desde a sinuca, ao iatismo, ao simples velejar, largar o pano e sair em busca do espelho azul da Baía de Todos os Santos ...O Yacht constitui-se numa zona de paz e de relaxamento encravada no coração da vida urbana, por sua localização privilegiada e perfeita integração no ambiente. Assentado com elegância e perfeição arquitetônica sobre o mar, o Yacht é na verdade um imenso veleiro que ancorou na baía e que lá ficou para júbilo de seus marinheiros. Detalhe a parte: o seu bondinho que nos traz do alto da montanha, integrando-se ao passado...
Que estamos fazendo de nossa tradição, minha gente? Acabaram com o Bahiano. A Associaçao resiste. Por Senhor do Bonfim, não toquem no Yacht, que é um patrimônio do mundo.

6 comentários:

Janaina Amado disse...

Gerana, delicioso o texto do Ildásio, de quem sou fã.

anna disse...

Professor: gosto muito de encontrar seus textos aqui, sempre pertinentes.

Pedro disse...

O Yacht é o que nos resta em se tratando de clubes, é tradição. A voz do poeta já disse tudo.

maria guimarães sampaio disse...

Meu abraço para Ildázio. Lindo texto. Além do mais, nesta terra do esquecimento, é comovente ver Ildázio lembrar de Sheldon e do saudoso Leslie (1-1-59 minha primeira grande perda, eu tinha 11 anos, ele acabara de fazer 18 quando Elmo Gantois o assassinou covardemente).

glaucia lemos disse...

Pois é, Ildásio, a Salvador das boas tradições está ficando para trás. Doi muito ir percebendo o perecimento das coisas com as quais o soteropolitano estava acostumado a conviver, e tudo o que é feito em lugar delas, nos parece tão artificial, tão frágil de significado.É como perdermos as boas prendas que enfeitavam a nossa vida social.

Gustavo Felicíssimo disse...

editei durante alguns anos as revistas do Yacht e do baiano, tempo em que pude perceber como esse passado está presente na vida desses tradicionais clubes.