
Antônio José Queiroz (o chamo Tonzé, carinhosamente), grande poeta, grande pessoa, encantado com meus modestos sonetos, sugere que eu faça com eles um livro e os edite pela Labirinto de Fafe, uma das mais tradicionais editoras de poesia de Portugal. Aceito sem mais delongas. Pessoa diz: o homem sonha, Deus quer, a obra nasce. Assim nasceram As Flores do Caos, 68 sonetos peneirados de mais de 800 que já escrevi, desde a adolescência, e postos na rua pelo editor da Labirinto, o encantador João Arthur Pinto que, com sua mulher, Cristina, puxaram o tapete para este velho poeta no Porto.
No Porto, uma confusão de muitas esteiras que os portugueses botam fora de ordem, justamente para atrapalhar baiano. Corri pra lá e pra cá até achar a esteira n° 6 que, com uma lentidão baiana, me devolveu minha pequena mala. O cara da alfândega, braços cruzados, sorridente, me fez sinal, “venha”. Nada de sinal verde ou vermelho, bens a declarar, nada a declarar. Eles implicam com brasileiro mesmo.
Quando abriu minha mala cheia de livro, o fiscal nada disse. Só fez futucar lá embaixo de minha mala com aquelas mãos nodosas que nunca viram um livro. Me liberou.
Lá fora, a presença sempre augusta de Francisco Topa, uma das maiores autoridades em Gregório de Mattos, no mundo, senão o maior, com sua alentada de mais de duas mil páginas. Topa é meu filho acadêmico em Portugal e me orgulho muito de sua seriedade, argúcia e tirocínio. Ele e Teresa formam um belo casal e até adotaram um casal de miúdos, Pedro e Jéssica, esta xará de minha filha mais velha. Topa me leva, sorridente, ao meu hotel predileto no Porto, o Grande Hotel Paris, fundado em 1880 e que era a coqueluche na Belle Époque, com seus vitrais, com seu teto de gesso finamente trabalhado, com a classe e a categoria de seus recepcionistas.
E começam os lançamentos. O primeiro na Universidade do Porto, promovido pelo Chico Topa, em que fiz uma conferência sobre a presença de Angola na Bahia. O segundo na Biblioteca Municipal de Fafe, onde uma platéia seleta foi surpreendida pela minha atitude incomum em lançamento. Ao invés de dissertar sobre minha obra, o que eu não faria com prazer, mandei distribuir o livro entre os presentes e lhes pedi que escolhessem um soneto de seu gosto e que lessem para nós. Foi um sucesso. Tonzé começou sugerindo a leitura dos IX Sonetos da Inconfidência, que ele acha meu melhor trabalho. Depois vieram as escolhas do público. E ficamos até tarde lendo poesia.
Refleti que o melhor que um poeta pode dizer está nos seus versos. Ao dar ao público a chance de ler os poemas, o poeta está ouvindo o seu pensamento, a sua música, com a inflexão do outro com a expressão do outro, uma outra leitura, diferente da sua. É uma experiência muito rica, para a platéia como para o autor que, inclusive, quebra a atitude de estrelismo que poderia assumir, e se irmana, democraticamente com o público.
Em Lisboa repeti a experiência com igual sucesso.
Foto: Porto - Portugal, por Francisco - PortoNorte, retirada do Flickr.
6 comentários:
Mestre Ildásio: imagino quão delicioso deve ter sido esse encontro com nossos irmãos além mar.
Este livro terá lançamente aqui, professor?
É isso aí, Ildásio, enviei-lhe por email um comentário sobre esses eventos, cuja notícia já tinha recebido. Parabéns de novo. Abraço.
Também compartilho da opinião de que IX SONETOS DA INCONFIDÊNCIA formam o melhor da poesia do mestre IT.
São tantos os sonetos do mestre Ildásio, tantos que não sei apontar o melhor ou os melhores.
Eu sou aficcionada confessa: os portugueses estenderam o tapete vermelho, pois eu os acompanho e tiro o chapéu para a poesia de Ildásio Tavares.
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