quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

MARIA DE CADA PORTO




Gláucia Lemos


Foi sob a impressão do filme A ostra e o vento de Walter Lima Filho, que fui à procura do romance homônimo que lhe dera origem, e encontrei seu autor, Moacir C. Lopes, nas prateleiras de uma estante virtual. À minha disposição lá estava o elenco de romances escritos por ele. Ao que parece, a maioria com temática praieira, reveladora de uma preferência bastante sintonizada com a minha.
O autor começou marinheiro, evoluindo no sentido cultural, chegou a tradutor e professor de Literatura.
Sou dos leitores que, conquistados por um autor, não se satisfazem com pouco, vão à cata de sua produção, até o limite que lhe seja imposto. Assim fui atraída por Maria de cada porto, romance com o qual Moacir Lopes inaugurou sua trajetória literária. Ele o escreveu para matar o tédio, durante as viagens de marinheiro, nas horas de descanso, e narrou justamente a vida dos homens do mar, no período da Segunda Guerra Mundial.
O livro tem início com a explosão do navio Bahia, no qual o protagonista, Delmiro, estava servindo. A narrativa, em primeira pessoa, evolui marcada pelos dias em que permaneceu, com vários companheiros, em uma das balsas que ficaram à deriva, todas ocupadas pelos sobreviventes do barco atingido, quase amontoados a ponto de ficarem com pernas e flancos submersos, dado o pequeno número de balsas com que contavam.
O desenvolvimento é bem balanceado. Temos o sofrimento dos náufragos, ao sol e ao sereno, sedentos e famintos, desesperançados de qualquer socorro, sem mínima condição de comunicação com a base ou com outros navios, assistindo a morte de companheiros vencidos por todas as carências, ao enlouquecimento de alguns, e ao suicídio de outros, farejados todos pelos tubarões ao redor das balsas, ou feridos por inevitáveis contatos com as águas-vivas trazidas pelas correntes marítimas. Dia após dia de desespero e noites de atormentadas vigílias. No interregno da narrativa dessas horas, conhecemos as recordações de passagens referentes à vida normal da marujada, fazendo o contraponto pitoresco. Os amores de ocasião ou de sentimento deixados nos portos, as festas e divertimentos improvisados, as brigas, as perseguições e a camaradagem, tudo é exposto com a verdade das diferentes personalidades dos protagonistas. Moacir Lopes é um excelente narrador dos fatos – reais ou fictícios, tornando leve a evolução da história, inteiramente despreocupado de retórica. Interessa-lhe o cunho de verdade dado às ocorrências, a definição do perfil de cada personagem, quase todos identificados por alcunhas bastante criativas, dando-nos, muitas vezes, a impressão de estarmos diante de pessoas vivas agindo e interagindo conforme os fatos.
A Maria de cada porto vem a ser todas as Marias, Dolores, Ninas e Detinhas que os amavam realmente ou só por um dia; que os esperavam em cada porto, ou simplesmente se deitavam com os marujos para lhes proporcionar o carinho ausente durante a longa solidão das travessias. Temos nesse livro um documento, ou um relato vivo, ainda que configurado em estrutura de romance, talvez atos e fatos nascidos da imaginação com raízes na experiência cotidiana de quem experimentou de perto e na pele, as agruras da vida no mar durante uma guerra. Isso com a consciência da absoluta insegurança, e a certeza de que cada olhar ao horizonte, cada passo na rampa de acesso ao barco, cada retorno aos postos após a breve licença em cada porto, cada noite ilusória nos braços de qualquer Maria, poderiam ser os últimos de cada um.

Gláucia Lemos lançou recentemente o seu 33º título, o romance Bichos de Conchas (Scortecci, 2008).

3 comentários:

Gerana Damulakis disse...

Excelente abordagem, parabéns para minha escritora de mão cheia!

Renata Belmonte disse...

Maravilhosa resenha! Parabéns, Gláucia!
Bjs

anna disse...

Bom, muito bom, já li.