quarta-feira, 17 de setembro de 2008

UM CAPPUCCINO


Luiz Britto


Rose me chama pra sair com ela: quer fazer umas compras e quer minha companhia. Vai comprar uns tecidos pra fazer umas roupas quentes, pois irá no fim do mês para os Estados Unidos, visitar os parentes, e vai enfrentar o frio do outono, no Illinois. Pego um livro --- As Palavras, de Sartre --- e vou com ela. Vamos de táxi, como sempre andamos nessa cidade maluca, sem lugar pra estacionar, esse trânsito doido e cansativo. É bom ter um chofer e um guarda-costas, nem que seja por uns instantes. O friozinho do ar-condicionado, as janelas fechadas, nós dentro daquele aquário, no bolo do trânsito, fazendo fila nas sinaleiras.
Vamos para a Pituba, uma área que tem 2 ou 3 shoppings. Andamos de um lugar para outro, procurando uma loja. Transeuntes apressados tomam uma alameda coberta com um toldo branco, que liga 2 shoppings médios. Uma gente que nunca vi, e que nunca mais verei. Uma sensação que estou em outra cidade, pois raramente ando por aqui. Numa encosta, verde com o capim, perenes emílias azuis ao lado de uma escadaria. Uma tarde de sol, três horas.
Acabamos descobrindo onde fica a tal loja, mas antes paramos num café, para tomar um cappuccino. Um lugar pequeno, 2 mesas; acomodamo-nos. Conversamos qualquer coisa, comento como aquele shopping era barulhento --- o teto baixo, os corredores estreitos. Olho-a; de alguma forma é como se fossemos muito mais jovens, e namorássemos outra vez. Um momento de intimidade e paz --- ultimamente sempre vamos a um shopping tomar um cappuccino. O café quente, o chocolate, o creme. Isso nos aproxima, e é tão barato, tão fácil. Gosto de olhá-la nesses pequenos e sensíveis momentos: amo-a enquanto a contemplo, e sempre me sinto feliz nesses momentos, é como se o tempo fosse sempre o mesmo, estivéssemos no arco da eternidade, nossa pequena eternidade.
Levantamos, enfim, vamos à loja de tecidos, pequena também. Enquanto ela escolhe os tecidos, sento-me numa cadeira e vou ler meu livro. Um livro que jamais leria, se não o tivesse comprado --- um texto confuso, uma superabundância de pensamentos e conceitos, e a vida é bem mais simples. Um livro antigo, comprado em sebo, com mais de 20 anos, as páginas amareladas, com anotações alheias, e eu gosto dele assim. Livros envelhecidos têm outro sabor, uma vida que já é deles: a marca do tempo.
Enquanto Rose escolhe seu pano, vejo-me menino, acompanhando minha mãe em outras lojas de tecidos --- a Casa Africana, a Duas Américas, que ficavam na então elegante Rua Chile.
Minha mãe uma vez me comprou uns carrinhos de ferro ingleses, e eu ia com ela na esperança de ganhar novos carrinhos. Uma esperança jamais satisfeita: ela sempre dizia que não tinha dinheiro, que eu já tinha carrinho de mais, e eu ficava muito aborrecido. As frustrações daqueles dias me voltam, e uma lembrança vaga de outra Salvador, muito mais tranqüila, de 50 e tantos anos atrás, que já vai tão longe.
Uma Salvador menor, que cabia num dedal, que não tinha cappuccino. E nem Rose.

Luiz Britto é ficcionista, tem dezenas de títulos publicados. Foto de Renata Diem, retirada do Flickr.

2 comentários:

pereira disse...

Grande crônica, repleta de sentimentos, seja a saudade dos tempos idos na Salvador de outrora, seja o amor conjugal. Prabéns!

gláucia lemos disse...

"Amo-a enquanto a contemplo, sempre fico feliz nestes momentos". Uma simples e espontânea declaração de amor. Linda! Não precisa muito para se dizer que ama, quando o sentimento flui verdadeiro.
Penso: quantas pessoas neste mundo ainda amam assim? Não acredito que haja mais que duas ou três.
Se tantas.