domingo, 24 de agosto de 2008

PROSA POÉTICA DA CIDADE-MULHER


Carlos Vilarinho


Meus olhos passeiam errantes pela cidade. Palhaços contundentes, cheios de erotismo e palavras berrantes na ânsia do pão misturam-se às imagens dobradas da avenida. Dobraduras de Drummond. Essas ruas agitadas de passantes nuas, sem poetas. Entediadas e enternecidas, longínquas de pensamento. Nas ruas, Deus e o tempo estão presentes. Marcam em absoluto a resolução do homem em tornar- se solitário. Correndo para garantir um lugar ao futuro. Que futuro? A tumba.
Quando ela passou de salto alto e olhar de cama, o frenesi me assaltou. Segui com os olhos. Aquele amor estava nas notas reais de meu bolso. Pensei no texto. Prostituta e literatura, dois amores. Parentes, irmãs, uma dentro da outra. Uma possuía a outra. Afonia geral. Ela, somente ela, descia a ladeira do São Bento e levava consigo o sentimento do mundo. O poeta do condor observava. De repente o temporal desabou e tudo ao redor da praça ficou cinza. O mar ficou cinza e a imagem do forte estava salpicada em minhas lentes. Ela escondia-se sob as árvores do canteiro da igreja. As vozes ressurgiam apressadas. Eu, absorto, olhava a extensão da avenida chuvosa e os transeuntes pobres. Sonhava acordado e embaixo de chuva com o olhar de cama. Excitação que deveria ser efêmera, amor impossível. Benfeitora dos homens solitários.
Não há mais o tempo do carrinho de primavera que passava anunciando sorvete de mangaba, chocolate ou dust miller. Do bom pastel chinês depois da sessão no cinema Guarani. A praça não balança mais com o som de Dôdo e Osmar. A cidade cresceu para os flancos, abriu-se, adentrou-se na mata atlântica e paralela.
Os homens por sua vez, não cresceram em flancos. Tomavam rapidez em si mesmos. Os homens não lêem poesias. Por sua vez, a cidade é mulher, sempre fora mulher. A literatura é mulher. A mulher é um poema belo e inacabado. A cidade é vaidosa e a mulher cresceu mais que os homens. Algumas majestosas. Outras tão majestosas e pedintes de amor que levam um travesseiro na alma. Ela desceu a ladeira de São Bento, seguiu em frente e entrou numa casa de luzes. Bebi e fumei à cidade. Não vi amigos, só trovadores em eco e dança sensual. Os paralelepípedos davam topadas em pés trôpegos num terreiro católico. Chicotes que voam em capoeiras. Então com o limo das pedras e o odor dos becos mijados, já turva a visão em cravo de álcool, vi novamente o salto alto. Ela me olhava em compaixão. Eu lembrei do desejo, mas cambaleante, caí. Agachada e sem nada por baixo, vi o recorte talhado da cidade. Os homens apararam a mata, a mulher é vaidosa e a cidade cresceu mais que os homens.

Carlos Vilarinho é autor de As Sete Faces de Severina Caolha & Outras Histórias (FUNCEB, 2005). Foto de Salvador, Bahia, por LetoCarvalho, retirada do Flickr.

3 comentários:

gláucia lemos disse...

Muito bom, Vilarinho. Muito oportuna a imagem do "travesseiro na alma", um achado. Parabéns.

Gerana Damulakis disse...

Bom texto, Vilarinho!

Tatiane de Oliveira Gonçalves disse...

Achei muito interessante, Carlos!