quinta-feira, 24 de julho de 2008

N. KAZANTZAKIS por G. DAMULAKIS







HERÓIS NIILISTAS
(sobre a filosofia de Nikos Kazantzakis: "Não creio em nada. Não espero nada. Sou livre")



Em Ascese está o panteão de heróis de Nikos Kazantzakis. Parece uma afirmação radical e apressada mas não é. O livro editado pela Ática, Ascese, com introdução e tradução direta do grego por José Paulo Paes, traz o subtítulo de Os Salvadores de Deus. O que se pode concluir da leitura é que, desde logo, o grande escritor grego formou sua visão de mundo ao ponto de exibir, tanto na vida quanto na obra, a filosofia que aceita a vida apesar de sabê-la breve luz entre os dois abismos de trevas e, ainda assim, prega a luta para transformar a matéria através da criação num ato heróico, visando a ação como única forma de suportar a vida. Falando de heróis, fixação de Nikos, que os perseguia mundo afora, podemos enumerá-los e encontrá-los em sua vasta produção sempre fiéis à doutrina plasmada em Ascese.
Kazantzakis viveu grande parte dos seus 74 anos pelo mundo e, nos vários países em que esteve, conheceu de perto os lugares onde haviam vivido santos, místicos, escritores. No Egito, foi até o mosteiro grego-ortodoxo do Monte Sinai. Na Espanha, esteve em Toledo de S. João da Cruz e em Ávila de Santa Teresa, enquanto na Itália foi à Assis de S. Francisco, de quem escreveu uma biografia, O pobre de Deus. Seu livro de viagem, Do Monte Sinai à Ilha de Vênus, apresenta, então, ressonância de suas idéias elaboradas talvez desde os retiros espirituais em mosteiros do Monte Atos e da ilha de Siphnos. Hoje, quem quiser fazer o mesmo que Kazantzakis, ao visitar a casa onde Nietzsche nasceu em Naumburg, pode ir ao Museu Histórico de Creta,onde uma réplica do gabinete do escritor guarda sua mesa de trabalho, sua biblioteca pessoal, além de objetos e fotografias, edições originais de seus livros e as traduções para várias línguas. Em Herakleíon, Creta, orgulhosa de seu filho, guarda o túmulo do escritor com o seguinte auto-epitáfio, mais uma vez à sua filosofia: “Não creio em nada. Não espero nada. Sou livre.”
Uma curiosidade: o sufixo dos sobrenomes gregos pode ter referência ao local de origem; no caso, o sufixo -akis remete às famílias de Creta.
É no livro que estou focando agora, Ascese, que encontro o espírito dos personagens de Kazantzakis: a consciência de que se está prestes a morrer a cada instante que se verifica em Zorba, de Zorba, o grego; o niilismo heróico do Padre Yanaros de Os Irmãos Inimigos e do Padre Fótis de Cristo Recrucificado. O que se acha plasmado sempre é a certeza de que a vida é uma sombra vazia, que somos nós que devemos agir para preenchê-la com virtude e com o coração livre de deuses e esperanças, pois não há antes nem depois. Assim é que no nosso dicionário Aurélio, ascese quer dizer “exercício prático que leva à efetiva realização da virtude, à plenitude da vida moral”. A palavra áskesis, do grego antigo, designa qualquer exercício ou treinamento com a finalidade determinada de adquirir pleno domínio ou, melhor dizendo, maestria. A tradição judaico-cristã acrescenta um fator de raiz grega, passando do sentido de elevação do espírito, via conscientização da inutilidade das ilusões, para um sentido mais derrotista, carregando na nota da modernidade quanto à renúncia. A ascese de Nikos é vista com base em sua origem grega, ainda que o budismo e o cristianismo tenham deitado suas gotas, mas não há uma pregação de doutrina nem o despertar de algum deus redentor; pelo contrário, há a morte de Deus, o que está de acordo com Nietzsche e o Zaratustra, donde o rótulo de niilista.
Através do estudo introdutório de José Paulo Paes para acompanhar sua tradução direta do grego do livro de Kazantzakis, ficamos sabendo mais sobre a obra. Para José Paulo, o cerne de Ascese está no epitáfio do escritor, supracitado neste texto, que inclui dois “nada”, traduzindo o espírito niilista do credo. E lembra as três negativas de Górgias, sofista grego (c.480 — c.375): nada existe ; mesmo que existisse, não poderia ser conhecido; mesmo que pudesse ser conhecido, não poderia ser comunicado. Além disso, o budismo indiano - admiração de Nikos pela escola Satyasiddhi - é uma negação também ao rezar que “nem o eu nem os dharmas (os elementos da vida) são reais”. Portanto, o objetivo em Ascese é incitar o leitor a dizer que não existe nada, que matéria e mente são dois fantasmas inexistentes, o que, ao fim e ao cabo, é a negatividade mesma e absoluta do budismo Satyasiddhi e o niilismo de Górgias. Enfim, a idéia-chave evidencia um Deus imanente no homem, não exterior nem transcendente a ele; daí não haver um Deus que nos irá salvar, ou seja, nós salvaremos Deus lutando, criando e transfigurando a matéria em espírito.
Kazantzakis publicou Ascese primeiramente em dois números sucessivos da revista Renascença, de Atenas, em 1927, e, depois, em 1945, em livro com o texto anterior revisto e ampliado em mais um capítulo. Os parágrafos são breves, havendo quem os chame de versículos bíblicos, no que, segundo José Paulo Paes, se verifica “pelo ritmo largo mas bem marcado de sua dicção, pela repetitividade de palavras e expressões, pela freqüência de metáforas e figuras para dar corpo a idéias abstratas”. O tradutor mostra ainda que o “andamento versicular, sua passionalidade de tom e as inflexões admonitórias” aproximam a prosa de Ascese da prosa poética do Assim falava Zaratustra de Nietzsche. Aqui cabe salientar que não só no nível da linguagem, porém e sobretudo no nível da doutrina que propugna, ambas as obras são rotuladas de “niilismo heróico”, como destaca José Paulo. Tudo no livro está a serviço de uma religiosidade sem deus, para definir a vida como um breve intervalo de luz entre dois negros abismos do Nada de onde viemos e para o qual voltaremos, almejando dessa forma atingir uma visão que o autor chamou de “relance cretense”, em homenagem à sua ilha natal, “onde Oriente e Ocidente se encontram na síntese do dionisíaco com o apolíneo”.
O trabalho de verter Ascese para nossa língua, trabalho sempre esmerado de José Paulo Paes, tradutor incansável de jóias literárias, é o primeiro deste precioso livro de Nikos, que vem acrescentar mais à obra já traduzida do grande romancista, poeta e dramaturgo grego, autor de vasta produção literária, com 11 romances, 21 peças de teatro em verso, 9 livros de viagem, 3 ensaios filosóficos, grande número de narrativas para crianças, uma história de literatura russa e três realizações poéticas, a saber: Askitikí, que é a Ascese da qual se tratou aqui, a Odisséia — uma continuação moderna, o maior poema grego da modernidade, e Tertzínas ou Terças rimas. Também tradutor profissional, Kazantzakis verteu para o demótico livros de Nietzsche, Bergson, William James, Darwin, Dante, Goethe e mais: A Ilíada e A Odisséia foram trazidas para o grego moderno por Nikos, que lutou ardorosamente pela adoção integral do demótico contra os purismos da katharévousa.
Lutar é agir e é o que ensina a Ascese de Nikos Kazantzakis, um grego que marcou presença na literatura do século XX tão farto em lutas, que traduzem o “susto ao absurdo do ser”, nas palavras do próprio escritor mais uma vez apresentado na língua portuguesa pela espetacular erudição e capacidade de tradução de José Paulo Paes.

3 comentários:

Carlos Vilarinho disse...

Fico meu doidáo. Essa história de viver e não viver, ou viver em outros mundos... Acho que rola...

pereira disse...

O cara era gênio na literatura e na filosofia.

Manuel Anastácio disse...

Um génio, sem dúvida, que resume bem a mais abrangente de todas as manifestações verdadeiramente religiosas do mundo contemporâneo: cabe-nos a nós salvar Deus.