quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

FOME

Flamarion Silva

A criança chorava morrendo de fome. O pai não sabia o que fazer. A mãe tentava fazer o filho calar a boca.
– Desde ontem não come, o coitadinho – disse a mãe.
– Vou ver se arranjo algum trabalho – disse o marido, saindo preocupado.
Mais tarde ele voltou e disse:
– Não arranjei nada. Ele dormiu? – perguntou olhando para o bebê, no colchonete, estirado no chão.
– Dormiu, respondeu a mulher. Pelo menos, dormindo, acho que não sente fome. Quem está dormindo sente fome?
– Sei não. Mas, como dizem que todo sonho é a realização de um desejo, ele deve estar comendo no sonho. Sonho de que está numa mesa farta.
– Eu queria que esse sonho fosse realidade – disse a mulher. Seria tão bom... pena que o sonho acaba, se acorda...
Batem à porta e o marido vai ver quem é.
– Como é, senhor, faz onze dias que a casa venceu. Quero receber.
Era o proprietário do barraco.
– Não espero mais um dia! – disse ele, alterado – Ou paga até hoje à noite ou ponho tudo no olho da rua! Pague o que deve! Não estou aqui para sustentar vagabundo!
O homem gritava. A mulher pediu:
– Não grite, a criancinha vai acordar. "Quem sabe se eu pedir. Sou mãe de uma criancinha. Talvez ele fique tocado. Ele deve ter mãe, filhos". Desde ontem nosso bebezinho não come, meu senhor. Meu marido não é vagabundo, não. Todo dia ele sai procurando emprego, mas não acha nada, a coisa está difícil. Por Deus, espere mais um pouco, nós somos honestos, se estamos nesta situação não é por culpa nossa e...
– Ah, não, e de quem é então? – berrou o proprietário.
– Não sei, meu senhor, não sei, mas tenho certeza de que Deus sabe que a culpa não é nossa.
– Tire Deus de suas enrolações – disse, contrariado, o proprietário.
A criança acordou com os gritos, chorando mais do que antes.
– Está vendo, estúpido, acordou nosso bebê – disse o pai do menino.
– Ou sai até às 7h de hoje ou chamo a polícia. Passar bem. Hum, onde já se viu... deve, não paga, e eu que sou estúpido... canalhada!
O homem sai bufando.
– E agora, o que vamos fazer? – perguntou a mulher, aflita.
O marido nada respondeu. Não tinha resposta a lhe dar.
– Se ao menos o bebê calasse a boca – ele disse – Não consigo pensar com toda essa zoada.
– Ele não tem culpa de estar chorando. Ele está morrendo de fome. Não deve ter sonhado nada, o coitadinho...
– Será que algum vizinho não consegue um pouco de leite?
– Já pedi. O último mingau que ele tomou foi uma velhinha que mora lá no fim da rua quem deu. Ela também é necessitada. Outros, dizem: “arranja filho quem pode; tem que agüentar; estamos no mesmo barco, e não tem nada para dar.” Uma humilhação...
A tarde foi morrendo e a hora aprazada chegando. O marido disse:
– Vou sair.
A mulher ainda perguntou para aonde. Não deu tempo de responder. Tinha uma idéia na cabeça e precisava pô-la em prática rápido. Não podia deixar o sangue esfriar, a raiva do mundo passar. Estava com raiva de todo mundo e só havia uma maneira de acabar com tudo isso, com a fome e com a miséria por que estavam passando, ele e a família. Tinha raiva, e um homem com raiva esquece que é homem, vira bicho.
– Tem veneno aí? – ele gritou para a mulher da farmácia.
Rápido a vendedora colocou um pacote de veneno de rato no balcão. Ele pegou o veneno e saiu correndo. Precisava ser rápido.
– Você tem que pagar, moço – gritou a moça da farmácia.
Agora ele não tinha tempo. Precisava ser rápido.
– Tome. Beba! – passou o copo à mulher.
– O que é isso? – perguntou ela, já levando o copo à boca.
– Não! Não! Espere! Primeiro o bebê.
– O que é isso? – ela quis saber de novo.
Ele colocou o líquido na mamadeira do filho e disse:
– Tome, nenezinho, tome que a fome passa. Vai dormir e acordar gordo, num lugar lindo e cheio de comida.
O bebê sugou ávido o líquido da mamadeira. Depois dormiu.
– Agora você. Tome! Rápido!
A mulher ingeriu o líquido de um gole só. Ele fez o mesmo.
Quando o proprietário retornou, viu que todos dormiam.
– Corja de vagabundos! rosnou. Mas, depois, olhando melhor, vendo os três assim, dormindo juntinhos no colchonete, no chão duro, amoleceu. Sentiu pena e decidiu:
– Vou dar mais um tempo.


Flamarion Silva é autor de O Rato do capitão (Secretaria da Cultura e Turismo, EGBA, 2006). Coleção Selo Letras da Bahia, 108.

3 comentários:

Carlos Vilarinho disse...

Que final, hein!
Beleza!

tita coelho disse...

Nossa! e de um desepero profundo causado por uma série de tristezas o homem resolve matar a família e se matar...
O final fantástico...devemos medir as palavras antes de falar!!
beijos meus

Flamarion Silva disse...

É isso aí, amigos. A ficção é um jogo que a gente inventa para comover o leitor, pena que, além da forma, que é o que interessa ao artista, o conteúdo seja o retrato de uma realidade humana tão triste, neste conto.