domingo, 16 de dezembro de 2007

CONTO DE NATAL



Carlos Vilarinho



Sofia me disse que sua mãe era fã incondicional dos artistas italianos. Daí seu nome igual ao da atriz italiana. Ela não conhecia as atrizes, via somente os livros que o tio Pepe lia com avidez e por vezes languidamente derretendo-se na poltrona. Tinha nove anos e uma curiosidade enorme em saber o que aquelas letras todas reunidas faziam na mente de tio Pepe. Uma vez assistindo a um desenho animado, meio atenta na tela, meio atenta na conversa de Antonio e Lúcia, ouviu:
— Não, querida, para que livros para Sofia no Natal?
— Antonio, a Sofia vive nos braços da poltrona de Pepe tentando fazer as leituras que ele faz...
— Não, nada disso, vamos comprar uma boneca bem bonita parecida com ela.
Sofia saiu totalmente do mundo animado da TV e voltou-se para dentro de casa. Olhou a estante e a poltrona vazia de tio Pepe. Dependurou-se e arriscou pegar qualquer um que estava ali. Ela então abriu e leu uma história de uma menina que cultivava livros. Leu com dificuldade, é certo, mas conseguiu ler. Depois daquele dia, Sofia adquiriu uma paixão imensa pelos livros. Chegou a sonhar que era uma personagem que se escondia naquela estante. Primeiro voava por um lugar do nunca, havia um amigo com o nome parecido com o do tio Pepe. Depois conversava livremente com um príncipe pequeno, do mesmo tamanho dela; contudo, gigantesco nas idéias. Por vezes, enquanto conversava com o príncipe pequeno, como ela, tinha imagens de letras e palavras rondando eles dois. De repente viu passar nitidamente um bloco de palavras e letras combinadas, que já ouvira falar em poesia. Achou a combinação e a imagem que aquelas letras lhe proporcionaram tão criança e infantil quanto ela, contagiantes ao se pronunciarem. Era assim:
Sonhadora menininha,
cativas o universo.
Para mostrar sua vida lindinha,
em sonho de verso.
Vira ainda as renas que carregavam aquele velhinho gordinho que ria fácil e trazia presentes. “Ah! Que mundo aquele dos livros e das histórias!”, pensava. Ouviu o som da garagem. Correu para a porta já entreaberta e espionou por um facho de luz.
— Então, Lúcia? Olhou o presente de Sofia?
— Eu achava melhor livros... Vou concordar com você, ainda que muito duvidosa.
— Não se preocupe, diremos quando chegar a hora da leitura.
Sofia pressionou os lábios entre os dentes. E ficou pensativa. Ouviu a mãe dizer que ia levá-la no dia seguinte para escolher. Feliz e convicto que daria um belo presente para a filha, Antonio falou, Sofia ouvia e sentia a satisfação do pai em presentear-lhe. Sentiu orgulho nas palavras do pai. Afinal Micheli não ganharia presentes, foi o que a amiga lhe dissera. Mas logo o orgulho se dissipara, lembrou que garantira a Michele que também não aceitaria presentes. E olhou os livros do tio Pepe esparramados pelo quarto.
Enquanto se arrumava dentro de um misto de tristeza e decepção, Sofia teve uma idéia. E se dissesse ao pai com toda a sua pureza e autenticidade de princesa pequena que queria pelo menos um livro? De uma forma ou de outra iria comprar os presentes de Natal, não destituiu contudo a idéia de ter livros para si. Viu novamente a satisfação no rosto do pai. Definitivamente Sofia não era uma menina como as outras, ela sentia isso. Insistia para o tio Pepe contar-lhe histórias e, como uma mágica, lá estava ela facilmente no mundo das histórias dos livros.
Havia uma árvore de Natal enorme em frente ao shopping que todos iam. Parecia que toda a cidade dirigia-se unicamente para aquele lugar cheio de lojas caras e só duas livrarias. Lembrou-se de que uma vez o tio Pepe leu para ela a história de Natal que um velho sovina ficava sozinho durante a noite da ceia e então ao refletir sobre sua vida tentou mudar para melhor. Era esse então o espírito natalino. Com neve ou no calor do verão, o Natal servia para despertar nas pessoas o sentimento franco e puro. Mas só no Natal? Que estranho. Então nos outros trezentos e tantos dias as pessoas podem magoar umas às outras? Aquilo era demais para Sofia, que pensava agora em Micheli.
Conseguiu, com a ajuda da mãe, convencer o pai a ganhar livros também.
— Só livros, não. Vou lhe dar uns presentes bem bonitos, umas roupinhas e uma bonequinha parecida com você para se divertir... Leitura faz bem, mas na hora certa, de qualquer forma escolha o livro.
Escolheu “Vinte mil léguas submarinas” e “As mil e uma noites”. Teria o seu próprio e não esperaria mais o tio Pepe para ler as histórias de Sherazade.
Micheli chegou com a mãe. O pai constrangido não se integrou à reunião natalina. Havia de tudo na mesa e os presentes ao pé da árvore de Natal. Sofia estava especialmente feliz. E não era só porque ganharia seus dois primeiros livros mais importantes. Era porque dentro dela estava a imagem e as palavras que vira quando viajava pelo mundo das letras. Sofia cativava o universo. Transformaria um sonho em realidade. Na hora da entrega dos presentes, notou ao fundo, bem serena, dona Helena e a filha Micheli com um ar perdido na atmosfera bendita da noite feliz. Sofia encarregou-se, em frente a todos, de segurar duas caixas bem enfeitadas, em uma havia a bonequinha que parecia com ela e na outra a roupinha em linho que o pai escolhera. E com o riso infantil de Natal cruzou toda a extensão da sala e brindou com mimo de criança viajada pelo mundo das letras, disse:
— Papai, o Natal não serve para despertar nas pessoas o sentimento franco e puro?
E então deu as duas caixas de presente à Micheli. Pelo rosto do pai passearam contornos de decepção. Depois de surpresa. E finalmente de felicidade e orgulho pela filha que tinha. Sofia deliciava-se com Simbad, o marujo, Ali Babá e os quarenta ladrões, além do capitão Nemo. E com o riso infantil do Natal, completou:
— Feliz Natal, Micheli!




16/12/07
Carlos Vilarinho é autor de As Sete Faces de Severina caolha & Outras Histórias (SCT, FUNCEB, 2005).

5 comentários:

Anônimo disse...

QUE BOM EXISTE O DIA DE NATAL PARA PODERMOS RECOMPENSAR OS OUTROS TREZENTOS E SESSENTA E TANTOS DIAS...
QUE BOM EXISTE VOCE VILARINHO QUE ATRAVES "CONTO DE NATAL" PODEMOS REFLETIR SOBRE OS OUTROS TREZENTOS E SESSENTA E TANTOS DIA DO ANO.
Ainda que seja só no Natal ... BEIJOSSSSSS!!

tita coelho disse...

Adorei o conto Carlos!!
beijos meus

tita coelho disse...

Carlos,
Gostei das tuas visitas...procurei um blog só teu...mas não achei!
Gosto muito dos teus contos....tento escrever e Gerana vem acompanhando para a minha alegria.... no ESPERAS alguns poemas meus e no TERROR CONTADO algumas tentativas de terror...aparece por lá e deixa teus comentários! No meu caso que sou amadora e iniciante é importante ter a opinião de pessoas que escrevem bem!!
beijos meus

gláucia lemos disse...

É bem esta a mensagem eterna do Natal, a solidariedade, o ama ao próximo como a ti mesmo.Seu conto é a mensagem exata da festa maior da Cristandade. Ele tem o espírito natalino, com a necessária simplicidade. Gostei muito.

Harmonia disse...

Conto lindo Vilarinho!!!

Beijos,

Harmonia