domingo, 2 de setembro de 2007

O QUE É TER OLHO CRÍTICO

Um texto sobre literatura, saboreando avaliações para apontar quais, dentre tantos recursos da arte literária, determinado autor recorreu, pensando sua disposição e que condições ele criou para que a ficção se desse, tudo isso não deixa de ser tão prazeroso quanto a própria ficção, seja a prosa, seja a poesia, que é a ficção do sentimento. Alguns disseram que a crítica é a forma moderna da autobiografia, outros já acham que o crítico é aquele que encontra sua vida no interior dos textos que lê, mas o escritor argentino Ricardo Piglia, em Formas Breves (Companhia das Letras, 2004) diz mais bonito: “A pessoa escreve sua vida quando crê escrever suas leituras”. E Aramis Ribeiro Costa completa acertadamente dizendo que o olho crítico é a transformação da visão pessoal em um critério objetivo.
A razão para tal digressão sobre a crítica talvez tenha vindo da leitura de A literatura na poltrona, de José Castello, sub-intitulado “jornalismo literário em tempos instáveis”, perfeito para quem faz a crítica sem pretensão acadêmica, ou talvez venha da leitura do Pequeno manual de procedimentos, de um escritor argentino de primeira água chamado César Aira. É difícil escolher para quem conceder certa preferência e estender o comentário, mas como José Castello é mais conhecido, já vem de O poeta da paixão (Companhia das Letras, 1994), sobre Vinicius de Moraes, O homem sem alma (Rocco,1996), sobre João Cabral de Melo Neto, Na cobertura de Rubem Braga (José Olympio, 1996), Inventário das Sombras (Record, 1999) e outros, haverá oportunidade de dedicar-lhe outras linhas.
Ficamos, então, com César Aira, um ficcionista que seduz inteiramente o leitor. Na Flip deste ano, ele estava no lançamento de sua caixa com dois livros: As noites de Flores e Um acontecimento na vida do pintor-viajante, ambos pela Nova Fronteira, acompanhados por uma reunião intitulada 13 variações sobre César Aira, de Carlito Azevedo. A caixa é imperdível, porque se pode constatar a aplicação de todas as reflexões que o autor fez sobre a literatura no livro supracitado em torno dos procedimentos, o tal manual, este igualmente imperdível, mas apenas para quem sente o deleite na leitura sobre literatura, a ponto de “olhar criticamente”. Contas feitas, aportamos no que foi objeto do início deste texto, por conta do ensaio “Best-seller e literatura”, do brilhante César Aira. Chega-se, arredondando estas linhas, enlaçando-as com o começo, para terminar com as palavras de Aira, que tão bem compreende o olho crítico, o que percebe a diferença entre um O código Da Vinci e um volume como A morte de Ivan Ilitch: “... lendo-o [o best-seller] se aprende história, economia, política, geografia, sempre à escolha e de forma divertida e variada. Lendo-se literatura genuína, no entanto, não se adquire nada além de cultura literária, a mais inofensiva de todas”. Aí está uma colocação genial usando a ironia pela via da humildade! Fiquemos, pois, com a literatura genuína e a sugestão citada na comparação: A morte de Ivan Ilitch, do grande Liev Tolstói.
Gerana Damulakis

Um comentário:

Pedro disse...

Quem sou eu para dar as boas vindas, tendo pouco mais de um mês na vida blogueira??
Mas é a parte que me cabe, sendo o dono do primeiro comentário, o "descabaçador", como muitos diriam (perdoe a baixaria, eu não resisti!).
Pois bem. Seja muito bem vinda. Que aqui nessas páginas virtuais consigamos a visibilidade desejada. Mas que antes de tudo, façamos o que realmente importa: exercitemos o nosso amor pela escrita.
Beijão!