quarta-feira, 28 de outubro de 2009

ESPAÇO CRÍTICO

O DEVER QUE NÃO NOS CHAMA
ou CADÊ A PARTE QUE ME CABE DESTE LATIFÚNDIO?

por Silvério Duque*

Construir uma Antologia, por mais hábil e capaz que uma pessoa seja, é uma das coisas mais complicadas e arriscadas que ela, em são juízo, se presta a fazer em sua vida; principalmente, pelo fato de essa tarefa, irrefutavelmente, despertar a indignação de alguém, seja por não ver o seu trabalho ali publicado, ou, por não achar, nesta publicação, um trabalho do qual ele goste e considere digno de ali se fazer presente. Seria simples dizer: “quem quiser uma boa antologia, que a faça?” Claro que não...! Eu que tenho pretensões – e somente pretensões, até agora – de me arriscar a tal tarefa, sei muito bem deste problema.
Mas me parece que o professor e poeta Marco Lucchesi esqueceu-se um pouquinho disto em Roteiro da Poesia Brasileira: volume anos 2000 (Global, 2009), de sua autoria. Digo isso por causa do enorme estardalhaço que esta antologia causou – pelo menos, no espaço destinado aos comentários no Blog Leitora Crítica (http://leitoracritica.blogspot.com), administrado pela autora Gerana Damulakis, aqui, da Bahia... de Salvador – fora isso, a antologia me parece que vai muito bem, obrigado! Gerana, que é autora, entre tantas coisas, da Antologia panorâmica do conto baiano, deveria, também, ficar temerosa, pois... nunca se sabe.
Pela qualidade de sua poesia, que conheço bem, e por seu trabalho como crítico, que muito pouco conheço, Marco Lucchesi é uma das pessoas mais capazes de construir uma antologia permeada de riqueza e de qualidade, mas como disse a pouco, quem o livrará de irrefutáveis indignações? Seu trabalho foi rechaçado por uma turba de leitores e autores indignados, e, a maioria com razão, de esta antologia não abarcar o real momento por que passa a produção literária baiana e se limitar a um grupo geograficamente e cooperativistamente incrustado em Salvador e pela mídia local.
Parece-me que a grande questão está na atuação destes poetas no círculo literário baiano, que, sem sombra de dúvidas, ou pelo menos em meu ver, é muito grande; é só conferir os cadernos culturais, os concursos literários, as raríssimas, mas existentes, entrevistas em rádio e TV, e veremos que há uma razão muito grande para que estes nomes se façam presentes; por isso, não vou, de forma alguma, atacar o trabalho de Lucchesi, nem os critérios pelos quais ele chegou a esta tão “famigerada” lista de autores baianos, mesmo que alguns desses, sequer tenham nascido na Bahia – mas alguém aqui diria que Clarice Lispector é uma dignatária da literatura ucraniana? Vanessa Buffone, por exemplo, tem uma poesia leve e expressiva, e, retirando-se alguns lugares-comuns do feminismo literário, é a autora mais talentosa presente entre os “novos baianos”. Já no que diz respeito a outros ali presentes... é melhor deixar pra lá.
Dado aos círculos de amizades que se fazem entre muitos escritores, que criam, promovem, participam e premiam-se mutuamente, com a ajuda cooperativista que tanto banaliza a política e a maioria dos negócios em nosso país, e que não se faz diferente nos meios literários de todo o Brasil, entre Academia, Cadernos Culturais e tapinhas nos ombros, temo que Marco Lucchesi tenha sido vítima das aparências muito mais do que muitos leigos e despercebidos que, sentados na poltrona de suas casas, de frente para algum programa sensacionalista de televisão ao meio-dia, dão tanta importância a assuntos ligados à Literatura quanto se dá a um mosquito que acabou de ser esmagado pelo jornal de ontem... aqueeeele que continha um certo caderninho, com uns poeminhas...?!
Pensando melhor... bem que Marco Lucchesi poderia ter dado uma olhadinha na Bahia para além de Salvador... ali, em Ilhéus, em Feira de Santana, em Cachoeira... Ele só não pode dizer que foi contagiado pela famosa “preguiçinha baiana”, pois, para alguém com tantos e merecidos títulos como Lucchesi, para um professor à altura de sua graduação e fama, faltou-lhe o elemento básico em sua antologia: uma boa, sincera e exaustiva pesquisa.

***

E pior que o cooperativismo deliberado é o espírito cooperativista intrínseco, pelo que me parece existir no espírito sujo de muita gente, que, infelizmente, acha que uma pessoa que critica, por melhor e construtiva que seja a crítica, é uma invejosa e uma infeliz que não realizou seus sonhos e aspirações, e, mais interessante ainda, é se valer de críticas para criticar o uso da crítica propriamente dita... “faça-me uma garapa!”, como dizia o meu avô, esta não tem Freud que explique.
Digo isso, pois, dos muitos comentários que li o do poeta Gustavo Felicíssimo foi um dos melhores e mais coerentes, mas, por uma dessas ilógicas que só têm lógica nos meios literários brasileiros, e, conseqüentemente, no baiano, foi o mais atacado e acusado entre tantas coisas – até mesmo de fruto de uma inveja explícita e descabida... ai, minha carapuça!
Gustavo Felicíssimo, a quem aprendi facilmente a admirar como pessoa e como artista, é um defensor de idéias e filosofias e ver alguma inveja em seus comentários é o mesmo que enxergar a pedagogia de Piaget num programa da Xuxa. O que será de mim, então, após publicar este artigo? Miserere mei, Deus: secundum magnam misericordiam tuam...
Tão importante quanto o fato de defender uma idéia, e ainda mais uma filosofia, é vivê-la, é torná-la a essência de sua existência e nela construir uma vida singular, baseada naquilo que se tem como verdade ou missão, e, isso, cabe, também, e talvez mais (ou mais freqüentemente) aos poetas. É o caso, por exemplo, do Gustavo Felicíssimo, atualmente um dos melhores, mais promissores e ativos poetas da atual Literatura Baiana e Brasileira; atividade que vai além da poesia e se estende para um trabalho de divulgação das novas gerações poéticas e que, graças à qualidade tanto de sua poesia como de seu trabalho de crítico e de divulgador, tem sido reconhecido por muitos dos melhores poetas e críticos do país, a exemplo de Pedro Sette Câmara, Cláudia Cordeiro e Luis Dolhnikoff e, lógica e verdadeiramente, é atacado e invejado por uma leva considerável de nossos medíocres alguma-coisa.
Eu, particularmente, considero as micro-entrevistas da série Três perguntas para... (conferir: http://sopadepoesia.zip.net), uma das idéias mais bem boladas da Internet e, mais particularmente ainda, um dos melhores projetos dos quais participei. O fato de se fazer presente em várias revistas e sites de poesia, além de seu Blog, Sopa de poesia, ser reconhecidamente premiado, pela revista Veja, como um dos melhores Blogs do país, são exemplos concretos de que Gustavo Felicíssimo merece todos os elogios que, sem medo ou pudor, e, sim, com sinceridade e débito, venho prestar a ele nestas poucas e insuficientes palavras... Como podem ver, aceito a cruz que, deliberadamente, me adorna os ombros.

Se o Gustavo fez quaisquer comentários sobre seja lá o que for, ele deve ser julgado pela qualidade e veracidade dos comentários que fez e não porque, simplesmente, teve a coragem, o dever e a capacidade lúcida e bem fundada de fazê-lo e o mesmo vale para a antologia de Marco Lucchesi... o que ou quem se presta contra estas coisas, sim, é um invejoso ou um cooptado por ela.

Mas não é Freud que diz que dizia que “o instinto de amor em direção a um objeto exige um domínio para obtê-lo, e, se uma pessoa sente que não consegue controlar o objeto, ou se sente ameaçada por ela, passa a agir negativamente com relação a ele ...”?

Melhor deixar pra lá...


Feira de Santana, 28 de outubro de 2009.



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Silvério Duque é poeta, professor, licenciado em Letras Vernáculas pela Universidade Estadual de Feira de Santana, músico. É autor dos livros de poesia: O crânio dos peixes (MAC, 2003) e Baladas e outros aportes de viagem (Ed. Pirapuama, 2006). Seu novo livro de poemas, Ciranda de sombras está no prelo.

IV BIENAL INTERNACIONAL DO LIVRO DE ALAGOAS


Arriete Vilela na IV Bienal Internacional do Livro de Alagoas:
1. no dia 31 de outubro (sábado), no estande da SECULT/ Biblioteca Pública Estadual, com o livro OBRA POÉTICA REUNIDA;
2. no dia 4 de novembro (quarta-feira), no estande da Sobrames, com os livros GRANDE BAÚ, A INFÂNCIA e FANTASIA E AVESSO - 5ª edição -, e
3. no dia 4 de novembro (quarta-feira), no estande da FAA, com postais (poemas e fotografia).

terça-feira, 27 de outubro de 2009

10 ANOS SEM CABRAL

Gerana Damulakis


Dez anos da morte de João Cabral de Melo Neto, ocorrida no dia o9 de outubro de 1999. O dia já passou, o mês ainda segue e é um mês que tem cheiro de morte, nome de morte, traz a raiva da morte - obviamente se trata de algo pessoal, é assim que sinto outubro.
Levanto os olhos e na parede estão duas fotos emolduradas: uma de Clarice Lispector, a outra de João Cabral de Melo Neto. A de Cabral é belíssima, ele tem os olhos fechados, a mão direita segurando o queixo.
Cabral é um dos meus poetas brasileiros preferidos. Jamais esquecerei o dia em que li “Uma faca só lâmina”. No tempo em que me imaginei poeta e publiquei o justamente esquecido Guardador de Mitos, era notória a influência de Cabral, embora minha admiração total por Manuel Bandeira. Atualmente, já não vejo assim. Bandeira e Cabral estão no mesmo patamar de excelência (redundância proposital), apenas são diferentes e há a hora para ler um “Belo Belo” e há a hora para ler um poema tal como “A Mulher e a Casa”.
A poesia da razão de Cabral tem origem em sua sensibilidade. Parece um paradoxo? Vale reparar bem, vale verificar quanta sensibilidade é necessária para colocar a razão regendo as quadras. No exemplo abaixo, um erotismo singular.

A MULHER E A CASA
João Cabral de Melo Neto

Tua sedução é menos
de mulher do que de casa;
pois vem de como é por dentro
ou por detrás da fachada.

Mesmo quando ela possui
tua plácida elegância,
esse teu reboco claro,
riso franco de varandas,

uma casa não é nunca
só para ser contemplada;
melhor: somente por dentro
é possível contemplá-la.

Seduz pelo que é dentro,
ou será, quando se abra;
pelo que pode ser dentro
de suas paredes fechadas;

pelo que dentro fizeram
com seus vazios, com o nada;
pelos espaços de dentro,
não pelo que dentro guarda;

pelos espaços de dentro:
seus recintos, suas áreas,
organizando-se dentro
em corredores e salas,

os quais sugerindo ao homem
estâncias aconchegadas,
paredes bem revestidas
ou recessos bons de cavas,

exercem sobre esse homem
efeito igual ao que causas:
a vontade de corrê-la
por dentro, de visitá-la.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

ANTOLOGIA DO CONTO HÚNGARO

Gerana Damulakis


Quando escrevi uma postagem sobre o conto de James Joyce, “Os Mortos”, por conta deste ter sido escolhido como o melhor conto de século XX, meu amigo, o escritor Fred Matos, comentou sobre um conto imperdível. Trata-se de “Médicos”, do húngaro Biró Lajos, nascido em 1880 e morto em 1948. Fred leu o conto na Antologia do Conto Húngaro, com seleção, tradução, introdução e notas de Paulo Rónai, revisão de Aurélio Buarque de Hollanda e prefácio de João Guimarães Rosa: uma jóia!
Por coincidência também tenho tal antologia, com a assinatura do dono do exemplar na folha de rosto, ou seja, a assinatura de meu tio, o jornalista Flávio Costa, irmão de minha mãe, e que foi amicíssimo do pai de Fred, Ariovaldo Matos. Penso que ambos compraram seus exemplares juntos, pois que eram escritores e leitores, além de amigos.
Acho muito interessante que, passado tanto tempo, o filho de Ariovaldo Matos e a sobrinha e afilhada de Flávio Costa recorram aos livros herdados, recorram à leitura de determinado conto. É como se eles, Ariovaldo e Flávio, permanecessem um tanto através da Antologia do Conto Húngaro, editada pela Civilização Brasileira, em 1957, ano em que os dois familiares nossos, tão queridos, todavia desfrutavam da juventude intensa que tiveram. O meu exemplar herdado está perfeito, coloquei capa dura.
O conto “Médicos”, de Biró Lajos é bastante elaborado ao modo de Maupassant. Leitura prazerosa, narrativa com fluência em cima de um episódio. Leio que o autor foi famoso por romances e peças. E, buscando imagens para ilustrar esta postagem, descubro que a antologia teve reedição pela Topbooks, em 1998 (foto).

domingo, 25 de outubro de 2009

UMA BIOGRAFIA DE CLARICE LISPECTOR

Gerana Damulakis

Uma biografia de Clarice Lispector foi lançada recentemente nos Estados Unidos. O título é Why This World: A Biography of Clarice Lispector, de Benjamin Moser, editado pela Oxford University Press, com 480 páginas.
O autor é colaborador de The New York Review of Books, Harper’s e Conde Nast Traveler. Benjamin Moser, americano radicado na Holanda, é admirador da obra de Clarice. Ele conheceu os textos de Lispector num curso de português na Universidade de Brown. Sua pesquisa se deu através de um programa de intercâmbio na PUC do Rio. Além disso, durante cinco anos, ele realizou entrevistas e fez viagens, indo até a Ucrânia, terra natal de Clarice.
O livro terá lançamento no Brasil em novembro pela Cosac & Naify.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

COMO UMA DISPUTA QUALQUER

Gerana Damulakis

A minha cabeceira tem qualquer coisa de uma corrida,um concurso, uma disputa. Faço uma seleção de tempos em tempos, mas logo volta a pilha de livros. Os que perdem o lugar na cabeceira, todavia não foram descartados, apenas vão para a mesa da minha biblioteca, onde outra pilha vai se formando. Geralmente ocorre a volta para a cabeceira. Tenho um péssimo hábito de ler muitos livros ao mesmo tempo, só que invariavelmente um deles toma a dianteira e faz com que eu não abra os demais até terminá-lo. Quando algum livro de José Saramago é retirado da sacola e ganha seu lugar na cabeceira, nenhuma chance haverá para os que ali já estiverem. Apenas O Evangelho Segundo Jesus Cristo conseguiu ficar uma semana sendo lido; os outros – todos os outros títulos de JS – foram consumidos com voracidade. Resultado: até meus sonhos acontecem com a linguagem de Saramago, passo a pensar com o estilo dele, é uma empatia incrível. Com Caim, estou experimentando o mesmo que se deu com O Evangelho. Os temas relacionados com Deus, Jesus Cristo, me afastam. Penso que seja porque, diferentemente de Saramago, eu tenho muita fé católica (sou bisneta de padre - ordoxo grego -, a fé está em mim por herança). Leio, no entanto. Leio porque não perco a oportunidade de saborear o estilo de Saramago.
É isto, estou lendo Caim. Vagarosamente. Na corrida da minha cabeceira, Herta Müller – com O Compromisso - está ganhando de Saramago, de Junichiro Tanizaki ( autor fascinante, já li vários títulos, mas menos envolvente neste A Vida Secreta do Senhor Musashi), de Marguerite Duras (sempre encantadora, porém Cadernos da Guerra e Outros Textos, embora conservem o vigor narrativo dos romances, não deixam de ser documentos de arquivo; menos sedutores, por consequência).
Vou começar agora A Autobiografia de Alice B. Toklas, por G. Stein, na belíssima edição da Cosac Naify, com tradução de José Rubens Siqueira e posfácio de Silviano Santiago. Vale registrar que a L&PM já editava este título desde os anos 80.