terça-feira, 27 de outubro de 2009

10 ANOS SEM CABRAL

Gerana Damulakis


Dez anos da morte de João Cabral de Melo Neto, ocorrida no dia o9 de outubro de 1999. O dia já passou, o mês ainda segue e é um mês que tem cheiro de morte, nome de morte, traz a raiva da morte - obviamente se trata de algo pessoal, é assim que sinto outubro.
Levanto os olhos e na parede estão duas fotos emolduradas: uma de Clarice Lispector, a outra de João Cabral de Melo Neto. A de Cabral é belíssima, ele tem os olhos fechados, a mão direita segurando o queixo.
Cabral é um dos meus poetas brasileiros preferidos. Jamais esquecerei o dia em que li “Uma faca só lâmina”. No tempo em que me imaginei poeta e publiquei o justamente esquecido Guardador de Mitos, era notória a influência de Cabral, embora minha admiração total por Manuel Bandeira. Atualmente, já não vejo assim. Bandeira e Cabral estão no mesmo patamar de excelência (redundância proposital), apenas são diferentes e há a hora para ler um “Belo Belo” e há a hora para ler um poema tal como “A Mulher e a Casa”.
A poesia da razão de Cabral tem origem em sua sensibilidade. Parece um paradoxo? Vale reparar bem, vale verificar quanta sensibilidade é necessária para colocar a razão regendo as quadras. No exemplo abaixo, um erotismo singular.

A MULHER E A CASA
João Cabral de Melo Neto

Tua sedução é menos
de mulher do que de casa;
pois vem de como é por dentro
ou por detrás da fachada.

Mesmo quando ela possui
tua plácida elegância,
esse teu reboco claro,
riso franco de varandas,

uma casa não é nunca
só para ser contemplada;
melhor: somente por dentro
é possível contemplá-la.

Seduz pelo que é dentro,
ou será, quando se abra;
pelo que pode ser dentro
de suas paredes fechadas;

pelo que dentro fizeram
com seus vazios, com o nada;
pelos espaços de dentro,
não pelo que dentro guarda;

pelos espaços de dentro:
seus recintos, suas áreas,
organizando-se dentro
em corredores e salas,

os quais sugerindo ao homem
estâncias aconchegadas,
paredes bem revestidas
ou recessos bons de cavas,

exercem sobre esse homem
efeito igual ao que causas:
a vontade de corrê-la
por dentro, de visitá-la.

7 comentários:

Nílson disse...

Poesia concreta!!!

ParadoXos disse...

estamos sempre a conhecer...

um beijo meu, agora nosso!

claudio rodrigues disse...

Magnífico poema. Eu fico bobo com essa maestria de Cabral. Parece que cada verso é como um tijolo sendo colocado na argamassa. Ele consegue ser tão razão na pura emoção. E essa quebra inevitável da estrutura no fim do verso nos levando imediatamente ao outro é o ranger da construção. maravilha.

claudio rodrigues disse...

Magnífico poema. Eu fico bobo com essa maestria de Cabral. Parece que cada verso é como um tijolo sendo colocado na argamassa. Ele consegue ser tão razão na pura emoção. E essa quebra inevitável da estrutura no fim do verso nos levando imediatamente ao outro é o ranger da construção. maravilha.

Ana Tapadas disse...

Gerana:
Adoro Manuel da Bandeira. Conheço menos este poeta - só um poema ou outro. Ignorância minha. Teu blogue acrescenta-me saber.
Beijo

aeronauta disse...

Gosto demais desse poema, gosto demais de Cabral, e de Bandeira. E não gosto, também, nem um pouco de outubro.
Saudades daqui.

Nydia Bonetti disse...

Fiquei tão feliz em ter encontrado teu blog Gerana! Tudo aqui é muito bom.

Abraços!