domingo, 20 de junho de 2010

TRECHOS DE A VIAGEM DO ELEFANTE


Quase apenas um par de frases de A viagem do elefante (Companhia das Letras, 2008), de José Saramago:

Como já deveríamos saber, a representação mais exata, mais precisa, da alma humana é o labirinto. Com ela tudo é possível.

A vida, porém, tem muitas cartas no baralho e não é raro que as jogue quando menos se espera.
José Saramago


Ilustração: Rafal Olbinski para Don Giovanni.

sábado, 19 de junho de 2010

TRECHOS DE O ANO DA MORTE...


TRECHOS DE O ano da morte de Ricardo Reis (Companhia das Letras, 1997), de José Saramago.

Podia ser verdade, podia ser mentira, é essa a insuficiência das palavras, ou, pelo contrário, a sua condenação por duplicidade sistemática, uma palavra mente, com a mesma palavra se diz a verdade, não somos o que dizemos, somos o crédito que nos dão.

A mais inútil coisa deste mundo é o arrependimento, em geral quem se diz arrependido quer apenas conquistar perdão e esquecimento, no fundo, cada um de nós continua a prezar as suas culpas.

O jogo entre uma memória que puxa e um esquecimento que empurra é jogo inútil, o esquecimento acaba por ganhar sempre.
O mundo esquece tudo, o mundo esquece tanto que nem sequer dá pela falta do que esqueceu.

Não esquecer que todas as cartas de amor são ridículas, isto é o que se escreve quando já a morte vem subindo a escada, quando se torna de súbito claro que verdadeiramente ridículo é não ter recebido nunca uma carta de amor.

A solidão não é viver só, a solidão é não sermos capazes de fazer companhia a alguém ou a alguma coisa que está dentro de nós, a solidão não é uma árvore no meio duma planície onde só ela esteja, é a distância entre a seiva profunda e a casca, entre a folha e a raiz.



Foto de José Saramago: Céu Guarda.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

JOSÉ SARAMAGO (16 DE NOVEMBRO DE 1922- 18 DE JUNHO DE 2010)


Gerana Damulakis

A morte me cala.
Não encontro palavras para fazer uma homenagem ao escritor que admiro e hoje se foi.
A morte vence as palavras.
Cada livro escrito por Saramago foi lido com enorme entusiasmo. Suas frases, seu estilo único, suas histórias... Já escrevi tanto sobre seus romances e, invariavelmente, intitulei meus textos "Saramago, sempre Saramago", dada a quantidade de vezes que senti necessidade de escrever sobre sua obra e, agora, fiquei travada.
Quem vem ao Leitora, encontra nos slides, logo no primeiro, a foto do meu escritor de cabeceira.
Quem já leu alguma coisa aqui, sabe que tenho um caderno com trechos retirados dos romances, livro a livro. Li tudo de Saramago. Já postei, inclusive, poemas de Saramago. Tal admiração, tal empatia, diante da morte dele levanta uma imensa tristeza.
Resta recorrer a ele próprio:

Todos sabemos que cada dia que nasce é o primeiro para uns e será o último para outros e que, para a maioria, é so um dia mais.
José Saramago

domingo, 13 de junho de 2010

"O AMOR É UMA CARTA"

Gerana Damulakis

Machado de Assis de A a X - Um Dicionário de Citações (Editora 34, 2001), de Lucia Leite Ribeiro Prado Lopes, com ilustrações extraídas da Revista Illustrada de Angelo Agostini, é um livro do tipo que eu elaboraria para as frases de José Saramago que, por sinal, já estão no meu lindo caderno com capa dourada e azul, presente de minha amiga da vida inteira.

Admiro o livro e nele releio os achados do Bruxo do Cosme Velho. A ironia elegante do nosso escritor maior é, além de cortante, sempre refinada, como ao comparar o amor com uma carta:

- O amor é uma carta, mais ou menos longa, escrita em papel velino, corte-dourado, muito cheiroso e catita; carta de parabéns quando se lê, carta de pêsames quando se acabou de ler. Machado de Assis in A mão e a luva, cap. I

Ilustração: A Carta, óleo sobre tela de Alfredo Keil, pintado em 1874. Museu do Chiado, Lisboa.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

UMA GRANDE BALADA

Gerana Damulakis


A poesia brasileira do século 20 tem grandes nomes, já sabemos. A poesia brasileira do século 20 tem nomes que não alcançaram rótulos de grandes nomes, embora grandes.
Aqui, na Bahia, dei a minha contribuição ao resgatar um nome que é um grande nome da poesia baiana: Sosígenes Costa.
Se entendida fosse, procuraria resgatar um outro nome: Abgar Renault.
Nascido em Barbacena, em 1901, Abgar Renault morreu em 1995 e escreveu uma poesia que, seguramente, não morreu, mas precisa ser resgatada de certo esquecimento. Independente, com substanciosa carga de vivência, a poesia do mineiro chegou a ser reconhecida, só que faltou algo mais, porque ser reconhecida em dado momento não é o mesmo que ganhar grandiosidade além do tempo.


BALADA DA IRREMEDIÁVEL TRISTEZA
----------------------Abgar Renault


Eu hoje estou inabitável...
Não sei por quê,
levantei com o pé esquerdo:
o meu primeiro cigarro amargou
como uma colherada de fel;
a tristeza de vários corações bem tristes
veio, sem quê, nem por quê,
encher meu coração vazio...vazio...
Eu hoje estou inabitável...


A vida está doendo...doendo...
A vida está toda atrapalhada...
Estou sozinho numa estrada
fazendo a pé um raid impossível.


Ah! se eu pudesse me embebedar
e cambalear...cambalear...
cair, e acordar desta tristeza
que ninguém, ninguém sabe...
Todo mundo vai rir destes meus versos,
mas jurarei por Deus, se for preciso:
eu hoje estou inabitável...


A outra face da lua in Obra Poética (Record, 1990), p. 80.
Ilustração: Monet, da série Nenúfares.

terça-feira, 8 de junho de 2010

2º ROMANCE DE CARLOS BARBOSA: BEIRA DE RIO, CORRENTEZA



Recebi por e-mail, enviado por Marcelo Torres, o texto que divulga o livro de Carlos Barbosa, com lançamento marcado para amanhã. O texto foi extraído do site Notícia Capital, de Jolivaldo Freitas.

A Bom Texto Editora lançará no dia 9 de junho, das 17h às 21h, na Livraria LDM, o segundo romance de Carlos Barbosa, Beira de rio, correnteza: ventura e danação de um salta-muros no tempo da ditadura. O autor retorna ao São Francisco, cenário de seu primeiro romance, para contar a história de Gero, um adolescente que lê livros estranhos, um fracote, que ainda sofre os efeitos de recente tragédia familiar, o sumiço do irmão Toninho no rio. Ao se envolver com Liana, vive as delícias do amor e os tormentos do ciúme. E, enquanto um comando especial do Exército vasculha a cidade e as redondezas na caça do guerrilheiro Carlos Lamarca, escondido em algum lugar por ali, Gero torna-se o principal ator nos acontecimentos da que pode ser chamada de "noite das rajadas".

Segundo o autor, "não se cresce impunemente na beira de um rio como foi o São Francisco. Agora não mais, mas na minha região o São Francisco era fonte primordial de vida e a via de conexão com o resto do mundo. Era também espaço amoroso e lúdico. Havia pouca vida fora do rio. E muita tragédia também em suas águas, das enchentes às mortes por afogamento, infelizmente, comuns. Quando a rodovia federal tocou o rio, no início da década de 1970, alguns desses aspectos se superpuseram, outros trocaram de mão, e aqueles trágicos se acentuaram”.

E tal experiência não poderia ficar de fora de sua literatura. A perseguição aos guerrilheiros Carlos Lamarca e Zequinha Barreto, em setembro de 1971, foi um acontecimento histórico impressionante e perturbador para os moradores da região. Carlos Barbosa era um deles. Esse evento sempre o atormentou para ser transfigurado literariamente. E, ao contar a história de amor entre o adolescente Gero e Liana, uma misteriosa mulher que veio do Sul, a escrita o levou para aqueles dias de insegurança e medo. O autor trata com lirismo o rio e sua correnteza, uma onda contínua que carrega com ele. O título evidencia um simbólico embate entre a matéria – a estática “beira do rio” – e o tempo – a “correnteza” que passa inexoravelmente. Ao mesmo tempo, Carlos Barbosa gera outra dicotomia: recupera ficcionalmente um fato importante e trágico da nossa história recente, com a liberdade que o romance permite, e narra a história de amor de Gero e Liana.

O autor: Carlos Barbosa nasceu no interior da Bahia. Graduou-se em jornalismo e em direito. Atuou nas áreas de Comunicação Social da Caixa Econômica Federal e do Ministério do Planejamento, em Brasília. Escreveu letras de música, participou de festivais e teve seu primeiro conto premiado no Concurso de Contos do Jornal da Bahia, em 1977. É parceiro de Dominguinhos em duas canções. Publicou Água de cacimba, livro de poemas, em 1998; Matalotagem e outros poemas da viagem, pelo selo Letras da Bahia, Funceb/BA, 2006; o romance A dama do Velho Chico (Bom Texto, 2002) – que foi selecionado pelo FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação) para o PNBE (Programa Nacional Biblioteca Escola), em 2009 –; participou das antologias Poesia de Brasília e Contos brasilienses, em 2004. Em 2001, foi premiado pelo Ministério da Cultura no Concurso de Desenvolvimento de Roteiros, com o roteiro de A dama do Velho Chico.

Extraído de: http://www.noticiacapital.com.br/