quinta-feira, 30 de setembro de 2010

SENSAÇÃO DE LEITURA

Gerana Damulakis

Acabei de ler o volume de contos do norte-americano Charles D'Ambrosio, O museu do peixe morto (Grua, 2010), e fiquei fascinada com as narrativas, com todas elas. A atmosfera que o escritor cria nas suas histórias impregna o leitor, a ponto de ser difícil separar a dita sensação do mundo real. Mas, não se pense que são contos à la Tchekhov (pouco enredo, pouca peripécia, muito conflito existencial), pois que a atmosfera vem de outra forma - e isso é o que surpreende: há um outro modo de envolver o leitor em uma sensação - talvez através do personagem e, exclusivamente, através do personagem, estando, tal personagem, a vivenciar uma peripécia; portanto, com muito enredo. Sinto que ainda preciso pensar melhor sobre o assunto.

Separei um trecho que tem afinidade comigo, sem, no entanto, ser muito significativo do que coloquei acima.

Gosto de ler, de ficar sentado quieto na mesma cadeira, com o abajur num certo ângulo, sozinho, e de vez em quando, se tiver sorte, encontro uma bela frase ou sentimento, levanto os olhos do meu livro, sinto a harmonia e a justeza daquela ideia, e sei que já está tudo lá. Isso para mim é a vida, esses momentos de descoberta solitária. Não me contentaria com menos, mas também não espero muito mais que isso.
Do conto"Bênção", de Charles D'Ambrosio

Ilustração: Uma leitura silenciosa, de Kay Blacklock (1872-1924).

13 comentários:

Tania regina Contreiras disse...

Ah, Gerana, ese trecho tem comigo também total afinidade! :-))
Beijos,

Jairo Cerqueira disse...

Um delicioso convite à leitura, Gerana.O conformismo com algo aparentemente pequeno, mas imensurável do ponto de vista da realização do ser pelas letras.
Bom final de semana.
Bjs.

Lisarda disse...

"Isso para mim é a vida": concordo totalmente e comprendo por qué vc gostoi dese trecho.

Assis Freitas disse...

sensação que se irmana,


abraço

Djabal disse...

Coincidentemente eu também estou lendo agora esse livro de contos.
Ele foi indicado como um dos melhores contistas americanos, juntamente com o Carver. E, agora, com o seu apoio também, o que se torna uma referência para seus leitores.
Eu por mim, só posso apoiar o seu bom gosto, e o espírito com o qual você orienta o seu blog. Felicidades. Beijos.Obrigado.

João Renato disse...

Gerana,
A cena descrita é maravilhosa.
Mas o interessante é que eu li esse texto delicioso que você postou na tela de um computador.
E como leitor sobretudo de poesia, já há alguns anos, nunca comprei um livro de alguém sem que antes tivesse lido algum poema dele na internet.
Acho até que leio mais poesia na tela do computador do que no papel.
O papel eu deixo reservado para aqueles autores que construíram, constroem e reconstroem as minhas mitologias.
Aliás, também escrevo há tanto tempo em computador que desaprendi a escrever e já nem consigo mais entender a minha letra ( Eliot dizia que não conseguia imaginar alguém escrevendo poesia antes da máquina de datilografar).
Não sei como meus netos lerão, mas acho que não será "quieto na mesma cadeira, com o abajur num certo ângulo".
Abraço,
JR.

Zélia Guardiano disse...

Belíssimo, Gerana!
Ai, que imaginei até a personagem sentindo um frio na barriga, enquanto descobre o sentido da palavra refletida...
Grande abraço, amiga!

BAR DO BARDO disse...

A leitura promove mais mudança(s) de comportamento(s) que todas as teorias e práticas educacionais.

Penso isso - e expresso.

Bela passagem, Gerana!

Elefante de Costas disse...

Não conhecia o livro até você mencionar. Irei atrás da leitura, porque o trecho me estimulou muito.
Obrigado pela dica, Gerana.

O Elefante de Costas.

Lidi disse...

Maravilha, Gerana. Fiquei curiosa para ler o livro. Também me identifiquei com o trecho que você citou. Você sempre nos dando ótimas dicas de leituras. P.S: Gosto demais das ilustrações que você coloca nos teus posts. Um beijo.

Bípede Falante disse...

G.
Esse cara tem de ser meu parente, tem de ser porque eu não quero sombra e água fresca, eu quero uma cadeira e um abajur que me casem com os meus livros de uma forma macia.
bjs.

Djabal disse...

Terminei de ler os contos de D'Ambrosio, eu posso acrescentar qual chamou minha atenção com mais intensidade: O esquema geral das coisas.
Tirar beleza daquele ambiente, daquelas vidas, é algo bem difícil. Ele conseguiu.
Felicidades, boa semana. Beijos.

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Ah Gerana, que delícia isso. É justamente como me sinto. Tem livros que não avanço, tamanha a quantidade de sentimentos clamos que me dão... e eu levanto os olhos para a imensidão e me sinto agradecida. E fico pensando....

Adorei.