terça-feira, 15 de dezembro de 2009

LISBOA NOS HABITA

Gerana Damulakis

A revista Serrote nº 2, uma publicação do Instituto Moreira Salles, traz ,entre outras jóias, um texto do livro El viento ligero em Parma, de Enrique Vila-Matas. O texto está intiulado “Já estivemos em Lisboa, sem jamais ter estado”. É um belo texto e traz uma sensação compreendida por mim e, creio agora, por muitos que em Lisboa já estiveram.
Ele diz: “Você caminha pela primeira vez pelas ruas de Lisboa e, tal como ocorrera ao poeta Valente, sente a cada esquina a lembrança difusa de já tê-la dobrado. Quando? Não sabemos. Mas já estivemos aqui antes de ter vindo”. A tradução é de Cide Piquet e o texto está ilustrado com cartões-postais antigos de Lisboa, exemplares da coleção do Instituto Moreira Salles.
Quis registrar isto aqui porque também senti, na primeira vez que estive em Lisboa, que já conhecia tudo aquilo. Pensei que a razão fosse o fato de ser baiana de Salvador, uma cidade que herdou muito de Portugal; depois pensei que, embora muito mais próxima do meu lado grego haja vista a minha família paterna ter vindo da Grécia - portanto sem geração intermediária - o meu tanto de Portugal não está tão longe, já que meu avô materno era português: seria a força da ancestralidade.
Constato, com Vila-Matas: aquela impressão de então não foi apenas minha. E fiquei feliz. Que maravilha uma cidade passar para as pessoas uma sensação de conhecimento, de intimidade e, inclusive, se nos aprofundarmos, de pertencimento, pois reconhecemos o que nos habita.
Sobre este escritor espanhol, cujo estilo é fascinante, lembro que o blog O bem, o mal e a coluna do meio (http://obemomaleacolunadomeio.blogspot.com/) tem uma excelente postagem, em 25 de novembro deste ano, que trata de Enrique Vila-Matas: o texto é “Uma pequena história do Não”, quando Dade Amorim escreve sobre o livro Bartleby e companhia, um dos mais aplaudidos títulos de Vila-Matas.
De saída, fica a minha intenção de escrever mais demoradamente sobre os livros do autor do igualmente aplaudido O mal de Montano. Temos traduzidos pela Cosac Naify cinco títulos. Voltarei a eles, a ele.

5 comentários:

Assis Freitas disse...

Essa sensação de pertencimento a uma cidade eu também carrego comigo, aliás devo dizer que a sonoridade lusófona me imspira. Será que houve tempo em que falávamos uma mesma língua?

P.S. Quando puder passe lá no mileumpoemas e vê se gostas do número 61.

glaucia lemos disse...

Gerana: sobre isso de nos reconhecermos em um local onde estamos chegando pela primeira vez, também aconteceu comigo. Justamente em Lisboa, em um largo de pedras do tipo cabeça-de-negro, aos fundos de um conovento não em recordo o nome (tenho memória péssima), quando fomos entrando no largo a impressão nítida era a de já ter estado naquele local. Havia uma mulher com uma lata no chão cheia de rosas, era lindo, eu disse a minha irmã: eu já estive aqui, ela comentou: deve ser a semelhança com o Pelourinho. Mas era como estarmos em Salvador, nos sentirmos em casa.

Bernardo Guimarães disse...

lisboa me habita, como roma veraneia em mim.

maria guimarães sampaio disse...

E aí, eu vivo tão intensamente tais sentimentos ao andar por lá que choooro. Muitcho mesmo. "Por destino ou maldição" se existe outra encarnação... fui fadista com certeza.

anna disse...

aquela cidade toca os brasileiros como filhos que voltam para casa paterna.