segunda-feira, 29 de junho de 2009

NASCER É PERTENCER

Gerana Damulakis


Quando organizei a Antologia Panorâmica do Conto Baiano – século XX - (Editus, Coleção Nordestina, 2004), recebi uma diatribe por não haver incluído escritores que, apesar de não terem nascido na Bahia, viveram, ou vivem na Bahia. Quero, no entanto, tratar da polêmica por um viés pessoal e, contas feitas, como alguém pode se desvincular do pessoal? Um observador da literatura – para não usar a pomposa palavra “crítico” – é uma mistura de conhecimento e de gosto pessoal. Jamais abolirá o gosto pessoal, por mais que seja (e deve ser) imune às simpatias e às antipatias.
A questão ressurgirá com a Atualização do Conto Baiano: a questão relacionada ao lugar de nascimento. Haverá outras questões por conta das ausências na nova reunião. O tal viés pessoal traz uma lembrança cara e carrega uma certeza. É a certeza que faz com que eu fique firme no meu critério sobre a necessidade de ter nascido na Bahia para constar da antologia regional.
A lembrança cara: meu avô viveu décadas no Brasil – em Angra dos Reis (RJ), em Santos (SP), em Torres (RS) e em Salvador (BA). Falava português muito bem, porém, jamais conseguiu dizer o “ão”. Até já contei aqui o quanto eu era uma netinha chata, ficava mandando ele dizer “João”, e ele só dizia “Jon”, assim como “pon”, o que seria "pão" etc. Adorava a Bahia, a cor do mar de Salvador (também já contei aqui), não tinha o que dizer dos brasileiros que não fosse elogio. Na hora da morte – ele morreu em casa, com a família ao redor – foi falando e morrendo, falando e morrendo... todo o tempo em grego, como se nunca houvesse conhecido o português.
A certeza: não adianta, a pessoa nasce e morre pertencendo a determinado lugar. O blá-blá-blá de que não pertenço a isso aqui, nasci no lugar errado e variantes (que não eram o caso de meu avô em relação à Grécia) são infantilidades. Os problemas estão dentro, seguirão com a pessoa na mudança de lugar, sem dúvida. O inferno são os outros (de Sartre) é uma bela frase, só que o inferno não são aqueles que estão em certo lugar; o inferno somos nós mesmos, o que trazemos dentro.
Jorge Amado morou na França, morou no Rio de Janeiro. Jorge Amado é um romancista francês? Jorge Amado é um romancista carioca? Ele entrou para a história da literatura como romancista baiano, qualquer questionamento seria ridículo.

10 comentários:

Renata Belmonte disse...

Gerana,
Concordo com grande parte do seu texto. De fato, nascer é pertencer. Não se pode fugir disto, as referências do lugar em que nascemos (e crescemos!)são mesmo muito fortes na construção da nossa identidade.
Apenas discordo que os problemas estão sempre dentro e que nos seguirão com a mudança de lugar. Faço tal observação por conta da minha própria experiência. Sim, alguns dos nossos problemas são internos, mas nem todos. O ambiente tem maior importância do que eu pensava.
De qualquer forma, adorei o texto. Aproveito ainda para deixar um beijo.
Renata

maria guimarães sampaio disse...

Gostei, Gerana. É isso aí! "Mas como toda regra excessão" de repente rola um baiano como Carybé nas artes plásticas e uma baiana como Jussara Silveira na música popular. Mas continuo concordando com seu texto. E gostando.

Eliana Mara Chiossi disse...

Gerana, concordo... mas acho que como nem todos pensam assim, quando a gente se ausenta por muito tempo do lugar onde nasceu, corre o risco de não ser considerado como parte da cultura deste lugar. E neste caso, o que pode é haver, em algumas coletaneas e antologias um critério ampliado, para que aqueles que vivem e produzem no lugar em que não nasceram possam estar incluídos. Mas a questão aí é o critério. Sempre tem de haver critérios, porque as antologias não são infinitas (talvez só as borgianas) e os critérios ajudam a manter uma certa ética na escolha, que deve, concordo com você, passar também pelo gosto de quem organiza.
Fique tranquila. As reclamações virão com certeza.
Estou na minha terra natal (São Paulo) sentindo saudade da terra em que vivo...

Beijos


Eliana

aeronauta disse...

Nós, para onde vamos, carregamos nossa terra por dentro, indissoluvelmente.

M. disse...

Serei sempre sergipana de Lagarto, faço questão de ser identificada assim, onde quer que eu vá. No entanto, quando estou lá, na minha Terra Natal, me sinto uma estrangeira. Muito bonito o seu texto.

Kátia Borges disse...

Oi, Gerana, ainda devendo a foto... Olhe,concordo com Aeronauta, acho que levamos nosso lugar dentro de nós, um interior subjetivo. É isso. Beijão.

Goulart Gomes disse...

Gerana: acredito que, sobretudo, há de se estabelecer um corte (não epistemológico!), recorte ou critério quando é necessário desenvolvermos trabalhos assim. Por essas e outras é que dizem que sou simplista: somos todos cidadãos do mundo, mas baiano é quem nasceu na Bahia, onde quer que esteja, e fim. O resto é discutir sexo dos anjos. Você é coerente com o critério que utiliza.

glaucia lemos disse...

GErana: Acho que o autor tem todo direito de ser fiel a seus critérios e não tomar conhecimento de críticas negativas. Respeito o forasteiro(sem pejorativo por favor) como um irmão, mas também respeito o autor, que tem direito de fazer suas escolhas.

Janaina Amado disse...

Gerana, desde ontem, quando li seu post, penso nele, pois acho o tema muito interessante. Sem dúvida a literatura de Jorge Amado é a Bahia, de Erico Veríssimo, o RGS, de Milton Hatoum, o Amazonas , de Guimarães Rosa, Minas etc. Nascer é pertencer. E, como escreveu o Goulart Gomes, para organizar uma antologia é preciso um critério, e o que vc. escolheu parece pertinente, e isso basta — não estou discutindo seu critério. Mas a minha curiosidade é com as exceções, pois elas sempre existem, como Maria lembrou, e põem dilemas para o estudioso. Clarice Lispector, p. ex., seria considerada uma escritora da Ucrânia, onde nasceu? Escritora de Pernambuco, onde passou a infância? Ou escritora carioca, universo da maioria dos seus contos e romances, e onde ela viveu muitos anos? O mineiro Campos de Carvalho, com longa estadia em São Paulo mas um universo ficcional surrealista, etéreo, seria considerado um escritor “mineiro”, como Sabino? Não conheço suficientemente a literatura baiana, por isso pergunto: nos seus estudos vc. encontrou exceções? Por exemplo, autores que nasceram em outros Estados mas cujo universo ficcional é baiano?

Maria Muadiê disse...

Fico pensando sobre tudo que vcs dizem...e me ocorre uma dúvida, não quanto ao critério, que concordo, há que se ter critérios e estes nunca agradarão a todos. Mas, quando falamos sobre o autor nascer em determinado lugar e pertencer a ele, estamos falando de que? do "tema" da sua obra? Pois o exemplo "forte", Jorge Amado, é um construtor de uma (certa) idéia de baianidade.
E quanto aos escritores como Pepetela e Mia Couto que são portugueses, mas são escritores reconhecida e declaradamente angolano e moçambicano?
beijos,
Martha