segunda-feira, 1 de junho de 2009

"A MORTE ESPACIAL QUE ME ILUMINA"

Sinto que o mês presente me assassina

Mário Faustino

Sinto que o mês presente me assassina,
As aves atuais nasceram mudas
E o tempo na verdade tem domínio
sobre homens nus ao sul das luas curvas.
Sinto que o mês presente me assassina,
Corro despido atrás de um cristo preso,
Cavalheiro gentil que me abomina
E atrai-me ao despudor da luz esquerda
Ao beco de agonia onde me espreita
A morte espacial que me ilumina.
Sinto que o mês presente me assassina
E o temporal ladrão rouba-me as fêmeas
De apóstolos marujos que me arrastam
Ao longo da corrente onde blásfemas
Gaivotas provam peixes de milagre.
Sinto que o mês presente me assassina,
Há luto nas rosáceas desta aurora,
Há sinos de ironia em cada hora
(Na libra escorpiões pesam-me a sina)
Há panos de imprimir a dura face
À força de suor, de sangue e chaga.
Sinto que o mês presente me assassina,
Os derradeiros astros nascem tortos
E o tempo na verdade tem domínio
Sobre o morto que enterra os próprios mortos.
O tempo na verdade tem domínio
Amen, amen vos digo, tem domínio
E ri do que desfere verbos, dardos
De falso eterno que retornam para
Assassinar-nos num mês assassino.

Quem gosta muito de poesia sabe a razão deste poema ter sido colocado aqui hoje. O verso famoso de Faustino, "A morte espacial que me ilumina", é entendido como uma espécie de premonição. Mário Faustino nasceu em 1930 no Piauí, Brasil, e morreu em 1962, vítima da explosão de um avião acima dos Andes, no Peru.

4 comentários:

aeronauta disse...

Ai, que dor. Dor fina no peito. Maravilhoso poema.

Maria Muadiê disse...

Maravilhoso. Eu não conhecia.

"O Grande Desastre Aéreo de Ontem


Para Cândido Portinari

Vejo sangue no ar, vejo o piloto que levava uma flor para a noiva, abraçado com a hélice. E o violinista em que a morte acentuou a palidez, despenhar-se com sua cabeleira negra e seu estradivárius. Há mãos e pernas de dançarinas arremessadas na explosão. Corpos irreconhecíveis identificados pelo Grande Reconhecedor. Vejo sangue no ar, vejo chuva de sangue caindo nas nuvens batizadas pelo sangue dos poetas mártires. Vejo a nadadora belíssima, no seu último salto de banhista, mais rápida porque vem sem vida. Vejo três meninas caindo rápidas, enfunadas, como se dançassem ainda. E vejo a louca abraçada ao ramalhete de rosas que ela pensou ser o paraquedas, e a prima-dona com a longa cauda de lantejoulas riscando o céu como um cometa. E o sino que ia para uma capela do oeste, vir dobrando finados pelos pobres mortos. Presumo que a moça adormecida na cabine ainda vem dormindo, tão tranqüila e cega! Ó amigos, o paralítico vem com extrema rapidez, vem como uma estrela cadente, vem com as pernas do vento. Chove sangue sobre as nuvens de Deus. E há poetas míopes que pensam que é o arrebol."

Jorge de Lima
Um beijo,
Martha

gláucia lemos disse...

Bem apropriado para lamento da tragédia que o mundo inteiro está chorando. Uma dor coletiva que nos faz lembrar que poderia ser qualquer um nos quais possamos pensar, que estivesse entre os sacrificados. Que Deus os ilumine onde estejam as suas almas.

Katia Borges disse...

Oi, Gerana, acho esse poema fabuloso, corajoso e de uma força extraordinária. Um beijo enorme