sexta-feira, 29 de maio de 2009

REVISITANDO ADÉLIA PRADO

Gerana Damulakis

Leio e leio e leio romances e contos, mas a poesia não cala dentro de mim. A poesia dos outros, claro está. Nem de longe um ataque de vaidade, não combina, deixo a vaidade para certas pessoas que acabarão explodindo um dia desses. É sobre poesia que desejo escrever.

Maria Muadiê colocou outro dia algumas linhas de Adélia Prado no seu blog. Tive que retornar para a poesia de Adélia, precisei entrar de novo naquele seu mundo poético tão original, tão sagrado. A fé que permeia aquela poesia, quando mais não fosse pelo fato de fazê-la mais bela e encantada, seria uma nota para distinguir a poeta. Fé, amor, sexo, miudezas da vida: parece que Adélia torna poesia cada segundo vivido. De todas as facetas, escolhi o momento sublime que segue.


Casamento

Adélia Prado

Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como 'este foi difícil'
'prateou no ar dando rabanadas'
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.

Quero colher um poema fervente de religiosidade, outro atravessa a opção e mais outro. É tão apaixonante pegar a Poesia Reunida (Siciliano, 1991) de Adélia Prado e mergulhar completamente no universo da mineira que não resisto e colo aqui o diálogo com Drummond, responsável pela descoberta da poeta:


Com licença poética

Adélia Prado

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

7 comentários:

Noga Lubicz Sklar disse...

Oi, Gerana
Antonio Torres recomendou vc como "a melhor crítica literária da Bahia", aspas por citação, claro.
Gostaria de te apresentar meu novo livro de crônicas, "O Gozo de Ulysses".
Trechos do livro estão disponíveis em: http://www.scribd.com/doc/15801440/O-Gozo-de-Ulysses-As-multiplas-linguas-de-James-Joyce
Para releases e mais info, favor entrar em contato com Claudia Campos em claudia@usinadacomunicacao.com.br, ok?
Beijos! Obrigada!
Noga Lubicz Sklar
www.noga.blog.br
autor@noga.blog.br

Maria Muadiê disse...

oi, Gerana, que delicadeza escrever dizendo que leu em meu blog aquele trechinho dos Componentes da Banda. Adélia é fundamental pra mim, estou sempre lendo.
Um abraço,
Martha
PS: Amei a foto dela, acho Adélia linda.

Gerana Damulakis disse...

Maria: não é a 1ª vez que, por causa de seu blog, eu paro tudo e vou pegar o livro do poeta que vc colocou lá. Delícia pura!!!

Gerana Damulakis disse...

Noga: tire 99,99% do que diz Torres, ele é muito amigo e os amigos costumam nos afagar. Irei lá em busca de seu livro.

glaucia lemos disse...

Eu também, Adélia, e como!

fred disse...

Preciso ler mais Adélia.
Beijos, Gerana

Anônimo disse...

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