segunda-feira, 13 de abril de 2009

BAIANO QUE É BAIANO...


Marcelo Torres


Baiano que é baiano fala porra a cada dez palavras. Ou a cada cinco. Na Bahia, porra é tudo, menos a porra improperiamente dita Brasil afora, ou melhor, Brasil adentro. Como diz Renato Fechine, porra na Bahia é adjetivo, substantivo, interjeição, adjunto adnominal e advérbio de modo, de tempo, de lugar, de intensidade... da porra toda.
Quando se diz que "O cara mora na casa da porra" se quer dizer ele mora na casa do chapéu, no gebe-gebe, longe pra caramba, na casa da desgraça, no "zinferno".
Baiano que é baiano aguenta comer pelo menos dois acarajés sem passar mal. E ainda fica querendo mais, só que a fila fica grande e aí bate aquela preguiça de comprar outro.
Se você não sabe, acarajé é hambúrguer de baiano.
O baiano que é baiano mesmo chama as amigas de "ordinárias" e até de “piriguete” e elas não se incomodam, não se sentem ofendidas, sabem que é um tratamento carinhoso. Em Salvador é comum você olhar para sua amiga (seja ela pretinha, branquela, loira ou morena) e falar “ô, sua nigrinha", e ela achar o máximo, baianamente.
Baiano não admite cocó nem fulerage pu seu lado. Traduzindo: não gosta de cheiro mole. Entendeu não? Oxente, você tá precisando se matricular num curso de baianês. Urgente!
Pegar um rango, bater um rango e filar a bóia significam a mesma coisa: almoçar, comer, matar quem tá te matando. E quando um baiano fala “Eu tô de rango” significa que tá com fome.
Baiano que é baiano não bebe. Come água. Fica em águas. "Ontem Fulano estava em água dura". Tradução: estava trêbado, pra lá de Maracangalha. Bebeu cuma-porra e chamou Hugo (ou seja, vomitou). O baiano, quando chama um brother pra beber, fala: "Rumbora cumê água?" Em Salvador ninguém fala balada. Fala reagge. “Bora pu reagge?”. Não importa se a música é axé, samba, pagode, reagge, MPB, rock, forró – tudo, tudo, tudo é reagge.
Todo baiano chama Graça de Gal, Wagner de Wal, Gilberto de Gil...Para meus amigos, parentes e aderentes, eu não sou Marcelo. Sou Macelo (engole-se o "r"). Sérgio é Sejo, terça-feira é têça-fêra; bar é bá e cerveja é ceveja.
Baiano que é baiano engole a letra d do gerúndio: - Qué qui cê tá FAZENO? -Eu tô DURMINO... Caminhano e cantano e seguino o trio elétrico...Numa roda de baianos e baianas, quando alguém chega após ter tomado banho, as pessoas falam: "hum, chegou toda tomada banho". Traduzindo: "Ela chegou limpinha, cheirosinha".
Baiano que é baiano sabe o significado da frase: "O cara tava mais enfeitado que jegue na Lavagem do Bonfim". Ou seja, usava excessivo número de adereços e enfeites.
O baiano de Salvador, sabendo ou não falar inglês, sabe que no baianês brown [bráun] não é a forma carinhosa de chamar Carlinhos Brown, o omelete-man. Brown é adjetivo de pessoa brega-espalhafatosa-cafona. É aquele motorista que põe mil adesivos no carro, o cara cheio de colares de prata e pulseiras. "Que cara mais brown!"
Baiano que é baiano sabe o que é "lavar a jega". É se dar bem, levar vantagem, lavar a égua, lavar a burra, lavar a jumenta, feminino de jumento, jerico.
Todo baiano sabe que jante não tem nada a ver com o verbo jantar. Na Bahia, jante significa aro de pneu. "Rodar na jante", no sentido denotativo baiano, é o carro rodar com o pneu vazio ou furado. Mas, na putaria, rodar na jante é transar sem camisinha.
Baiano que é baiano sabe o que é nestante. É "nesse" + "instante", ou seja, daqui a pouco. Baiano fala pra semana (na próxima semana), parumês (no próximo mês) e paruano (no próximo ano). "Paruano sai milhó", diz o dono do bloco decarnaval.
Só baiano sabe o que é falar "de hoje a oito". "Meu aniversário é de hoje a oito", ou seja, é daqui a sete dias.
Baiano que é baiano fala horas de relógio. "Fiquei duas horas de relógio esperando aquele filadaputa". Em geral, fala-se "horas de relógio" quando se quer enfatizar atraso, demora.
Em Salvador, se você convida alguém prum aniversário ou batizado de boneca, essa pessoa leva uma renca de amigos (renca = muitos, uma catrupia, muita gente).
Baiano fala na moral em vez de por favor... "Pega isso aí pra mim, na moral".
Baiano vive dizendo que Sergipe é o quintal da Bahia... E o sergipano adora a Bahia e os baianos. O baiano de Salvador parece não querer ser nordestino e esculhamba o sotaque de sergipanos, alagoanos, pernambucanos, potiguares, paraibanos... (não deveria ser assim, mas é, infelizmente é).
Baiano chama ônibus de humilhante. “Vou de humilhante”. Ou então é simplesmente carro. “Vou pegar o carro” (pegar o buzu). Taxista em Salvador é taquicêro.
Baiano acha legal quando dizem que ele é "retado"; "boca de zero nove" ou "um pinico cheio". Significa dizer que é um cara legal, porreta, “um cara de fudê”!
O baiano, quando tá indo embora, não diz "tô indo"; ele diz "tô chegando". Não vai embora, se pica. "Vou me picar" significa "vou cair fora". Em Salvador, “se picar” não é se auto-molestar, é cair fora, ir embora.
Ruma, em Salvador, é um bocado de coisas, uma ruma. Uma ruma de papel, uma ruma de gente, uma ruma de bagulho, ruma de tralha. E ainda tem o verbo rumar. “Rumei-la porra nele”, ou seja, arremessou alguma coisa no infeliz.

Na Boa Terra, é comum você tratar um amigo, um colega ou um desconhecido como "pai". Se for mulher, "mãe". "Venha, pai". "Venha, mãe". Muitas letras de músicas baianas têm pai e mãe nesse sentido. "Venha cá, papá". Também é comum tratar um desconhecido como "maluco", mas é uma forma carinhosa. "Vai, maluco" (é como o ‘tchê’ do gaúcho, o ‘meu’ do paulistano e o ‘malandro’ do carioca). Brother, maluco, velho, bicho, baêa, irmão.. tudo isso é saudação de amigo pra amigo.Quando se diz "A reunião não teve um pé de pessoa", se quer dizer que a reunião não teve ninguém.Tem também o cara que diz "Colé a de mermo?", e o outro responde: "É niúma". Papo cabeça.
Todo brasileiro acha que baiano fala a palavra arretado. Não tem o ‘a’, baiano fala ‘retado’. Raul cantava: "Não planto capim guiné pra boi abanar rabo/ Tô virado no diabo/ eu tô retado com você/ Tá vendo tudo e fica aí parado/ Com cara de veado/ Que viu o caxinguelê".
"Tô retado" significa tô zangado, tô puto da vida. Mas retado também exerce a função de superlativo: "É bonito que é retado" [ou seja, é muito bonito]. "O cara é retado de feio" [ou seja, é muito feio]. E, quando se diz "Ele é um cara retado", significa dizer "Ele é boa praça".
A Bahia é o único estado que começa com B - de Brasil.
O mapa da Bahia é quase igual ao do Brasil, você já viu?
A Bahia tem a maior costa marítima do País, você sabia?
A Bahia faz divisa com oitos estados. E Salvador é a terceira cidade mais populosa do país, você sabia? Não, a maioria dos soteropolitanos não sabe disso, pode fazer um teste agora e perguntar "qual a cidade mais populosa do país depois de RJ e SP"; eles vão dizer que é BH ou Porto Alegre (faça pergunta sem dar pista).
Tinha um baiano que era magro pra caramba e o apelido era Gordurinha. Ele disse o seguinte: "Um baiano é uma coisa divertida; dois baianos, uma boa pedida; três baianos, uma conversa comprida; quatro baianos, um comício na avenida".

E ainda se diz também que: 1 baiano = um escritor famoso; 2 baianos = uma luta de capoeira; 3 baianos = um grupo de axé; 4 baianos = um terreiro de candomblé.
Pois é, todo baiano tem um pouco da sátira de Gregório de Matos (o boca de inferno), da poesia de Castro Alves, da malemolência de Gilberto Gil, do “marquetingue” de Duda e de Nizan (que disse que o baiano não nasce, baiano estreia).

Todo baiano tem um pouco da esperteza de ACM e da candura de Irmã Dulce. Todo baiano tem régua e compasso que a Bahia lhe deu. Todo baiano tem um santo, uma ginga de corpo, um rei na barriga. A música nas veias, o ritmo no pé, o 'oxente' na boca.

E a música: "Que bom você chegou/Bem-vindo a Salvador, coração do Brasil/ Vem, você vai conhecer/ A cidade de luz e prazer/ Correndo atrás do trio/ Vai compreender que um baiano é/ Um povo a mais de mil/ Ele tem Deus no seu coração/ E o diabo no quadril".

Marcelo Torres é baiano, jornalista, cronista, torcedor do Vitória,(mailto:mmarcelocronista@gmail.com) ,
se repassar, conserve o texto original, o e-mail e o blog do autor.
Foto da Praça Castro Alves, Salvador, Bahia, de koichimura, retirada do Flickr.

4 comentários:

pereira disse...

É isso mesmo, a gente fala assim. Muito bom!

Pedro disse...

Me lavei,ri como a porra.

gláucia lemos disse...

Já conhecia esse texto e ADOREI mesmo. Mas não concordei que o baiano exclui o d do gerúndio. Na verdade quem diz durmino e comeno não é o baiano instruído, até pode se ter instruido, mas é aquele baiano que nasceu e cresceu em ambiente de pessoas de pouca instrução. Os instruidos falam certo os gerúndios.Agora, aquela de chamar amigas de "ordinária", "peste" e que tais, conheço de perto da parte do meu amigão, o poeta Luis Cajazeira.É a maneira dele mostrar que gosta da gente.

Marcelo disse...

Querida Gerana. O meu mail saiu com um 'm' a mais. Se puder corrigir, o certo é marcelocronista@gmail.com. É que adoro receber mensagens. Abração aí para vocês.