quarta-feira, 18 de março de 2009

10º ANIVERSÁRIO DA MORTE DE J. J. VEIGA




PRAZER E TURBULÊNCIA


Aramis Ribeiro Costa


Objetos turbulentos é o título do mais recente livro de José J. Veiga, um título que poderá não atrair algum leitor, mas que é no mínimo pertinente ao conjunto das onze histórias curtas que a Bertrand Brasil entrega ao público com um subtítulo que é também uma sugestão: “contos para ler à luz do dia”.
Tendo como elemento detonador de cada trama um diferente objeto, a princípio insignificante ou de menor valia, mas que se transforma em centro de atenções dos personagens — e, obviamente, dos leitores —, Veiga percorre em cada história a curva ascendente e descendente do prazer à turbulência, fazendo com que esses mesmos simples objetos desencadeiem crises existenciais, como no excelente “Cachimbo”, transcendam a realidade pelo onírico, como em “Cadeira” e “Vestido de Fustão”, ou se tornem símbolos de um indesejado reverso da vida, como em “Espelho”.
Primoroso na sua concepção e no seu significado, “Cachimbo”, certamente o mais impactante do conjunto, faz do objeto de prazer e relaxamento um instigador da inveja, do preconceito e até, mais explicitamente, do racismo, curiosamente entre os da mesma raça. “Espelho”, na sua dimensão metafórica, admitiria a célebre leitura das entrelinhas na análise da sua real significação. “Cadeira” levaria o leitor àquela outra realidade jamais inteiramente desvendada, a do imaginário, tantas vezes mais incômoda e complexa que a cotidiana. O desejo de reconquista do objeto extraviado, em “Manuscrito Perdido”, é a ascendência da curva, que vai descender na turbulência da compreensão da sua exata importância. E o “Caderno de Endereços”, na verdade tão insignificante, seria a causa da perdição de um menino pobre, cujo sonho era viver na Alemanha.
Dessa maneira e assim por diante, embora o conjunto apresente como ponto em comum o enredo em torno do objeto, e os relatos tenham o prazer como partida e a turbulência como chegada, cada episódio possui, de forma independente, a sua acepção própria e a sua própria intencionalidade, bem como o seu ritmo e o seu plano narrativo.
Poderá parecer que os onze contos, por certo planejados para formarem a unidade do livro, sejam textos altamente elaborados com a intenção de impressionar a crítica ou, quem sabe, um público mais qualificado literariamente, tornando-se herméticos ou desinteressantes para o chamado grande público. Mas são exatamente o oposto. Sem deixarem de atender às exigências da qualidade — afinal, trata-se de um veterano e conceituado autor —, eles fluem suavemente, repassados de ternura e de fino humor, por vezes ironia e até uma discreta indignação, como se fossem narrados por um contador a viva-voz, voz mansa e pausada de quem ferra uma conversa gostosa.
Em “Manuscrito Perdido”, o personagem, que é um escritor, pensa, a respeito de algo que escrevera: “o conto tinha muitas sutilezas, muitas sinalizações disfarçadas, variações de ritmo, por isso gostara dele, talvez fosse o melhor de toda a coleção, o mais trabalhado para parecer espontâneo na leitura”. Isto é o que pensa o personagem de José J. Veiga sobre o que ele considera ser a sua obra-prima. Quem sabe não será precisamente isto que pensa o próprio José J. Veiga sobre o que seja um ótimo conto, e não se encaminhe, no seu ato de criação, para essas diretrizes? O fato é que são, em sua maioria, assim mesmo as suas narrativas, leves, sutis, com sinalizações ocultas, alternâncias de ritmo e, sobretudo, espontâneas. E vão levando o leitor de história a história, despertando inclusive uma curiosidade extra, por se saber antecipadamente que cada trama é motivada por um objeto: como será a da “Luneta”? E a do “Tapete Florido”? O que ocorrerá com a “Pasta de Couro de Búfalo”? E com o “Cinzeiro”? E, afinal, o que será esse objeto misterioso chamado “Cantilever”?
Esse livro, Objetos turbulentos (Bertrand Brasil, Rio de Janeiro, 1997, 157 pgs.), que o autor recomenda seja lido à luz do dia, é um bem sucedido exercício de composição ficcional. Uma curiosa experiência que resultou em páginas, como a já citada “Cachimbo”, que, sem dúvida, se tornarão tão antologiadas quanto tantas outras do consagrado autor de Os Cavalinhos de Platipanto.




A resenha de Aramis Ribeiro Costa foi publicada no suplemento Cultural do jornal A TARDE, em 1997, e agora está resgatada como uma forma de homenagear o escritor de Góias. Na época, J. J. Veiga escreveu uma carta para Aramis, expressando o quanto havia gostado do texto; em outras palavras, chegou a escrever que foi a melhor resenha que ele já havia lido sobre um livro seu. GD

Um comentário:

Luís disse...

J. J. foi muito simpático quando esteve aqui. Excelente narrador.